Resposta ao Luciano Huck (manifesto número zero)

Sexta-feira, 19 de outubro de 2007. Rodovia dos Imigrantes, São Paulo. Uma Ferrari em alta velocidade bate contra um poste. Uma equipe de reportagem vai cobrir o acidente. Ao perceber que estava sendo filmado, o motorista agride o cinegrafista, que teve que ir ao hospital e fazer cinco pontos na boca. O policial que estava no local, mesmo vendo o cinegrafista ensanguentado, disse que nada viu, e ainda, deixa o agressor fugir com seus amigos, que passaram a hostilizar a equipe de reportagem, acusando-os de sensacionalistas. Apenas citei esse fato para ilustrar como a sociedade neste país ainda é elitista, o Estado é uma autoridade inócua e que muita coisa precisa ser mudada, já que estar em uma situação social mais privilegiada parece ser garantia de impunidade e poder. Basear-se na justíça pelas próprias mãos, na Lei de Talião, no poder aristocrático ou paralelo, não resolvem, pelo contrário, agravam a situação social em que vivemos no Brasil. Quando Luciano Huck escreveu aquela crônica, a maioria achou que ele resolveu matar mosca com bala de canhão. Resolvi então entender, mas de forma crítica, o que ele quis nos dizer.

É difícil para qualquer um, delinear um ponto de vista, seja positivo ou negativo, das causas da violência urbana. A impressão que se tem, ao ler o desabafo de Huck, é que as causas são recentes, mas a situação caótica de nossa sociedade é fruto de uma sucessão de erros históricos que deixaram sequelas que levarão muito tempo para serem corrigidas. Tudo começa com a ocupação portuguesa no país, em 1500, quando resolveu-se desenvolver por aqui uma colônia de exploração, utilizando-se de meios cruéis e ilícitos de dominação, utilizando de mão de obra escrava da África, e dizimando populações indígenas inteiras. Passa por um aristocrático e golpista processo de independência, o qual não houve mártires, nem heróis, e tampouco participação popular. Chega a uma abolição da escravidão de forma tão mal-outorgada que em vez de promover a inclusão dos recéns ex-escravos, acabou por segregando-os e marginalizando-os. Passa também por um processo conturbado de proclamação da República, que simplesmente troca seis por meia-dúzia, pois a aristocracia continuaria com o domínio político, com processos eleitorais fraudulentos, corrupção, acordos de cavalheiros, coronelismo e um estado nenhum pouco disposto a promover inclusão social. Chega ao estado novo com pretenções populistas, assistencialismo e um estado caro e ineficiente. Quando parecia que haveria uma mudança no quadro socio-político no país, uma velada intervenção estadunidense, por considerar que o país caminhava para o bloco socialista, acabou por culminar em um golpe militar, que além de minar um processo popular-democrático, provocou retrocessos de ordem social, cultural e político. Naquela época o Estado passou a exercer uma forte manipulação na sociedade controlando a imprensa, a educação e a opinião (reprimindo de forma dura as opiniões contrárias), paralizando a opinião pública. As pessoas foram manipuladas e ensinadas a ter aversão a política, ter uma participação passiva na sociedade e de acreditar que o Estado é quem deveria tomar essa atitude. Quando, em 1985, o Brasil voltou a ser governado por um civil, o estrago estava feito: o país tornou-se uma grande anarquia, e quando a sociedade se deu conta, já estava praticamente dependente do Estado, o qual voltaria a adotar as velhas táticas da república velha: Toma lá dá cá, é dando que se recebe, esquemas, corrupção, descaso. Enquanto isso, o poder paralelo do crime organizado se infiltrava na sociedade como ervas daninhas, envenenando todas as camadas da sociedade, corrompendo famílias, organizações sociais e políticas até chegar ao estado, corrompendo-o como um todo. Imaginar que Renan, esquema PC, PCC, Comando Vermelho, Anões do Orçamento, propinas, Valerioduto e outras coisas seriam extirpadas de nosso país, se o nosso povo tivesse consciência de seu papel e, unido, fosse à luta, seria algo utópico. Isto porque há uma velada luta de classes (resquícios da abolição da escravatura, já que boa parte da população mais flagelada é descendente dos escravos abolidos) e um individualismo ignorante, anti-ético representado pela Lei de Gerson, que foi bastante difundido nas décadas de 70 e início da de 80, no áuge do regime militar. A união popular somente surge de forma aparente, no futebol, durante a Copa do Mundo. Eu já ouvi falar da história de um canibal que achou um absurdo a execução de uma pessoa que havia cometido tal ato. E assim imaginei a situação da opinião pública: as classes mais abastadas acharam um absurdo o roubo do Rolex do Huck, enquanto as classes mais miseráveis viram como absurdo a agressão ao cinegrafista, com o agravante de o ato ter sido cometido por um jovem rico. Assim, há uma balança injusta com pesos e medidas diferentes, pois o julgamento depende de quem o pratica e de quem o julga, e assim dois Brasis: o Brasil visto de cima, das classes mais abastadas, e o de baixo, o das mais miseráveis. Chega a ser um absurdo, mas é uma realidade cruel de nosso país, que possui uma das piores distribuições de renda do mundo.

Soluções existem, mas dependem de uma mudança de postura e uma mudança de pensamento. O povo precisa se unir e passar a ter uma postura proativa frente aos problemas nacionais. A violência não é um problema social, e sim um sintoma de um problema muito maior que é o de uma sociedade extremamente desigual. E para acabar com a desigualdade é preciso estabelecer condições para que essa sociedade se desenvolva de forma mais igualitária. E é de extrema importância que o povo se manifeste. Se a CPMF serve para custear melhorias na saúde pública e não se vê melhorias, não é viável sua cobrança. Se as cotas para indígenas e afrodescendentes servem para estabelecer inclusão socio-racial, e não há uma educação de base eficiente para torná-los aptos a fazerem curso superior, esse esforço é inútil. Estabelecer programas de renda mínima, sem promover programas de geração de renda que inpependem de programas de renda mínima, é disperdício de dinheiro público. Tentar modernizar um estado burocrático, sem redefinir leis que acabem com a burocracia é um retrocesso. Vetar leis por questões morais ou religiosas, é mero moralismo hipócrita, visto que a sociedade é feita para todos e as regras devem tratar as pessoas com justiça, respeitando suas individualidades. Estar acima da lei, somente por governar é injusto, visto que todos devem ser iguais perante a lei, o que é verdade na teoria, mas na prática, é mera utopia, e nossos governantes precisam ter mais deveres e menos privilégios. Por fim, achar que tudo isso é solúvel de forma imediata é impossível, pois além de haver pessoas que ganham com isso, em um enorme jogo de interesses, os problemas nacionais são muito graves e complexos para serem resolvidos dessa maneira. Portanto, vamos ter de nos uni, acabar com a rixa de classes, sair às ruas e exigir mudanças. Não é possível que mesmo de barriga cheia não é possível chorar.

Sem Titulo 20/10/2007-2:1

Pensamentos quase póstumos


Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa


LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem.
E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial.

E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.

Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.

Por quê? Por causa de um relógio.

Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.

Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.

Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.

Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.

Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.

Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.

Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso.

Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.

Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa.

De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.

Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.

Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?

Estou à procura de um salvador da pátria.

Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal.

Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela.

Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.

Enfim, pensei, pensei, pensei.

Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei".

Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo.

E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.

Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.

Isso não está certo.


LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa "Caldeirão do Huck", na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.

Tudo por escrito

Agora estou escrevendo este post através de uma nova ferramenta do windows live: o Windows Live Writer. Com ele é possível escrever os posts off-line e depois publicá-los quando conectado à internet. Isto é ideal para quem tem computador com conexão discada ou para notebooks, em que nem sempre a conexão é disponível. Outra vantagem é que você não precisa se preocupar com o tempo de expiração da conexão nem com agilidade, pois numa interface web, dependendo da configuração da máquina, a tarefa de  redigir um post é uma coisa realmente trabalhosa. Parece que a tendência é a convergência entre o mundo conectado e o mundo desconectado.

Salvem O Corinthians (pelo Amor De Deus)

Senhoras e senhores deste humilde blog. A situação do corinthians (grafado em minúsculo, pois esse clube se apequenou demais para ser considerado grande) está cada vez mais insustentável. Em crise dentro e fora do campo, a um iminente (mas evitável) rebaixamento para a série B. O clube com a segunda maior torcida do país vê 2007 como um ano de vacas magras. A parceria com a MSI, recém desfeita, que há dois anos parecia ser uma benção, tornou-se um calvário, pelos meios escusos que se obteve e agiu. Até o título brasileiro de 2005 passou a ser alvo de questionamentos, o que pode, de fato, tornar ainda mais obscura a situação do Corinthians nos próximos meses. E uma demosntração disso já ocorreu ontem com as hostilidades da torcida, no treino de ontem. Nelsinho Batista terá um trabalho herculíneo para reverter a situação do time que terá dois desafios que podem decretar a sua derrocada. Se perder para Fluminense e São Paulo, dificilmene o time encontrará motivação para escapar da degola. As pessoas que lerem esse post vão discordar da minha opinião, mas é melhor que o corinthians caia. Isto porque todos os ratos que corroem o clube deverão sair e somente aqueles que estejam empenhados em tornar o clube vencedor permanecerão no comando. A situação do corinthiansé o reflexo do caos que vive o futebol e o esporte brasileiro, que poderia render, de fato, um papel importante para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Entretanto, os clubes esportivos no país continuam elitistas e com administração amadorística e excêntrica, muitas vezes utilizando recursos dos próprios clubes em benefício de seus administradores. É por essas e por outras que o Brasil, apesar dos talentos esportivos que possui, ainda não chegou ao status de potência olímpica.

Salvem o Corinthians (pelo amor de Deus)

Senhoras e senhores deste humilde blog.
A situação do corinthians (grafado em minúsculo, pois esse clube se apequenou demais para ser considerado grande) está cada vez mais insustentável.
Em crise dentro e fora do campo, a um iminente (mas evitável) rebaixamento para a série B. O clube com a segunda maior torcida do país vê 2007 como um ano de vacas magras. A parceria com a MSI, recém desfeita, que há dois anos parecia ser uma benção, tornou-se um calvário, pelos meios escusos que se obteve e agiu. Até o título brasileiro de 2005 passou a ser alvo de questionamentos, o que pode, de fato, tornar ainda mais obscura a situação do Corinthians nos próximos meses. E uma demosntração disso já ocorreu ontem com as hostilidades da torcida, no treino de ontem. Nelsinho Batista terá um trabalho herculíneo para reverter a situação do time que terá dois desafios que podem decretar a sua derrocada. Se perder para Fluminense e São Paulo, dificilmene o time encontrará motivação para escapar da degola.
As pessoas que lerem esse post vão discordar da minha opinião, mas é melhor que o corinthians caia. Isto porque todos os ratos que corroem o clube deverão sair e somente aqueles que estejam empenhados em tornar o clube vencedor permanecerão no comando.
A situação do corinthians é o reflexo do caos que vive o futebol e o esporte brasileiro, que poderia render, de fato, um papel importante para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Entretanto, os clubes esportivos no país continuam elitistas e com administração amadorística e excêntrica, muitas vezes utilizando recursos dos próprios clubes em benefício de seus administradores. É por essas e por outras que o Brasil, apesar dos talentos esportivos que possui, ainda não chegou ao status de potência olímpica.