Kazzttor – 25 anos + 5

Há 25 anos, ou precisamente em 25 de outubro de 1981, em São Paulo, nascia André Arruda dos Santos Silva. Nestes 25 anos vivenciou mudanças profundas no meio onde vive. Só ao seu redor viu nascer (e morrer) seis moedas diferentes: Cruzeiro-Novo, Cruzado (1986), Cruzado-Novo (1989), Cruzeiro (1990), Cruzeiro-Real (1993) e Real (1994). E viu seu país governado por, também seis, presidentes diferentes: Figueiredo (1978-1985), Sarney (1985-1990), Collor (1990-1992), Itamar Franco (1993-1994), FHC (1995-2002) e Lula (2002- ). Sob seus olhos se viu desde revoluções históricas, como a queda do muro de Berlim, a Luta pelas diretas e o impeachment de Collor, até momentos vergonhosos como o massacre da praça da Paz celestial em Pequim (1988), os escândalos de corrupção (1994 com os anões do orçamento e 2005 com o mensalão e os sanguessugas), o massacre do Carandiru (1992), a violência na Favela Naval (1999), os massacres de Eldorado do Carajás, do Índio Gaudino, de Vigário Geral. Ouviu de Luiz Gonzaga a Falamansa. De Frenéticas a Global Deejays. De Legião a CPM 22. De Ndee Naldinho a Sabotage. Viu do êxtase do Penta, ao caos do PCC. Da tristeza causada pela morte de Senna, em contraste da alegria do Tetra, 2 meses depois (1994). Viu o golpe da Globo no debate de 89 a favor de Collor, e viu a mesma Globo ajudar a derrubar o mesmo Collor, dois anos depois. Viu o renascimento no nosso teatro e do nosso cinema e viu o país manifestar sua cultura, não só com o carnaval, mas através de outras manifestações culturais.
Pelo visto entre 1981 e 2006 muita coisa mudou. É muita história para contar. Espero que daqui a 25 anos eu possa estar aqui, rindo do que escrevi hoje. E comentando como foram os 25 anos seguintes.
Há vinte e cinco anos eu nasci. Um quarto de século! Quanto tempo…
(publicado em 25 de outubro de 2006 no Blog do Kazzttor)

De lá pra cá 5 anos se passaram e a vida pareceu decolar como em uma exponencial. Saí de uma zona de conforto e entrei em turbulência em 2008, e de lá para uma dupla glória em 2009. Conhecer e viver são características que cultivei desde sempre e parece que nestes últimos anos venho colhendo os frutos. “Procuramos independência, acreditamos na distância entre nós…” – esse trecho da música do Capital Inicial parece fazer parte de meu caráter. A eterna busca da liberdade e da justiça ainda incendeiam um coração jovem em um corpo que envelhece.

Mas parece que passei a vivenciar mais as coisas que defendia e passei da teoria à prática. As redes sociais fortaleceram minha interação com o mundo e mostraram a mim que é preciso deixar de ser espectador para agir em prol de virtudes. A arte ficou à parte, mas a atitude mudou. Menos sarcástico e mais crítico, mas mantendo o humor e o otimismo diante da vida.

Há quem diga que sou palhaço, disperso, moleque, mas astuto, íntegro, culto. O que importa é viver intensamente cada segundo, paradoxalmente como o primeiro e o último.

Observem o texto de agora e o de 5 anos atrás e vejam como as coisas mudaram. Escrevia bem para que os outros lessem. Agora escrevo para mostrar quem sou. Nada de terceira pessoa – agora é identidade, ponto de vista, eu no comando. Pois já está na hora de assumirmos o controle de nossas vidas. Deixar as coisas no piloto automático não compensa. Corre-se riscos para obter conquistas. Não há mérito sem esforço. E me esforço por isso.

Sei que escrevi há cinco anos um texto para registrar minha visão da história, mas não a minha história na visão. Como em uma imagem no espelho escrevo minha vida em reverso.

Sou fatecano, bancário, sindicalista, grevista e ativista. Atuo nas redes sociais, escrevo em blogs, twitter, facebook. Participei de atos contra a corrupção, homofobia. Solteiro, sem filhos, mas com um coração grande e amoroso. Ministro aulas de informática na Microcamp. Tentei por duas vezes terminar uma faculdade, antes da FATEC. Trabalhei por 7 anos na Fidelity, 6 meses no IBGE. Fiz teatro, fui premiado, já atuei em peça de cartaz. Cantei na igreja e gravei CD. Fiz na ETEC Getúlio Vargas o ensino médio e o curso técnico de eletrônica. Estudei o ensino fundamental no SESI desde a terceira série (que fiz duas vezes, apesar de não ter repetido de ano uma vez sequer). Fiz os três primeiros anos do ensino fundamental no EEPG Prof. Lívio Marcos Guercia. Sou corinthiano desde 1988. Sou diademense de morada desde 1986. Morei 5 anos no Ipiranga. Nasci em 25 de outubro de 1981, há exatos 30 anos.

Este sou eu, uma Metamorfose Ambulante desde que nasci.

Modelo Padro

Não dá mais pra ficar com modelo personalizado, se o UOL não provê um suporte adequado. Vai no padrão mesmo.

Ensaio sobre a alienação (está tudo errado)

A sociedade humana possui diversas correntes de pensamento em diversas áreas do conhecimento. Algumas convergem, mas muitas divergem entre si. Nos vemos em um permanente dilema entre correntes e doutrinas divergentes, que nos cooptam para um lado ou outro. No entanto, podemos perceber uma certa incoerência nessas doutrinas, se estas não mudam ou se adaptam com o tempo.

As capacidades de exploração do universo por meio do conhecimento são infinitas. No entanto, alguns dos detalhes desse universo não obedecem a uma lógica, ou seja, não podem ser explicados sob um conceito meramente definido, pois são objetos abstratos. O grau de abstração de um objeto é muitas vezes ignorado pelas correntes de pensamento, pois muitas delas tem uma definição concreta e definida de uma realidade. Assim surge uma incoerência, pois um objeto abstrato não poderia ser descrito de forma concreta, pois este não teria suas possibilidades e detalhes totalmente definidas, pela própria natureza abstrata do objeto, e para que essas possibilidades sejam exploradas, seria preciso aumentar o grau de complexidade do conceito concreto. Assim teríamos uma estrutura conceitual similar a de andaimes de um edifício de formato não padrão, circundando-o, mas sem exibir sua forma real, obscurecendo-o. E isto gera uma distorção, pois a realidade apresentada difere da realidade nativa do objeto em questão.

Em áreas do conhecimento de ciências humanas como sociologia, política e psicanálise, são onde existem as maiores discrepâncias. Isto ocorre pois, como existe no ser humano há razão e emoção, muitas das nossas conclusões, atitudes, opiniões e pensamentos não tem como motes a lógica. Isto gera uma cultura de buscar uma lógica para tudo, uma justificativa baseada em argumentos concretos de um dado objeto ou realidade. Esta é uma grande deturpação, tanto no conhecimento criado, mas quando este conhecimento é repassado a outras pessoas. Isto faz com que algumas correntes de pensamento apenas privilegiam alguns detalhes do objeto tendo assim uma visão distorcida da realidade. Algumas dessas correntes são usadas de forma mais distorcida ainda como ferramentas de alienação.

A alienação é uma ferramenta de poder. Com base em uma doutrina ou ideologia, um alienador coopta um indivíduo, por meio de persuasão, a aceitar e defender essa doutrina, sem questioná-la, e rejeitando opiniões que se opõem a essa doutrina. Este indivíduo se torna alienado e abdica de seu poder intelectual em prol da doutrina e/ou do alienador. E isto é perigoso. Por conveniência ou aceitação social, deixamos de exercitar nosso senso crítico para aceitar o que comumente é aceito. Isto faz com que doutrinas se solidifiquem e tornem mais difíceis seus questionamentos ou contestações. E essas doutrinas são legitimadas pela tradição, tornando-se dogmas. A tradição se torna uma identidade de um grupo humano e este, por sua vez, irá defendê-lo, para garantir sua identidade e por conseguinte, sua existência. Isto faz com que estes grupos humanos criem realidades internas e visões de mundo próprias, em muitos casos, abstrações do mundo real, ou deturpações da realidade usando-se dessas doutrinas como lógicas para realizar sua leitura.

O ser humano é um ser social, e também um ser que possui necessidades individuais. Há uma certa confusão entre o eu social e o eu individual, pois uma pessoa não é auto-suficiente, ou seja, não é capaz de satisfazer suas necessidades sozinho. O que se questiona nesse processo de alienação é a sublimação das necessidades individuais ou coletivas em prol de uma doutrina ou necessidade individual e patriarcal de um líder carismático. Monopolizar o pensamento para uma única fonte é um mal, se utilizado para promover desigualdades ou pregar ideologias que contrariam a natureza humana como ser individual e social.

O papel da crítica é importante contra a alienação pois se contrapõe a sua causa: a doutrina a qual a alienação se baseia. Respeitar as individualidades e particularidades de um indivíduo é vital para uma sociedade harmônica e dinâmica, pois equilibra as relações de poder a um nível em que todos possam se tratar como iguais, mesmo sendo diferentes. Grupos com características comuns podem conviver com indivíduos ou grupos antagônicos a seus conceitos, desde que ambos os lados respeitem seus espaços e não queiram invadir ou destruir o espaço alheio. Isto seria possível se não houvesse ganância por poder ou influência, gerando assim os conflitos.

O ego é o fiel da balança neste processo. Pois a ganância somente existe quando o ego se sobrepõe ao ser social. E o ser alienado tem seu ego atacado quando percebe que sua doutrina também é atacada por outra. O ser humano recebe ao longo da vida diversas informações as quais tomam para si como verdades. O valor de seu caráter é medido pela comprovação alheia de suas verdades. Isto o torna confiável e sociável. Quando sua verdade é atacada, sua confiança também é atacada e assim, seu ego é ferido. Um ser alienado possui uma baixa auto-estima, já que abdicou de sua verdade para vivenciar outra externa. Assim, este agarra e defende cegamente essa verdade externa, tomando a si como uma verdade própria. Isto também o torna menos racional e mais passional, pois não desenvolveu seu senso crítico e seu raciocínio lógico. Este grau de passionalidade pode levar à insanidade e a ações que contrariam a lógica humana e social, tornando-os agentes de violência, intolerância e disputa de poder.

Tudo isto nos faz concluir que não há uma verdade única. Mas que todas as verdades devem ser respeitadas. Ou seja, tudo está errado.

Estação Paulista: “bunitinha”, mas ordinária

A estação Paulista é um exemplo de desorganização e desrespeito ao cidadão, com mal uso do dinheiro público.

Ontem, 9 da manhã, ao ir para a faculdade pela linha 4 amarela do metrô de São Paulo, pude notar uma grande desorganização a ponto de haver um congestionamento de pessoas, na única conexão entre as estações Consolação e Paulista.

Nota-se que por haver uma única conexão, é invevitável, nos horários de pico não haver esse tipo de inconveniente, mas isso poderia ser previsto na construção da obra. Poderia haver mais de uma conexão entre as estações melhorando assim o fluxo de passageiros entre os acessos à estações.

Mesmo a linha 4 ter sido cosntruída como uma parceria público-privada, os subsídios e o uso dos recursos públicos para viabilizar a obra custaram dinheiro público. E o mal uso desses recursos prejudiuca duplamente o cidadão, pois esse recurso poderia ser usado em algo mais importante, ou mesmo de melhor qualidade.

O grande problema do metrô paulista é a grande demanda que não é capaz de comportar. São Paulo é uma cidade muito grande e a malha metroviária não serve a todos os cantos da cidade. Isso torna a linha saturada, com poucas alternativas de viagem e muito sufoco nos horários de pico. E estações que não estão preparadas para esse fluxo, com poucas conexões, ou ligações longas demais. Leva-se, por exemplo, cerca de 5 minutos em passo apressado, para sair da plataforma da estação Pinheiros na linha 4 amarela, para chegar à plataforma da mesma estação, na linha 9 da CPTM. Em nenhuma obra, observou-se medidas que simplifiquem ou facilitem a utilização do usuário, mais para padrões estéticos ou de menor custo.

Por essas e outras, que muita gente vai preferir ir e vir de carro por São Paulo.

Protestos no Brasil: uso político?

No dia 12 de outubro ocorreram novas manifestações contra a corrupção no Brasil. As primeiras manifestações ocorreram em 7 de setembro e ocorrerão outras manifestações em 15 de outubro e 15 de novembro. As manifestações contam com pessoas de todas as idades, mas a maioria são de jovens, e segundo lideranças desses protestos, não possuem nenhum vínculo partidário. Esses eventos estão repercutindo fortemente na mídia.

Passeata na Paulista parte 1

 

Passeata na Paulista parte 2
 

Compareci a um desses eventos (confira os vídeos acima), e cheguei atrasado, assim como os manifestantes. A manifestação foi pequena, mas foi aparentemente mais inocente do que a marcha que ocorreu no mesmo local duas horas antes. É interessante ver o semblante do público. Haviam pessoas de todas as idades, mas sobretudo jovens. O grande problema, que há em toda ação em que jovens participam, é que está mais a atitude mais passional do que racional. E isto é um terreno fértil para alguns grupos políticos influenciarem esses jovens, cooptando-os para suas correntes partidárias.

Observei que haviam nestes protestos, muitas pessoas da classe média: profissionais liberais, universitários, pequenos e médios empresários, fazendo buzinaços em carros novos, ou seja, possuíam um poder aquisitivo relativamente bom. Isso não significa que estão satisfeitos com suas condições de vida, pois o custo-Brasil é muito alto, o que não os impedem e até justificam o seu protesto. Mas quando se fala de política, não existe inocência, pelo menos quando observamos as intenções políticas por trás de atos contra a corrupção.

Suspeita-se que grupos de centro-direita e direita se infiltraram nessas manifestações. A estratégia é simples: usar os protestos para desestabilizar o governo de centro-esquerda, no poder há quase nove anos. O mote de combate à corrupção seria destinado somente aos que estão no poder, o que é um ato falho, parcial e alienado. Sabemos que a bandalheira corrupta começa nas linhas partidárias, dentro dos gabinetes dos partidos, onde são escolhidos, às vezes de forma subornada, as candidaturas. Para ser candidato em uma eleição no Brasil é preciso ou ter dinheiro, ou pertencer a um grupo influente, ou ser um apadrinhado ou parente de político. A reforma política, que tanto se fala e se discute, não aborda a transparência no processo de escolha dos candidatos, tampouco consagra o voto como um direito de expressão política retirando a sua obrigatoriedade. Essas falhas, aliadas a um sistema eleitoral que você vota em um candidato e elege outro, aliados às propostas intoleráveis de financiamento público de campanha e lista fechada de candidatos para a reforma política, nos impelem a uma sensação permanente de insatisfação indignada, porém tolhida pelo individualismo, alienação e conformismo. O movimento pela ética na política é importante, mas deve ser bem encaminhado para que se torne legítimo. E a legitimidade passa pela imparcialidade e justiça no trato das ações. Percebi que a esquerda duramente criticou e se ausentou desses movimentos, mas deve fazer justamente o contrário. A participação das militâncias de ambos os lados equilibra o jogo político, diluindo os pontos de conflito e fortalecendo os pontos de consenso.

Ainda é possível que essas manifestações sejam feitas sem o apoio de nenhum partido, desde que os participantes não sejam coniventes com o uso indevido do movimento por nenhuma corrente política, denunciando essas práticas. Não se viu por parte de manifestantes nenhuma menção partidária, mas deve-se observar o discurso e o tom, para atacar somente o mal de nossa sociedade, a corrupção. Também deve ter um senso crítico às próprias críticas ao movimento. Algumas agremiações políticas de esquerda rechaçaram as manifestações pois rejeitaram seu apoio com a vinculação do movimento à sua imagem. Existem alguns partidos de esquerda que utilizam manifestações unicamente para fazer propaganda de suas ideologias políticas, o que é também, um tipo de alienação.

Sei que dentre muitos cordeiros há algumas raposas, mas cuidemos de proteger nossas ovelhas inocentes. Participei das manifestações, conversando com muitas pessoas, discursando sem me identificar politicamente, e acima de tudo, contrapondo a aqueles que fazem uso político das manifestações. Pois em certas situações devemos combater fogo com fogo.

Marcha contra a corrupção em 07/09/2011 em SP

#ThankYouSteve

Steve Jobs * 1955 † 2011

O mundo tecnológico perdeu o seu brilho. Morreu ontem Steve Jobs, fundador da Apple, uma das empresas mais inovadoras da atualidade. Sua contribuição para tornar a tecnologia computacional próxima de nós é notável e relevante. Ao fundar a Apple Computer, junto com Steve Wozniak, em 1976, Steve não poderia imaginar que seu estilo rebelde, perfeccionista e visionário pudesse levá-lo tão longe. E nós pudemos ver que a tecnologia ficava cada vez mais pessoal, primeiro com o Apple II, com o Lisa, Macintosh, iMac em nossas mesas, seguido do iPod, iPhone e iPad em nossas mãos. Tudo de uma forma simples de entender e belo de olhar, como toda obra-prima de um grande artista.

Pareciam que Steve e Apple nasceram um para o outro. Quando foi afastado da Apple em 1985, a empresa parecia se sentir sozinha. Seu senso de liderança impunha uma leal competição fazendo com que a inovação surgisse diuturnamente como em uma linha de montagem. Somente em 1996 quando retornou a sua velha casa, que as inovações voltaram a surgir no vale do Silício.

O império da Apple Computer que é hoje, existe graças a seu desbravador. Steve poderia ser comparado a grandes gênios como Newton, Einstein, Chopin e tantos outros, mas prefiro compará-los a conquistadores como Alexandre, o Grande, e tantosn outros que desbravaram e conquistaram rincões deste mundo, com a diferença de não ter disparado um só tiro, ou ter ferido ninguém com lanças ou espadas. Conquistou um mundo inteiro com ideias novas e revolucionárias.

Claro que há controvérsias. Diziam que era exigente demais, que provocava discórdias pois seu poder de persuadir, influênciava seus subordinados a uma lealdade quase cega. Houve também ausações recentes de suicídios entre os funcionários da Foxcomm, na China, onde são produzidos os seus produtos, além do plágio do sistema de interface gráfica da Xerox, que culminou com o surgimento do MacOS.

Mas estes senãos não tiram o brilho de Jobs. Um lider do nosso tempo. Um visionário, um criativo, um descobridor de inovações. Por sua inestimável contribuição à tecnologia, muito obrigado, Steve!

Thank You, Steve!

Um basta a tudo isso

Foto: André ArrudaPiquete no Complexo Verbo Divino do BB em 27/09/2011. Foto: André Arruda

Quantas foram às vezes em que nos vimos contestando alguma coisa em seu trabalho? Achar que é preciso mudar é natural e saudável, pois afinal, quem ama seu ofício se esmera sempre em aprimorar suas práticas com o intuito de tornar seu ofício melhor e reconhecido de valor. Num trabalho temos relações formadas em diversas partes, seja com clientes, superiores ou subordinados, e nessas relações temos momentos de conflito. E são nesses momentos críticos que surgem oportunidades de consenso. Mas este consenso deve vir da iniciativa de ambas as partes, caso contrário, o impasse leva ambos os lados a perdas.

Ultimamente, recebi críticas sobre minha defesa ao recurso da greve. Disseram-me que é mais fácil fazer uma greve do que fazer uma pós, que greve é terrorismo, que greve é prejudicar o povo, pondo-o como refém por conta de frustrações pessoais, e de que se não está satisfeito com o trabalho, procurar outro trabalho, e inclusive disseram que estamos reclamando de barriga cheia, pois havendo tanta gente desempregada, ficamos reclamando do emprego. Como se vê, os comentários acima que recebi tem algumas características que valem a pena comentar e compartilhar com vocês. Até porque tentar debater com os críticos que nos ofendem é cansativo e inútil, e sei disso por experiência própria, semana passada. E nada melhor do que utilizar o meu espaço para falar a respeito. Primeiramente, com o conformismo que impera neste país, é muito comum ouvir esse tipo de comentários, pois os críticos não se conformam justamente com quem não se conforma em ser explorado. Se quisermos um emprego melhor, que valorize e dignifique nosso esforço, primeiro queremos o em que estamos empregados seja melhor. Pois permitir ser explorado é assumir sua passividade diante dos fatos e renunciar a seu protagonismo, não sendo merecedor de nenhum mérito. Nossa cultura, em parte baseada em suas origens religiosas, nos impõe ao paradigma da dádiva. Acredita que tudo se dá nada se conquista, e que todas as nossas realizações provêm da indulgência de alguém ou de alguma organização. Isso nos leva ao paternalismo e ao conformismo como movimentos comportamentais que influenciam as opiniões de muitas pessoas. E com isso, todo o tipo de ação que contraria esta lógica de dádiva, não é tolerado. Esse conformismo leva nosso povo a uma situação de paralisia ideológica, enfraquecendo qualquer movimento que vá de encontro a essa lógica.

É preciso por um basta a esta anestesia sem cirurgia que toma conta deste país. O grau de paralisia é enorme. Há uma pressão inflacionária que o governo teima em dizer que é produtivo, mas a culpa exata é de uma carga institucional a qual não podemos arcar. A greve é uma manifestação legítima e deve servir de exemplo para um despertar. Não podemos nos contentar em trabalharmos sob pressão exaustiva sem o devido reconhecimento de nosso esforço. É importante mostrar a realidade dos insatisfeitos antes de tirarmos conclusões precipitadas.

O preconceito e a desinformação fortalecem essas críticas, reforçados por uma mídia tendenciosa. Sexta-feira houve uma passeata na capital paulista unindo bancários e funcionários dos correios em greve, com cerca de oito mil manifestantes. O evento foi veiculado na imprensa, porém a maior rede de televisão do país veiculou o protesto da seguinte forma:

Fátima Bernardes: Boa tarde! Sexta-feira de manifestações em São Paulo. Roberto Paiva.
Roberto Paiva: Funcionários dos Correios se reuniram aqui no Vale do Anhangabaú, e depois saíram em passeata pelas ruas do centro de São Paulo. No caminho se encontraram com bancários, que também estão em greve. As duas categorias pedem aumento nos salários. Os funcionários dos Correios marcaram pra segunda-feira uma assembleia aqui em São Paulo pra decidir se continuam em greve. Roberto Paiva para o Globo Notícia.

Essa foi a transcrição da matéria veiculada na televisão. Mas na internet a informação se encontra mais distorcida e tendenciosa (clique aqui para ler). Segundo a nota no site G1, o protesto reuniu cerca de 400 pessoas. Segundo a Polícia Militar havia 2.000 pessoas ali. Informar que a greve se propunha apenas requerer salários é jogar a população contra o movimento. A população sabe que a qualidade de atendimento dos Correios e dos Bancos decaiu muito e isso não ocorre por causa do funcionalismo e sim por um processo de gestão inadequado e focado apenas na produtividade sem considerar a qualidade dos serviços, pois isso onera e reduz a lucratividade dos negócios. Reitero que este modelo de gestão é arcaico e oriundo dos modelos capitalistas do início do século, os quais muitos dos gestores atuais dessas empresas pertencem a essa filosofia de gestão, que além de ser exploratória, é insustentável. O movimento grevista vai muito além da questão salarial, tem a ver com a qualidade do atendimento que não pode ser garantida apenas pelo funcionalismo pressionado e assediado moralmente, sem recursos apropriados, sem segurança ou tranquilidade para exercer suas atividades. É preciso conhecer a realidade do trabalhador que entra em greve antes de criticar sem fundamentos. A realidade do trabalhador dos correios e a do trabalhador bancário são muito duras, diferente do que é conhecido pelo público em geral. Nós, bancários sofremos com metas abusivas, controle de tempos e movimentos, assédio moral, falta de recursos, poucas contratações, ameaças de demissões e descomissionamentos e até nepotismo. Isto afeta a qualidade do nosso trabalho e também se reflete na percepção que o cliente tem de nosso trabalho, como se fossemos cúmplices do descaso que há nos bancos com os clientes: burocracia, operações casadas e até mesmo não autorizadas pelo cliente, filas, demora no atendimento, tarifas e taxas de juros exorbitantes. Mesmo com a quantidade de recursos eletrônicos disponíveis, um banco não opera sem o esforço e a dedicação do funcionalismo. O quadro funcional é o patrimônio mais importante de qualquer organização, pois é ela, e não as máquinas que fazem o sistema operar e funcionar, pois uma organização não vive de usos de produtos, sim de relações humanas. Não compactuamos com essa prática dos bancos que, com ou sem greve flagelam a população brasileira.

É importantíssimo que a greve ocorra, apesar dos transtornos causados a quem também é vítima da intransigência patronal, pois é uma importante manifestação de insatisfação diante de um modelo de gestão que precisa ser revisto em prol dos trabalhadores e da população brasileira.