As cercanias de uma universidade

É interessante ver os fatos sobre um outro olhar, mais clínico, despido de qualquer tendência a apoio ou rejeição. Sorte tenho de ter duas visões de uma mesmo evento. Pelas redes sociais e através de amigos estudantes e militantes tive informações sobre a ocupação da reitoria da USP, e acompanhei, preocupado, o seu desenrolar. O resto vi pela mídia, claramente buscando enfraquecer o movimento com rótulos, factoides, agressividade e menosprezo.

Pelo que pude ver, houve sim, uma certa desorganização por parte dos estudantes, pois permitiram que alguns jovens, estudantes ou não, externassem a face do movimento que a mídia escancara para que os retóricos moralistas demolissem o movimento em críticas rasgadas, para que a opinião pública condenasse o movimento. Todo aquele que age e pensa sem se preocupar com o movimento e seu impacto o trai. E ao usar de expedientes que contrariam e distorcem os intuitos do movimento é um ataque ao próprio movimento. Quando vi que alguns jovens foram presos portando entorpecentes no início da ocupação, a atitude esperada de um movimento focado e organizado seria de condenar o ato, ou dos estudantes detidos, ou das autoridades policiais, mas preferiu-se a omissão. Estamos em uma sociedade, onde infelizmente a questão da droga é tratada ainda como caso de polícia. Mostrar que a questão da droga vai além de uma infração penal, daria uma força tremenda ao movimento e à manifestação. Por outro lado, a atitude das autoridades ao dispersar o movimento foi exagerada, descabida e autoritária. A energia gasta pela polícia em debelar o movimento (mais de 400 policiais, tropa de choque, helicópteros, dignos de rebelião em presídio), poderia ser utilizada se pudesse conter as milhares de mortes que ocorrem diariamente nas periferias deste país por conta de drogas ilícitas, armas ilegais, crime organizado e muito mais.

Do lado de fora vemos que o jovem estudante da USP já foi estigmatizado e rotulado de playboy, maconheiro, frustrado comunista entre outros rótulos indesejáveis. O fato de a USP ser considerada uma universidade elitista está no fato de o Estado não propiciar uma educação baseada no aprimoramento qualitativo, em vez de quantitativo, não valoriza o educador, não torna o esporte e a cultura elementos catalizadores e motivadores de uma educação de qualidade, para não dar igualdade de oportunidade ao povo e termos assim uma sociedade justa e democrática.

As questões que envolvem essa ocupação vão muito além da segurança, drogas, política, polícia ou repressão. Está na forma de como enxergamos a sociedade, e de como torna-la melhor. Vemos aqui a hipocrisia, o moralismo e o atraso estampados em nossa cara preconceituosa, ao vermos, na televisão, jovens de futuro sendo agredidos covardemente, e achando tudo isso muito bom. Por outro lado é hora de mudar a verdade socialista que nos rodeia. Como diria no filme “Tropa de elite”, o inimigo agora é outro. O discurso de algumas correntes de esquerda me incomodam pelo seu grau de alienação e descolamento da realidade social. Não se deve levar tudo a ferro e fogo e temo que a não adaptação da esquerda aos novos tempos pode mata-la. É preciso manter os ideais mas adaptar o discurso e as práticas a novos tempos.

Está na hora de um novo nível de pensamento, que propicie a todos um real entendimento de nosso papel como cidadãos. É temível que a única solução para tudo seja a barbárie e o conflito. E é mais temível que o Estado, que deve nos proteger, prefere agir de forma ditatorial e violenta. No fim, todos nós saímos derrotados e nossa sociedade dá mais um passo para trás, rumo à ignorância.

O anti-clímax

A economia mundial está à beira de um ataque de nervos. A crise grega abre precedente para uma nova grande depressão mundial. O primeiro-ministro grego chegou a anunciar um referendo para que os gregos escolham se querem ou não continuar na zona do euro, mas… refugou. O medo de sair da eurozona com uma mão na frente, outra atrás, pesou. E esse anti-clímax se dá hoje pois a Europa criou um mercado, criou uma moeda, mas não criou padrões de ajustes fiscais mais claros, detalhados e rígidos a seus países-membros. Isso permitiu o descontrole do gasto público, elevado endividamento e risco de quebradeira e calote, exemplo que vemos na Grécia.

O mal maior dessa crise, em que vemos os mercados em franca turbulência, existe devido a questões estatutárias e culturais de cada país. Enquanto o alemão se aposenta aos 75 anos, o grego se aposenta aos sessenta, fazendo que o alemão também pague a aposentadoria do grego. Há também um funcionalismo público muito grande na Grécia, tornando o estado muito caro. Essa gastança exige dinheiro, que os gregos pediram emprestado e agora não podem mais pagar. A crise grega é fruto da tentativa frustrada de unificar economias nacionais, mas sem observar as particularidades econômicas de cada nação europeia. Para que uma economia seja plenamente conduzida é preciso padrões de conformidade comuns entre todos os locais influenciados por essa condução. E esse padrão gera uma relação paradoxal, pois é fundamental a sua existência, mas prejudica a todos que defendem privilégios, pois coloca todos em um mesmo patamar de direitos e deveres.O desafio agora é corrigir as falhas e estabelecer esses padrões mesmo a contra-gosto de muitos países.

Privilégio é um termo próprio do capitalismo. Quando é necessário um movimento de unificar entidades, podem ocorrer três possibilidades: mescla, imposição ou ruptura/ conflito. Ao criar a União europeia, certamente o intuito foi de mescla, mas a falta de imposição de uma unidade, está provocando esses conflitos. O mercado comum é uma forma de salvar o capitalismo com a conjunção de forças, mas vemos que este movimento evidencia a falência deste sistema, pois o acúmulo de capital fortalece um pequeno grupo de privilegiados sob o preço de prejudicar um grande grupo de pessoas.

Assim conclui-se: é preciso mudar os rumos da humanidade.