Divagações sobre o amor

O ato de amar é ver a nós mesmos em outro, de forma a este outro se tornar parte de si mesmo. É a auto-perceção no próximo, espelhada na alma e no sentimento. Quando esse amor é correspondido, deixam de existir dois seres, estes passam a coexistir como um todo formado por duas partes complementares. Quando é platônico, apenas um dos seres tenta, em vão, complementar o outro até que este amor termina, ou se torna uma obsessão patológica. Esta obsessão é um sentimento ilusório que aquele o qual sente acredita ser amor, mas não é.
Assim, de uma forma ou de outra, nos iludimos. O amor é tão abstrato que se confunde com possessão, atração, carência, afeição, pena… Deixa de ser complementar e se torna repulsivo, violento. Deixa de ser algo que complementa, para ser ponto de conflito, em que uma das partes busca abstrair da outra os empecilhos que os impedem de, harmoniosamente, se combinar.
A ilusão é inerente ao homem. Pois é o erro de sua perceção movido por seus preconceitos sentimentais e racionais. Por isso devemos aprender com os erros e as ilusões, pois corrigem nossos conceitos. E estes conceitos são conclusões transitórias, pois mudam no tempo, no espaço e no indivíduo. Aprendendo a conviver com os conceitos, desenvolvemos nossos valores que alimentam nosso caráter, e este compilado que é entendido e defendido por nós, pois devemos crer em nossos valores, designam nossa auto-estima.
Como a auto-estima é a crença nos valores que formam nosso caráter, e estes valores se formam para nós através de conceitos que, por sua vez, são obtidos por meio da experiência da interação com outros seres, podemos afirmar que o homem só é completo quando tem o amor.
E este amor é algo que vem do âmago do ser vivente, quando este entende a si mesmo e se identifica em outro ser.

A última balada

A festa parecia animada. Todos pareciam felizes. Mas o que se sucedeu naquela noite de domingo, mudaria para sempre muitas vidas.
Seria essa a última balada, de tom tenebroso, cinzento, fatal. Gritos, lágrimas, dor e desespero na última balada de suas vidas. Última e derradeira noite de suas vidas. O fogo abrasou suas vidas, levando conosco um pouco das nossas. Um terrível espetáculo dantesco, captados por celulares, câmeras de TV e mostrados para os olhos do mundo, tirando de nós a alegria que os domingos costumam trazer. Celulares que intactos, insensíveis, subliminarmente anunciavam a seus entes queridos o fim. As insistentes chamadas queriam uma prova, um sinal de vida, em vão. A dor da perda em filas intermináveis, em hospitais, no ginásio, em busca de um fio de esperança se estinguiram na face desfalecida de um ente querido entre as vítimas imoladas no desastre. Uma dor que deixou de ser deles nem minha, mas nossa, pois essa dor que os punge é tão colossal que não seria digno carregar isso sozinhas.
Isso nos nostra como somos frágeis, indefesos, diante de nosso destino. Nossas vidas são como uma imensa árvore cheia de folhas, sendo que cada uma delas é uma vida nossa. Há períodos de tempestades em que muitas dessas folhas são levadas embora, de uma vez. Novas folhas poderiam surgir, mas nada poderia trazer de volta as fohas que se foram. Mas o que nos desola é ver folhas muito novas serem arrancadas da árvore da vida sem nos avisar, sem nos fazer entender o porquê desse fim tão precoce. Isso não deve ser justo, é inexplicável, e também imponderável. É o amém que relutamos em dizer, mas infelizmente a vida diz.
Este seria os espetáculo mais triste do mundo se não fosse um outro ocorrido em um circo em Niterói, há cerca de 50 anos. Faz-se lembrar o vocalista da banda ao funcionário do circo, a lona com a espuma da boate, a elefanta com os seguranças, e as crianças… eram apenas crianças, lá e cá, com seus sonhos e seus futuros reduzidos a cinzas. Agora no lugar do futuro, ficou a ausência, no lugar do sonho, o desatino, no lugar da presença, ficou a lembrança e no lugar da vida, a saudade.
Como é triste ver a lógica da vida ser invertida: vemos em vez dos filhos enterrarem os pais, os pais enterrando os filhos.

(inspirado na tragédia de Santa Maria, Rio Grande do sul, Brasil)

Paranoia

A noite cai abruptamente, mas minha mente continua ativa, atordoada por pensamentos que me perturbam de diversas fontes. Essas pertubações me distraem, me assustam, me deixam acuado, indefeso, impotente, quase morbidamente paralisado.
Me debato com os travesseiros, brigo com meu leito, que me abate, me agride, confrontando minha impassividade com o acalanto de um desconfortavel conforto, mostrando a mim, tal qual a criança que não quer dormir por medo do sonho ruim, que aquele não é meu lugar.
Abro a jenela. Vejo a lua fria, quase oculta entre nuvens marrons, em um horizonte tão sombrio e nebuloso quanto meu destino. Me arrepio, pois temo o prematuro desfecho que sequer concluiu o primeiro capítulo, por muito esperar da inspiração do autor, que nunca vem.
Mensagens, tristezas, dúvidas, fracassos, decepções e derrotas me machucam e me atormentam ainda mais… Não consigo fechar os olhos por temer não conseguir mais abri-los. O abismo parece perto e estou inerte, em queda livre.
Olho para todas as coisas que tenho ao meu redor e me vejo tão inanimado quanto isso. Minha dor de ver um mundo girando e eu parado no tempo me desespera. O pavor é tamanho que não vejo alternativas a não ser viver de forma inerte, cinzenta, opaca.
Olho para a luz do meu quarto. Talvez não seja merecedor de nada disso, pois perdi o senso do valor, perdi a noção da verdade, perdi a ideia do carater. Não sou nada, nem ninguém. E isso me envergonha a ponto de fugir, mas para onde?
Estou em um labirinto, perdido. Em uma paranoica jornada rumo ao fim. Ninguém pode me ajudar. Por favor, me salvem. Estou à beira da loucura. Em uma paranoia delirante.

A república do Avatar

Muito observo na sociedade em geral, nas redes sociais, no trabalho, nos estudos, locais e eventos públicos o comportamento humano e o que influencia tal comportamento. E percebo, com certa resignação, uma aparente superficialidade das pessoas, criando “avatares” delas mesmas, de acordo com a ocasião. Chega a ser paradoxal tais mudanças de comportamento, pois uma das necessidades humanas consiste na aceitação por seus semelhantes. Fica claro que pelas exigências de cada grupo social para ser aceito, um indivíduo precisa se adaptar a essas exigências, mudando sua forma de agir, de vestir, de se comportar, de se expressar e de opinar, para se adequar a essas exigências, e enfim, ser aceito.

Isso funciona como um código, uma senha, uma identidade social, que identifica e associa esse indivíduo a esse grupo. Porém, a necessidade de ser aceito, aliada ao formalismo de uma sociedade que se encontra em uma situação de crise de identidade, por conta de se basear em valores que não são fundamentais, em contraponto a valores que eram tidos como fundamentais e não mais o são, nos impõem uma controversa atitude de “dançar conforme a música” e criar avatares de nós mesmos.

Em empresas tradicionais, faculdades, igrejas, eventos esportivos, grupos de interesses comuns e redes sociais é evidente a multiplexação do caráter de um indivíduo. Para cada local e cada situação, vejo uma mesma pessoa se comportar e até mesmo opinar de uma forma diferente. Vejo pessoas buscando se adaptar a grupos sociais fraudando seu caráter para que esse conceito fictício possa ser aceito nesse grupo. E este é o maior mal do homem, quando vê que a trapaça logra êxito, pois este toma esse procedimento como uma solução oportuna, e passa a adotá-la sistematicamente para ser incluso em outros grupos. Os casos mais críticos são quando esses indivíduos abandonam por completo seu real caráter para dar vida a seus avatares. Por todos esses avatares serem conceitos fictícios e artificiais, seu real conceito se perde, assim como seus valores, fazendo com que esse indivíduo se perca em valores superficiais ou passe a ser um ser alienado, alheio a toda ou boa parte da realidade que o circunda.

Não há como, em um modelo capitalista e consumista, combater ao viciante e perverso comportamento de avatar. Pois a mídia, entidades tradicionais como a igreja, grandes corporações e governos nos fazem engolir seus conceitos, forçando-nos a ser o que eles querem, e não o que realmente somos. Parece ser difícil conciliar este dilema, mas é preciso resistir a criar um avatar, buscando ser nós mesmos em todas as ocasiões, mesmo que se contestem nosso comportamento. O fato é que nossa essência seja preservada, ou estaremos fadados a deixá-la escondida em nossos lares, ou perdida em nossas memórias.