Pau de bate em Chico, bate em Francisco

Uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, no qual um reporter conseguiu emitir 9 identidades em estados diferentes, revela a estrutura falha do Estado em ter o controle sobre seus cidadãos. Eu já escrevi anteriormente sobre o assunto, porém é preciso debater novamente sobre isso.

Além dos problemas de ordem judiciária/criminal, esta prática impossibilita que haja melhores serviços públicos, como saúde, educação, além de gastos desnecessários do Estado com a emissão de documentos, com redundância de dados e permissão à fraudes.

Em 1994, o Plano Real instituiu uma simplificação da administração da política econômica por meio da desindexação econômica, ou seja, antes do plano haviam vários índices para determinar parâmetros de valores, tamto pelos orgãos públicos, como pelo próprio mercado. Assim, com vários índices, a moeda ficava em segundo plano, favorecendo a inflação. Quando desindexou, a moeda, o Real, passou a ser o principal parâmetro, recolocando-o como parâmetro valorado na economia.

Para a política civil, deveria acontecer a mesma coisa. Temos diversos “índices” de identidade, tais como: certidão de nascimento, RG, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho, entre outros. Com tantos números de identificação, a estrutura de controle das pessoas por parte do estado fica descentralizada, impossibilitando seu controle.

Com uma base de dados unificada e disponível a todos os serviços públicos (educação, saúde, trabalho, justiça, fisco, previdência, etc.), o Estado fica mais eficiente, tanto para fornecer serviços de qualidade, quanto para aplicar a lei com um maior rigor.

Também pode-se usar essa base de dados para outras organizações, como faculdades, bancos, sindicatos, entidades de classe e partidos políticos, assim como toda a população, permitindo assim que informações públicas também estejam disponíveis à todos.

Um exemplo de um serviço benéfico que surgiria com um cadastro unificado, seria a de um prontuário médico público compartilhado, permitindo que SUS, convênios médicos, hospitais e profissionais de saúde possam escolher o melhor tratamento, com base em seus antecedentes médicos. Na educação, o processo de matrícula, formação e histórico escolar seria simplificado e desburocratizado.

Claro que não é de interesse de muitos políticos que se simplifique a estrutura de identificação brasileiro. Quanto mais burocrático e engessado o Esatado, mais vantajoso para eles. Além disso, muitos destes também praticam fraudes contra o fisco e a falsidade ideológica é um importante recurso, que seria bastante inibido, com uma unificação ideológica.

Pois se a lei é igual para todos, a burocaracia e as falhas também. Pau de bate em Chico, Bate em Francisco.

O conto do cartão de crédito

Os bancos descobriram uma forma absolutamente rentável de engordar ainda mais seus lucros: o cartão de crédito.

A última de alguns bancos é simplesmente bloquear transações em reais de transações no exterior, como o iTunes, Facebook, Google Play, Xbox, Windows Phone, etc. E se a razão que eles alegam é a segurança, engana-se, amigo incauto. A forma de cobrança de transações em moeda estrangeira obedece a um ritual, que em transações em real não ocorre.

Quando você compra em dólar, é calculada a cotação três vezes: quando autoriza a compra (no dia que você faz a transação), quando fecha a fatura, e quando você paga a fatura. Quando a fatura fecha, é cobrada a variação do câmbio entre o dia da compra e o fechamento, e quando você paga, é cobrada uma nova variação com o valor do câmbio no dia em que você pagou a fatura, sempre com cobrança na fatura seguinte. Com o câmbio flutuante e a atual conjuntura econômica, a tendência é de valorização do dólar e assim, sempre haverá um valor a pagar. A loja já recebeu o dinheiro da compra, mas o banco continua cobrando, daí o lucro.

Entre outras estratégias dos bancos sobre o cartão, está a de supervalorizar o limite do cliente, com valores de limites valendo o dobro, ou o triplo de sua renda. Com o descontrole financeiro, o cliente acaba entrando no crédito rotativo com taxas de agiotagem: entre 8 e 16% ao mês! E assim a dívida do cartão vira uma bola de neve a ponto de se tornar impagável.

Tem algumas sacanagens de alguns bancos também. O Itaú, por exemplo, cobra os juros do rotativo a partir da data da compra em seu Itaucard 2.0. O Santander faz reanálise de crédito do cartão sem consultar o cliente e cobra uma taxa absurda. O Banco do Brasil cortou programas de isenção de anuidade atreladas ao uso de produtos e serviços há cerca de 3 anos, e mudou o cálculo do pagamento mínimo, fazendo com que pagamentos de títulos, parcelas de faturas, e compras parceladas com juros do banco sejam integralmente incluídas no pagamento mínimo.

O cartão de crédito é a punhalada traiçoeira dos bancos contra seus clientes. Fiquem espertos, controlem os gastos do cartão e prefiram pagar a fatura cheia.

Generalizar: inoportuno mal

Recebi comunicados do Facebook e da Microsoft os quais diziam que os bancos brasileiros não estão mais permitindo transações em reais, pois estas empresas são sediadas no exterior. O que se viu foram reclamações de clientes de cartões de crédito, quanto a transações em reais, com cobrança de impostos de transações feitas no exterior. É parte da cultura do Brasil generalizar para resolver as coisas, porém sabemos que este tipo de “solução” mais atrapalha do que ajuda, e pior, além de escancarar um tolo preconceito, tais atos e opiniões expõe tamanha mediocridade que precisa ser extirpada de nossa cultura comportamental.

Ontem, ao ler os comentários sobre a continuidade da greve dos bancários, li muitas mensagens do tipo “bando de vagabundos”, “se não está satisfeito, procura outro emprego”, “estão reclamando de barriga cheia”, etc. Este é um outro exemplo de generalização tola, e demonstra um total desrespeito e desconhecimento a uma categoria profissional. Estes comentários geralmente vem de pessoas que somente conhecem o banco pelo lado de fora, não entendendo, portanto, o motivo pelo qual os trabalhadores cruzaram os braços. Às vezes soa como inveja comentários assim, lembrando assim a fábula da raposa e as uvas, onde fala-se mal daquilo que almeja sem sucesso.

Vejo generalizações em quase tudo: todo político e juiz de futebol é desonesto, todo líder religioso é pessoa de bem, todo negro é malandro, todo pobre é bandido, toda mulher é frágil, assim como toda mulher que se veste de forma ousada é vulgar ou vadia, todo homem gay é efeminado e não é capaz de desempenhar qualquer atividade tipicamente masculina, a mulher lésbica é masculinizada e também incapaz de desempenhar atividades masculinas (acredite, muitos homens pensam assim), que todo petista é mensaleiro, que todo sindicalista é vendido, e por aí vai. Se você considera, assim como eu, todas essas afirmações que citei como absurdas (mas absurdas mesmo, em qualquer ocasião e individualmente), meus parabéns! É um bom começo de ter um certo discernimento das coisas, e uma postura mais crítica e inteligente sobre os fatos e as pessoas.
Generalizar é pensar e agir de forma preguiçosa e tola. É muito diferente de igualdade a generalização, pois a primeira entende as particularidades de forma inclusiva e a segunda não, colocando todas as situações como regras, sem exceções. Com base no preconceito e na generalização, é simples o julgamento, e quase certo o veredicto errado. Somente com o conhecimento e a abolição dos preconceitos que nos rodeiam, que poderemos dar o tratamento correto aos fatos, e diante desse tratamento, tomar as atitudes corretas e justas a cada caso.

No caso dos cartões, o cliente poderá ter um enorme prejuízo com as transações devido à variação cambial, já que essas transações serão faturadas em reais. Seria mais prudente, em vez disso, criar mecanismos que permitam ao cliente ser notificado que a transação em questão, mesmo cobrada em reais, seria internacional, mas preferiram generalizar.

Reitero a tolice que existe em generalizar, sempre quem sofre é o objeto de tal generalização.