Síndrome de Borba Gato

Você conhece Borba Gato?

Borba Gato era um bandeirante. Desbravou São Paulo, mas às custas da morte de milhares de índios. Mesmo com este viés tirano e genocida, a história, por muito tempo, o aclamou como heroi. Esse personagem ilustra bem o sentimento que algumas pessoas, ao verem a vitória eleitoral de Dilma Rousseff, expressaram naquele momento.

São Paulo ainda guarda o berço de um narcisismo político oriundo da política café-com-leite. Muitos paulistas acreditam ainda que o estado é o carro-chefe do Brasil. O pensamento conservador do paulista, sobretudo nas urnas, pode ser considerado como consequência desta crença na liderança. São Paulo vê a posição hegemônica desvanecer e tenta, com todas as forças, defender essa posição. Este paradigma é observável pela postura arrogante de seus governantes. Age com truculência contra posições contrárias, mantém velhas práticas políticas reprováveis, busca a resolução dos problemas agindo sobre os efeitos, e não as causas, mantém uma conduta hipócrita quanto a corrupção, alimentam uma cultura nacionalista paulista, além de intervir no processo educacional, de modo que a educação seja apenas funcional e voltada para o mercado de trabalho. Por conta dessas práticas, não seria de se admirar o tamanho do apoio dado pelo estado a Aécio Neves, e a reação de muitos destes, de forma desrespeitosa e truculenta, ao resultado desta eleição. Ao apontar vergonha em relação ao resultado do pleito e ao hostilizar nordestinos e beneficiários do programa bolsa-família, evidencia-se a ignorância e o desrespeito ao próprio país.

Como o estado de São Paulo sempre ostentou ser um estado rico, a tola crença em creditar a derrota de seu candidato favorito às classes pobres beira a um fanático devaneio. Até porque muitos dos que hoje estes trucidam, ajudaram-os a construir a riqueza deste estado, sem contar que poderão ter o sangue nordestino correndo em suas veias, dada a  miscigenação. A mudança é que até a década de 1990, todas as políticas nacionais de desenvolvimento eram voltadas apenas para o centro-sul do país. Às regiões norte e nordeste, apenas programas assistencialistas, exceção à Zona Franca de Manaus. A visão de alguns especialistas é que, para que o Brasil tenha um ritmo de crescimento e desenvolvimento sustentável, seria preciso um projeto de âmbito nacional, e que contemplasse todas as localidades do país, concentrando ações em locais onde este desenvolvimento estivesse em condições de crítica carência. A balança regional brasileira precisava ser equilibrada. Após a estabilidade econômica, em 1994, já era possível buscar o equilíbrio regional, que ganhou um impulso maior com as últimas administrações. Daí o apoio à continuidade do governo, por parte das regiões que mais foram beneficiadas com estes programas. As regiões do centro-sul do país, que já possuíam um grau de desenvolvimento, viram esta busca pelo equilíbrio regional, como uma ameaça. Primeiro, porque aumenta a concorrência econômica, tanto na disputa por instalação de empresas, quanto na questão tributária. Depois porque a pujança de arrecadação tributária se reduziu sensivelmente, dada a concorrência interna com outras regiões quanto pela redução dos repasses de arrecadação de tributos federais para estes locais. Isto forçou estes estados a caminharem por dois viéses: ou o viés nacionalista e defensor do paradigma, ou o viés de busca de uma melhor eficiência gestora, com melhor organização dos recursos e desenvolvimento de uma gestão mais ágil, menos burocrática e mais efetiva. Ficou claro qual dos viéses foi escolhido. A estagnação dos estados do centro-sul não se deu pelo desenvolvimento dos estados do norte-nordeste, e sim, pela ausência de capacidade e competência de seus governantes em se adaptar a uma nova realidade integrada ao contexto nacional atual.

Tanto que alguns exaltados até defendem o separatismo: a separação das regiões do sul, com o norte-nordeste. Desde muito tempo, o Brasil vem sendo governado de forma segregada, com privilégios às regiões sul e sudeste do país. É perfeitamente compreensível, porém inaceitável, que quando se ensaia uma política integradora do país, quem sempre era privilegiado passe a agir com rancor, e desejar o retorno da velha norma.

Nas redes sociais, viram-se manifestações bastante condizentes com manifestações fascistas, onde a xenofobia, o nacionalismo regional e nacional, a defesa de paradigmas, a fé e o manifestações de ódio, com perseguição a grupos políticos e de origem regional ganham tônica. O que se viu a seguir foi uma reação a este pensamento, com a repreensão e condenação destes atos. O momento é delicado e exige-se razão, além de serenidade. Pois este processo eleitoral foi o mais intenso e acirrado da história da República Brasileira, e pode ser considerado um teste de estresse da atual democracia do Brasil.

Agora, devemos nos questionar: estamos sendo o melhor de José de Anchieta, ou o pior de Borba Gato? Sejamos, não importa se paulistas, sulistas ou nordestinos todos brasileiros.

A esperança e o medo

Uma notícia me estarreceu, me deixou com medo.

Noticiada pelo portal UOL (Leia em http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/22/em-ato-pro-aecio-militantes-xingam-dilma-e-gritam-viva-a-pm.htm), relatou-se um ato pró-Aécio em São Paulo, onde as palavras de ordem eram “Dilma Terrorista”, “Fora PT”, e tinham o apoio de Eduardo Bolsonaro (deputado eleito pelo PSC em SP, filho do deputado Jair Bolsonaro, um dos autores do atentado do RioCentro em 1981), o ex-jogador Ronaldo, FHC, Paulinho da Força, entre outros. O fato de um ato a favor de um candidado se tornar rapidamente um ato de ódio a outro e ao grupo político ao qual este pertence denota claramente uma ausência de discurso do primeiro e evidencia um sentimento coletivo temerário: o fascismo.

Sim! Fascismo! Com todas as letras! Os ditos defensores da liberdade, pela moralidade e contra a corrupção, na verdade são a  favor da opressão, hipócritas e mais corruptos do que quem os critica.

Os protestos de junho foram entorpecidos e envenenados pela grande mídia e pelos fascistas que alí se instalaram, seja no “movimento contra a corrupção”, seja no “movimento pela intervenção militar no Brasil”, seja em movimentos menores e também intoleráveis, como a oposição ao programa Mais Médicos e a defesa da “Família Tradicional”, heteronormativa. Tanto é que o reflexo nas urnas foi exatamente o oposto do que se propunha nas ruas: a nova legislatura será mais conservadora e mais alinhada aos paradigmas, que nos impedem de tornar o Brasil um país mais justo, democrático e moderno.

E com a eleição de Aécio, o processo de radicalização dos paradigmas no país será catalizado, pois certamente, dadas as características que conhecemos da política brasileira, Aécio irá atendender aos anseios de todos aqueles que o apoiaram, entre eles temos Bolsonaro, Malafaia, Feliciano, Bornhausen, Bancada Evangélica, além dos ruralistas, dos defensores da terceirização, da flexibilização das leis trabalhistas, do Estado Mímimo, da Privatização, do armamentismo, do militarismo, e por fim, do fascismo.

A história, às vezes tem seus movimentos cíclicos, que muitas vezes são justificados pela falta de entendimento, ou de conhecimento das falhas que provocaram os atos que agora retornam. Não podemos permitir que a história volte a repetir tal qual em 1964. Ativistas de esquerda foram taxados de terroristas e muitos deles foram perseguidos e mortos, dada uma redemocratização falha e não pautada em desenvolvimento social. Vemos a possibilidade de deter esse retrocesso, pois hoje temos diversas vozes atuando, e não poucas, como naquela época. Temos uma democracia consolidada, e liberdades individuais garantidas.

Em 2002, o terrorismo eleitoral foi sintetizado na fala de Regina Duarte, na campanha de José Serra: “Eu tenho medo.”. Ao vencer a eleição, Lula declarou: “A esperança venceu o medo.”

Se uma parte da história precisa se repetir, que seja a de 2002, não a de 1964.