Homem não faz milagre

Eu já vi propaganda a beça. Há muita oferta de soluções milagrosas para males possíveis e impossíveis de solução. Sempre vem um e se ilude. Acredita no milagre que é oferecido, mas mesmo que se obtém um resultado prometido, ele vem com um preço, uma conseqüência, ou uma perda.

Se prometem o corpo sonhado, a beleza plena, mas ou você tem que prejudicar sua saúde, ou colocá-la em risco, ou gastar rios de dinheiro, ou se tornar escravo de seu próprio desejo.

Prometem-se potência sexual, mas ao custo de se envergonhar por ela, ou arruiná-la de vez.

Vende-se diplomas, ao custo da estupidez e do erro.

Vende-se riqueza ao custo da honradez, da honestidade e da própria liberdade.

Vende-se a verdade, que não passa de mentira.

Vende-se a palavra, para se obter a injustiça.

Vende-se antidepressivos que podem levar ao suicídio.

Vende-se a sensação perene de felicidade, em troca do vício.

Vende-se o erro, para forjar o certo.

Vende-se a informação, para produzir desinformação.

Vende-se o conhecimento para produzir ignorância.

Vende-se a fé, para gerar a descrença.

Vende-se um padrão, para produzir discórdia e desigualdade.

Vende-se honestidade para travestir o desonesto.

O fato é que tudo o que se vende como solução definitiva e imediata não passa de farsa.

Aprendi com as idas e vindas da vida que tudo se resolve com tempo e esforço. Não é de uma hora para outra que se encontra o final feliz de nossos dramas. Vi muitas mudanças radicais, advindas do tempo, senhor da razão, ou da ação, do sacrifício e da intensa luta. E quando há luta intensa, sempre traz consigo perdas significativas, que só se curam com o tempo. O tempo é o principal ator, mas não pode ficar sozinho.

Aquele que manipula o tempo, sofre, cedo ou tarde com as consequências de sua manipulação. O tempo cobra o preço do atraso ou do indevido adiantar.

Quando vejo pessoas dizendo que tudo vai mudar com Bolsonaro, eu não sei se rio, se tento convencer, se tento dissuadir ou se simplesmente ignoro.

Mas entendo que se iludir com a solução imediata pode parecer incrível, mas é muito comum. Somos bombardeados por propaganda todos os dias, prometendo tudo. Até mesmo o que não parece propaganda, é de fato, e um dos elementos da velha propaganda é a manipulação das informações, a mudança do viés, e até mesmo a mentira, e a omissão da verdade.

Ele promete uma solução imediata para todos os problemas, com palavras voluntariosas e palatáveis aos ouvidos leigos.

Mas os problemas que afligem os milhões de brasileiros, não surgiram ontem, como se fosse um surto endêmico. Foram anos e anos de desigualdade, séculos e séculos de questões mal-resolvidas, que impedem de nós enxergarmos o Brasil como uma nação fraterna de irmãos e iguais. Questões que ele ignora, que trata com descaso, e somente aborda termos vendidos nos jornais, revistas, rádios e televisões, cujos donos são aqueles que querem, coincidentemente, monopolizar a opinião pública com as questões que ele defende resolver.

Ele fala o que as pessoas ouviram na mídia e propaganda como verdades absolutas, mas não são tão verdadeiras e ocultam as verdadeiras lacunas que precisamos resolver.

A verdade é que entendo a verdade que me cerca e também a concretização da barbárie quando ele se eleger.

14 anos de governos petistas criaram uma nova percepção de Brasil. Tanto que durante o curto governo Temer, foi evidente o contraste e o quão necessária a consciência e participação política das pessoas, não apenas no período eleitoral.

A eleição de amanhã será, na prática, um plebiscito: se abdica da democracia, ou entra nela de vez.

A publicidade clássica de Bolsonaro, amplificada pelas mídias sociais e WhatsApp, pode coagir o povo brasileiro a abdicar de seu direito democrático. É o apelo e o alerta daqueles que não foram hipnotizados por sua propaganda. É o apelo de muitos que ignoraram o risco que Bolsonaro representa, mas que acordaram a tempo. Mas também é o apelo daqueles que sempre estiveram atentos e lutaram contra a artimanha opressora do midiático.

Esta eleição configura o maior movimento pela democracia desde 1984. E esperamos que o desfecho seja diferente, daquela ocasião, onde o desejo se viu frustrado por uma manipulação política. Da mesma forma que o povo ansiou naquela época, hoje possa, ao exercê-la, manter seu anseio democrático.

Arma

A arma estará na mão do motorista. Que fechou o seu carro na grande avenida.

A arma vai estar na cintura do homem. Que assedia a mulher na festa, mulher que pode ser sua amiga, sua filha, sua namorada, sua esposa.

A arma pode estar na casa do homem de bem. Cujo filho sofreu bullying na escola. Cuja filha está deprimida. Ou do desesperado porque perdeu o emprego. E também estará em casa quando o bandido do mal for rouba-la.

A arma pode estar no porta-luvas. Do carro do homem que não admite o fim do relacionamento.

A arma pode estar na fazenda. Improdutiva, cujo fazendeiro usará para se “defender” dos camponeses, que não concordam com o jeito com que o fazendeiro distrata a terra.

A arma pode estar com o grileiro. Que vai atirar em tudo o quanto for bicho vivo. Até gente. Até índio. Até satisfazer sua cobiça por terra. Que nunca acaba.

A arma vai estar com o rico. Só estará na mão do pobre honesto, quando desfalecido, para justificar o erro da abordagem policial.

A arma sempre estará na mão de quem quer impor respeito. Sempre estará na mão de quem oprime. Sempre estará na mão de quem não quer de verdade se defender. Pois nem sempre a melhor defesa é o ataque.

A arma é o poder através da violência. A arma nunca será o objeto da paz. E aquele que quer a paz, não se arma de armas, e sim de ideias, de soluções e de diálogo.

Aqueles que tolamente crêem na arma como objeto de pacificação um aviso.

Também morre quem atira.

Sozinhos não estamos

Eu hoje em minhas andanças, no vagão do metrô, uma senhora que estava à minha frente elogiou a minha camiseta. Estava estampada uma charge da personagem Mafalda de Quino. Nela estava escrito “Sim às democracia! Sim à justiça! Sim à liberdade! Sim à vida!” Ela elogiou minha coragem por conta do momento tão nebuloso que atravessamos. E se emocionou. Também fiquei comovido, não apenas com a nossa conversa, mas porque por tudo o que passamos e tememos, vemos que não estamos sozinhos.

Ela me falou sobre um movimento de meditação em busca da paz. Precisamos de paz e também de coragem para continuarmos resistindo ao mal que sufoca a razão e a solidariedade que deveríamos ter.

Nesses oásis de humanidade em um deserto de ódio. Só o fato de não estarmos sozinhos nos fortalece. E nos traz um pouco de alento.

Sozinhos não estamos.

Temor e medo

Agora há pouco escrevi em meu outro blog sobre a eleição de 2018 (clique aqui para ler). E aproveito o ensejo aqui, que tenho um pouco mais de liberdade, para bancar o futurólogo. Tive um dia desses uma espécie de premonição e vou compartilhar com vocês a impressão que tive.

Caso Haddad vença a eleição, o seu mandato será muito similar ao segundo mandato de Dilma, com o agravante de que o congresso que irá enfrentar é muito mais reacionário que a atual magistratura. Será preciso uma grande articulação política e um poder de negociação bastante elevado para levar o mandato até o fim, inclusive tendo que permitir que uma parte da agenda imposta pelo atual congresso. Do contrário, a tensão se elevaria e um escândalo novo iria levar Haddad para um impeachment, ou mesmo uma cassação da chapa, já que sua vice é Manuela Dávila, e teria os mesmos problemas de Haddad para governar o país. Uma possibilidade de golpe militar não estaria descartada.

Já com a vitória de Bolsonaro a situação seria de sintonia boa entre ele e o congresso, mas não dele com o povo. Paulo Guedes é neo-liberal, e o neo-liberalismo para um país extremamente desigual como o Brasil é fatal. Empresas estatais seriam privatizadas, como a Petrobrás, os Correios, e o Banco do Brasil.

Desestatizar é reduzir as receitas do Estado e concentrá-las no recolhimento de impostos. Mesmo com uma receita extraordinária, as contas públicas tem crescimento, tanto pelo fator inflacionário, como pelas necessidades do Estado em se manter, o que consumiria esses ganhos. Isso fora o déficit público. Rio de Janeiro e Minas Gerais estão em uma situação de bancarrota, fora outros estados que não conseguem investir ou mesmo manter suas contas em dia. O governo federal precisa socorrer esses estados, e recursos vão ser utilizados. O Estado menor se endivida mais rapidamente e se torna dependente do mercado. O grande filão dos mercados são as dívidas soberanas nacionais. Quanto menor e menos transparente for o país, mais títulos precisa emitir para manter suas contas e quanto menos confiáveis, maior a taxa de juros. Estatais estratégicas são importantes fontes de receita. Com os royalities do pré-sal, por exemplo, o governo poderia ter receita suficiente para bancar um aparato social que reduziria basicamente a desigualdade social. Não a toa que o foco da operação lava-jato foi a Petrobras. O intuito não foi limpar a estatal, mas destruí-la para que o pré-sal fosse entregue quase de graça às empresas petrolíferas internacionais.

Com o recolhimento de impostos e a necessidade de manter o país atrativo ao investimento, a política tributária continuaria inalterada, com benefício aos ricos e prejuízo aos pobres. Na agenda do trabalho, a “solução” de Bolsonaro para o desemprego é a desregulação das relações trabalhistas, o que precarizaria o trabalho e diminuiria ainda mais a renda média do brasileiro. Com salários menores, o brasileiro irá consumir menos e o impacto que deveria ser positivo, se torna negativo, com recessão e volta do desemprego, pois com relações de trabalho mais fracas, fica fácil o desligamento. A economia informal cresceria, e a marginalidade também, aumentando a violência.

A política armamentista de Bolsonaro também torna-se um agravante, pois com a flexibilização do estatuto do desarmamanto, haveriam mais armas em circulação. Porém como há uma burocracia para o porte de armas, somente pessoas com maior poder aquisitivo teriam acesso a armas, tanto em ambiente urbano quanto rural. Isso aumentaria os conflitos no campo, voltando a ter risco de assassinatos de líderes rurais, e massacres. A atuação da polícia seria valorizada, mas a ausência de uma política de preparação de policiais aumentaria a violência policial. Pessoas pobres e negras da periferia tombariam com tiros disparados por armas de policiais. O clima de medo voltaria a reinar nas ruas, tanto pela violência da marginalização da população excluída pelo plano neoliberalista, como pela violência policial. O toque de recolher nas ruas voltaria.

O controle da mídia será com a priorização da Band e Record, grandes aliados dos evangélicos por ceder horários em sua programação para igrejas, e a Globo teria menos espaço na TV aberta, mas não seria incomodada, pois na TV Fechada ainda teria posição hegemônica.

Os direitos humanos seriam constantemente desrespeitados. Há uma grande quantidade de pessoas conservadoras na nova magistratura, o que seria um risco para a pauta progressista. Pode ocorrer a votação dos famigerados projetos de Estatuto da Família, que tornaria ilegal o casamento homoafetivo, e o Escola Sem Partido, que implantaria uma mordaça aos docentes das escolas do país, tanto na questão política, quanto no combate a homofobia, além de tornar o aborto proibido sem excessões. Aumentariam os casos de homofobia, feminicídio e racismo, pois além da legislação, o discurso das lideranças traria legitimidade aos atos de ódio. O Brasil também vai desrespeitar o meio-ambiente, com o afrouxamento de regras para uso das reservas naturais e enfraquecimento da fiscalização de crimes ambientais, por pressão da bancada ruralista.

A insatisfação se elevará, e muitos dos que votaram em Bolsonaro, deixariam de apoiá-lo. Mas com o apoio do congresso, não seria incomodado. Também poderão surgir casos de repressão a sindicatos e movimentos sociais. Poderão até ter vítimas.

Com a insatisfação, Bolsonaro irá tentar uma nova cartada: o conflito armado. Se estabeleceria um inimigo, interno ou externo. Se for interno, seria decretada uma guerra civil, e se externo, seria escolhido um país, como a Bolívia ou, o mais provável que seja a Venezuela. Um conflito armado é uma jogada de altíssimo risco, tanto na imagem externa, interna, perdas civis, perdas financeiras e instabilidade social e política. Haverá agitação popular e a popularidade pode se deteriorar rapidamente, pois o efeito é de bomba de fumaça, ao tentar criar um problema para resolver outros. E a miséria iria assolar o país de vez.

Um golpe para manter Bolsonaro no poder não seria descartado. A instabilidade social e política poderia gerar deserções na sua base, afinal, é preciso ter apoio popular para continuar deputado.

Se houver eleição em 2022, poderá ser a virada da esquerda, ou sua aniquilação total. Haverá campanha mais agressiva da extrema esquerda, pois se houver uma primavera esquerdista, tudo o que for feito seria desfeito, além de garantir um longo período de governos progressistas.

Eu, sinceramente, gostaria de estar errado. O terror e o medo estão cada vez mais presentes. Serão anos difíceis, e espero que sejam curtos, apenas 4 anos mais.