O conto de 20 de abril

Já no ônibus, a caminho do trabalho faltando dez pras uma da tarde, dou de cara com um outdoor de uma academia, a qual já sou cliente e me fez lembrar que não fui malhar hoje, e nem ontem. Eu não consegui acordar hoje, estava num desânimo só.

Ontem foi a razão do desânimo da manhã seguinte: por um erro alheio e por um erro próprio. O erro alheio se deu a um time de futebol que assinou um sádico regulamento de um campeonato, em que se deveria jogar 5 partidas em um pouco mais de uma semana, e ainda assim, ter que decidir nos pênaltis mesmo tendo a melhor campanha. Endividado e cansado, pressionado por uma emissora de TV, com início de temporada precoce, maratona de jogos, enfim… Sempre gostei do esporte bretão, e inclusive durante a peleja que parou São Paulo pra ver, eu estava praticando em um parque quase vazio, mas com alguns praticantes honrando a tradição brasileira de pátria de chuteiras, embora a maioria deles jogassem descalços.

O segundo erro foi meu. Embora o prejuízo financeiro foi pequeno, o prejuízo moral foi enorme, a ponto de me colar ao colchão a manhã inteira. Não foi algo que me levasse às lágrimas, mas a uma profunda reflexão. As epifanias deveriam ser eventos corriqueiros em vez de raros. O nosso ego e autoestima muitas vezes nos cegam e cerceiam o direito de aprender com nossos próprios erros. Concluí que apesar de ter tido algumas evoluções nestas últimas semanas, após períodos de reflexões e epifanias, ainda há um longínquo caminho a seguir. E ao descobrir meu calcanhar de Aquiles, vi que é preciso uma vigilância maior de modo a reforçar meus pontos fracos. Pensei em me afastar de tudo aquilo que poderia me por em risco, mas entendo que a melhor forma de vencer seus medos é em vez de fugir, conviver com eles, de modo que estes deixem de o afligir. Foi assim que parei de fumar.

Pois é. A sabedoria advém de todos os lugares. Basta ler.

Famílias de comercial de margarina

Dia 31 de março de 2015 marcou um triste episódio da defesa dos direitos humanos e do combate racional à violência. Foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça por 43 votos contra 21, a proposta de emenda constitucional que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Mais uma vez, os políticos do Brasil não entendem e não usam o poder que tem nas mãos com sabedoria. Mais uma vez se atacam os efeitos em vez das causas. Mais uma vez os congressistas brasileiros atuam de forma passional, irracional e irresponsável quanto ao futuro do país e quanto à questão da violência e da questão do menor em situação de conflito com a lei.

O cerne da questão está num dos pontos ao qual os senhores parlamentares, sobretudo a bancada religiosa, não quer mexer, por contrariar seus interesses: a família. É na família onde são cultivados os valores que conduzem a sociedade a uma situação de paz social, ordem e respeito mútuo. Outro ponto importante que também é relegado, por contrariar os interesses dos donos do poder é a educação.

A melhor forma de combater a violência e resolver a questão do menor em conflito com a lei, não é com punição e sim com prevenção. E a prevenção vai muito além da educação familiar, passa pelo planejamento familiar, e até do conceito de família.

O conceito de família é uma questão que a bancada religiosa quer intervir, para impedir o reconhecimento do Estado de casais LGBT com filhos, sejam estes naturais, ou por meio de adoção, como sendo uma unidade familiar, por meio do nefasto estatuto da família.

Esta mesma bancada evita ao máximo tocar em questões delicadas como o aborto ou programas públicos de contracepção. O objetivo é claro: o controle das pessoas através de uma “padronização” e “normatização” do comportamento sexual, como ferramenta de controle, pois diz-se que quem controla o sexo, controla o homem.

Retirar o controle do comportamento sexual da igreja e dar às pessoas o direito de livre arbítrio, seria a abolição do poder e influência desses grupos sobre a sociedade, o que também representaria a perda de seu poder político e social.

Tanto é que o moralismo e ações de cunho excludente e corretivo são a tônica desses grupos. Seria perfeitamente compreensível, porém bastante reprovável, o apoio destes à redução da maioridade penal.

A família é o mote de defesa destes grupos. Porém o modelo de família que estes defendem é um modelo deturpado, excludente e leviano, um modelo aparentemente perfeito aos olhos das divindades que acreditam, que é muito parecido com a família apresentada nos comerciais de margarina. Este tipo de família, não existe: é um modelo utópico, que não deve ser imposto à sociedade, pois é um modelo excludente. Tão excludente quanto milhares e milhares de jovens, que por estar em conflito com a lei, serão afetados por uma solução burra em reduzir a maioridade penal.

Acabar com a impunidade não é jogar o jovem no lixo, como propõe a redução da maioridade penal. A educação do jovem tem que vir desde o começo, com a concepção da família. Pais e sociedade são corresponsáveis pela criação de nossos filhos. Não podemos permitir que a questão sexual e familiar seja banalizada e desmoralizada desta forma. O planejamento familiar, o incentivo a contracepção, a educação familiar e escolar, com a difusão de valores, como o respeito ao próximo, a valorização da vida e o desapego aos valores materiais. Devemos também ter o entendimento de que a mídia, a cultura e a propaganda devem estar em consonância com estes valores, com o combate à propaganda infantil, a democratização da mídia, a regulamentação e fomento à cultura, com o incentivo a movimentos culturais e socieis que privilegiem as raízes brasileiras e os valores humanos.

Por outro lado, devemos punir, sim, aqueles que colocam nossos adolescentes no crime. Temos que também repensar o modelo penal em que vivemos, pois este apenas agrada os aristocratas, que preferem fugir e esconder os problemas, ao invés de enfrentar e solucioná-los. O modelo de prisão como depósito de gente, com superlotação, sem atividades de trabalho e educação, além da reintegração do indivíduo à sociedade, não é a solução efetiva para o problema da violência e da criminalidade, além de ser um ônus para a sociedade, que tem que arcar, além dos custos de operação dos presídios, com o fato de estas pessoas detidas deixarem de contribuir para a sociedade. Temos também que tornar a punição aos aliciadores de menores para o crime e para a prostituição mais rígida. Também temos que observar os pais que não arcam com a educação dos filhos, seja pela questão de formação inadequada para compor uma família, seja pelas ações que os direcionam para valores incompatíveis com o que se espera de um convívio social.

Para resolver a questão do menor, devemos abolir a família do comercial de margarina. Devemos admitir que o modelo familiar é diverso, porém focado em desenvolver crianças e jovens, preparando-as para o convívio em sociedade de forma harmônica e progressista.

O heroísmo de Cid Gomes

Não vim aqui para falar da figura de Cid Gomes, mas do ato de ontem que culminou em sua demissão do cargo de ministro da Educação. Talvez tenha sido o fato mais emblemático de uma turbulenta semana que se iniciou com as passeatas e protestos contra o governo no domingo. Cid foi chamado ao congresso e não se conteve às acusações que recebeu do presidente da casa, Frank Underwood, ops, Eduardo Cunha, partindo para o ataque, ao dizer que prefere ser tido como mal-educado a ser acusado de achaque, além de dizer que além de Cunha, há cerca de 400 achacadores no congresso.

Palavras duras a ponto de Cunha pedir a cabeça do ministro em uma bandeja para Dilma, o que foi prontamente atendido, a ponto de o mesmo fazer o primeiro anúncio da queda do ministro.

Palavras duras, mas ilustram bem o desprestígio que a casa tem em sua atual magistratura. Atolado em escândalos, corrupção, desmandos em viagens, chantagens ao executivo, o congresso nacional brasileiro se encaminha para uma espiral paralisante.

O ato de coragem de Cid, embora fatal para sua carreira de ministro da educação, representou um desejo, que embora resignado, de muitos brasileiros, indignados, de fazê-lo contra um congresso, que arrogantemente dá de ombros quanto a situação do país, fingindo que o problema da corrupção não é com ele.

O ato de Cid lembrou um trecho de uma música de Arnaud Rodrigues e Chico Anysio, quando interpretavam Baiano e os Novos Caetanos, chamada Cidadão da Mata em que dizia: “Quem morre por último é o heroi, e o heroi é o caba que não teve tempo de correr”.

Por que “Orgulho Hétero”?

Qual o oposto de orgulho? Vergonha.

Orgulho é um sentimento de quem sente satisfação por ser de uma determinada maneira, ou pertencer a uma determinada classe.
Vergonha, por sua vez é a insatisfação ou constrangimento de ser ou pertencer a uma classe.

Orgulho e vergonha estão relacionados, muitas vezes a condições naturais e permanentes, que tem uma origem natural, inata, em alguns casos tão profundos, que podem ser imutáveis.

Por que existe o orgulho gay, o orgulho negro, o orgulho feminino? Pois estas classes de pessoas eram discriminadas por sua condição, muitas vezes marginalizadas e impedidas de exercer sua cidadania e seus direitos por suas antíteses tidas como dominantes: homens, brancos e heterossexuais (esse não é o padrão na política, na cultura, desporto, mídia e propaganda?)

E este tipo de “norma” não é por acaso. Serve para manter um controle, uma situação de domínio de uma minoria (um grupo que exerce posição de liderança), contra uma maioria (dominada, obediente, subserviente). E essas normas são estabelecidas para, primeiro, gerar pontos de conflito internos, que desestruturem a maioria, mantendo uma condição estabelecida, e segundo, para gerar uma falsa sensação de hierarquia social, colocando aqueles que estão obedecendo a este padrão como privilegiados e os que estão fora dele, como marginalizados.

Quem está fora da “norma”, e observa atentamente a esse jogo percebe este panorama de Discriminar para controlar, e se tornam alvo dos defensores da norma. Algumas igrejas, partidos políticos e grupos como a Ku-klux-clan ou nazi-fascistas adotam a estratégia de eleger um “inimigo” para motivar e unir seus seguidores. Eles claramente reafirmam seu orgulho, em troca do constrangimento e aniquilação de seus alvos.

Será que o orgulho hétero é um contraponto de quem quer manter o ódio e o preconceito contra a comunidade LGBT?
Será que o orgulho hétero é um contraponto de quem quer manter o ódio e o preconceito contra a comunidade LGBT?

Taí o temor de assumir uma posição de orgulho de pertencer a uma situação dominante e de maioria, pois esta posição pode desencadear um sentimento de rivalidade, ódio e desejo de aniquilar um grupo que não esteja alinhada a esta posição dominante. Foi assim que o holocausto surgiu.

Somente deixará de fazer sentido a questão de ostentar um orgulho de pertencer a uma classe, quando diferenciar deixar de ser uma questão relevante, ou seja, quando todas as pessoas de grupos heterogêneos estejam sob um mesmo patamar de direitos e deveres, e determinada característica inerente a pessoa deixe de ser condição para conceder direito, ou outorgar dever.

Se há o orgulho gay, negro, ou feminino, é porque estes grupos querem reverter uma condição de desigualdade imposta a eles. Uma condição que muitas vezes os põem em condição de desvantagem.

Por que ainda há diferença de remuneração entre homens e mulheres, em trabalhos iguais? Por que pessoas negras, tem em média uma escolaridade pior do que brancos, e por que a maioria das vítimas da violência policial são negros e pardos? Por quê um casal homoafetivo não tem naturalmente direito a herança, pensão, adoção?

Agora entendeu porque não faz o menor sentido ter orgulho em ser privilegiado?

(adaptado de um comentário meu no facebook em resposta a um “amigo” que defende o dia do orgulho hetero, por considerar “igualdade de direitos”)

Um belo recado

Terminou agora há pouco a cerimônia de premiação do Oscar. E entre os premiados e indicados ao prêmio ficou um belo recado. Um recado a aqueles presos a paradigmas, que insistem em diferenciar as pessoas pela cor da pele, orientação sexual, nacionalidade ou por ser portador de deficiência.

O grande vencedor do Oscar, Birdman, é dirigido por pelo diretor mexicano Alejandro G. Iñarritu. Sabe-se que é corrente em toda a parte do mundo, estrangeiros serem subestimados em seus talentos, inclusive não tendo espaço para mostrar aos países que escolheram para viver, que vieram em missão de paz, para somar suas habilidades em prol de seus novos compatriotas.

A teoria de tudo é uma história que vem mostrar que o talento supera todas as adversidades. Todos os portadores de algum tipo de deficiência, ainda não tem direito a uma vida independente, sequer são reconhecidos no mercado de trabalho, como pessoas que podem contribuir e muito com a sociedade.

Selma mostra que a realidade do racismo, mesmo sendo um filme de época, ainda é um tema atual e uma realidade ainda não superada. O tema musical do filme e que foi premiado pelo Oscar – Glory – utiliza R&B, Hip-hop e faz um link entre realidade e a época de Martin Luther King, mostrando que sua luta ainda não foi completamente vencida.

Mas quero destacar o filme O jogo da imitação. A história de Alan Turing vem mostrar a tolice que é discriminar pessoas. De nada serviu as contribuições dele para a computação e por decifrar o código de comunicação nazista, poupando milhões de vidas na segunda guerra mundial. Naquela época, na Grã-Bretanha, ser homossexual era crime, e Alan foi condenado a castração química. Preconceito, desinformação e discriminação é uma realidade que a comunidade LGBT sofre diariamente, simplesmente por ser o que são, e assumir sua orientação e identidade sexual. A homofobia sofrida por Turing pelo estado ainda é sofrida por muitos Gays, Lésbicas, bissexuais e transgêneros, por omissão do próprio estado.

É a arte cinematográfica buscando levar às pessoas uma profunda reflexão. É importante acabar com a diferenciação: Todos somos humanos. Estes é um recado que muitos conservadores não querem ouvir e gritam aos quatro ventos para que esta mensagem não chegue aos ouvidos de gente de bem.

Síndrome de Borba Gato

Você conhece Borba Gato?

Borba Gato era um bandeirante. Desbravou São Paulo, mas às custas da morte de milhares de índios. Mesmo com este viés tirano e genocida, a história, por muito tempo, o aclamou como heroi. Esse personagem ilustra bem o sentimento que algumas pessoas, ao verem a vitória eleitoral de Dilma Rousseff, expressaram naquele momento.

São Paulo ainda guarda o berço de um narcisismo político oriundo da política café-com-leite. Muitos paulistas acreditam ainda que o estado é o carro-chefe do Brasil. O pensamento conservador do paulista, sobretudo nas urnas, pode ser considerado como consequência desta crença na liderança. São Paulo vê a posição hegemônica desvanecer e tenta, com todas as forças, defender essa posição. Este paradigma é observável pela postura arrogante de seus governantes. Age com truculência contra posições contrárias, mantém velhas práticas políticas reprováveis, busca a resolução dos problemas agindo sobre os efeitos, e não as causas, mantém uma conduta hipócrita quanto a corrupção, alimentam uma cultura nacionalista paulista, além de intervir no processo educacional, de modo que a educação seja apenas funcional e voltada para o mercado de trabalho. Por conta dessas práticas, não seria de se admirar o tamanho do apoio dado pelo estado a Aécio Neves, e a reação de muitos destes, de forma desrespeitosa e truculenta, ao resultado desta eleição. Ao apontar vergonha em relação ao resultado do pleito e ao hostilizar nordestinos e beneficiários do programa bolsa-família, evidencia-se a ignorância e o desrespeito ao próprio país.

Como o estado de São Paulo sempre ostentou ser um estado rico, a tola crença em creditar a derrota de seu candidato favorito às classes pobres beira a um fanático devaneio. Até porque muitos dos que hoje estes trucidam, ajudaram-os a construir a riqueza deste estado, sem contar que poderão ter o sangue nordestino correndo em suas veias, dada a  miscigenação. A mudança é que até a década de 1990, todas as políticas nacionais de desenvolvimento eram voltadas apenas para o centro-sul do país. Às regiões norte e nordeste, apenas programas assistencialistas, exceção à Zona Franca de Manaus. A visão de alguns especialistas é que, para que o Brasil tenha um ritmo de crescimento e desenvolvimento sustentável, seria preciso um projeto de âmbito nacional, e que contemplasse todas as localidades do país, concentrando ações em locais onde este desenvolvimento estivesse em condições de crítica carência. A balança regional brasileira precisava ser equilibrada. Após a estabilidade econômica, em 1994, já era possível buscar o equilíbrio regional, que ganhou um impulso maior com as últimas administrações. Daí o apoio à continuidade do governo, por parte das regiões que mais foram beneficiadas com estes programas. As regiões do centro-sul do país, que já possuíam um grau de desenvolvimento, viram esta busca pelo equilíbrio regional, como uma ameaça. Primeiro, porque aumenta a concorrência econômica, tanto na disputa por instalação de empresas, quanto na questão tributária. Depois porque a pujança de arrecadação tributária se reduziu sensivelmente, dada a concorrência interna com outras regiões quanto pela redução dos repasses de arrecadação de tributos federais para estes locais. Isto forçou estes estados a caminharem por dois viéses: ou o viés nacionalista e defensor do paradigma, ou o viés de busca de uma melhor eficiência gestora, com melhor organização dos recursos e desenvolvimento de uma gestão mais ágil, menos burocrática e mais efetiva. Ficou claro qual dos viéses foi escolhido. A estagnação dos estados do centro-sul não se deu pelo desenvolvimento dos estados do norte-nordeste, e sim, pela ausência de capacidade e competência de seus governantes em se adaptar a uma nova realidade integrada ao contexto nacional atual.

Tanto que alguns exaltados até defendem o separatismo: a separação das regiões do sul, com o norte-nordeste. Desde muito tempo, o Brasil vem sendo governado de forma segregada, com privilégios às regiões sul e sudeste do país. É perfeitamente compreensível, porém inaceitável, que quando se ensaia uma política integradora do país, quem sempre era privilegiado passe a agir com rancor, e desejar o retorno da velha norma.

Nas redes sociais, viram-se manifestações bastante condizentes com manifestações fascistas, onde a xenofobia, o nacionalismo regional e nacional, a defesa de paradigmas, a fé e o manifestações de ódio, com perseguição a grupos políticos e de origem regional ganham tônica. O que se viu a seguir foi uma reação a este pensamento, com a repreensão e condenação destes atos. O momento é delicado e exige-se razão, além de serenidade. Pois este processo eleitoral foi o mais intenso e acirrado da história da República Brasileira, e pode ser considerado um teste de estresse da atual democracia do Brasil.

Agora, devemos nos questionar: estamos sendo o melhor de José de Anchieta, ou o pior de Borba Gato? Sejamos, não importa se paulistas, sulistas ou nordestinos todos brasileiros.

A esperança e o medo

Uma notícia me estarreceu, me deixou com medo.

Noticiada pelo portal UOL (Leia em http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/22/em-ato-pro-aecio-militantes-xingam-dilma-e-gritam-viva-a-pm.htm), relatou-se um ato pró-Aécio em São Paulo, onde as palavras de ordem eram “Dilma Terrorista”, “Fora PT”, e tinham o apoio de Eduardo Bolsonaro (deputado eleito pelo PSC em SP, filho do deputado Jair Bolsonaro, um dos autores do atentado do RioCentro em 1981), o ex-jogador Ronaldo, FHC, Paulinho da Força, entre outros. O fato de um ato a favor de um candidado se tornar rapidamente um ato de ódio a outro e ao grupo político ao qual este pertence denota claramente uma ausência de discurso do primeiro e evidencia um sentimento coletivo temerário: o fascismo.

Sim! Fascismo! Com todas as letras! Os ditos defensores da liberdade, pela moralidade e contra a corrupção, na verdade são a  favor da opressão, hipócritas e mais corruptos do que quem os critica.

Os protestos de junho foram entorpecidos e envenenados pela grande mídia e pelos fascistas que alí se instalaram, seja no “movimento contra a corrupção”, seja no “movimento pela intervenção militar no Brasil”, seja em movimentos menores e também intoleráveis, como a oposição ao programa Mais Médicos e a defesa da “Família Tradicional”, heteronormativa. Tanto é que o reflexo nas urnas foi exatamente o oposto do que se propunha nas ruas: a nova legislatura será mais conservadora e mais alinhada aos paradigmas, que nos impedem de tornar o Brasil um país mais justo, democrático e moderno.

E com a eleição de Aécio, o processo de radicalização dos paradigmas no país será catalizado, pois certamente, dadas as características que conhecemos da política brasileira, Aécio irá atendender aos anseios de todos aqueles que o apoiaram, entre eles temos Bolsonaro, Malafaia, Feliciano, Bornhausen, Bancada Evangélica, além dos ruralistas, dos defensores da terceirização, da flexibilização das leis trabalhistas, do Estado Mímimo, da Privatização, do armamentismo, do militarismo, e por fim, do fascismo.

A história, às vezes tem seus movimentos cíclicos, que muitas vezes são justificados pela falta de entendimento, ou de conhecimento das falhas que provocaram os atos que agora retornam. Não podemos permitir que a história volte a repetir tal qual em 1964. Ativistas de esquerda foram taxados de terroristas e muitos deles foram perseguidos e mortos, dada uma redemocratização falha e não pautada em desenvolvimento social. Vemos a possibilidade de deter esse retrocesso, pois hoje temos diversas vozes atuando, e não poucas, como naquela época. Temos uma democracia consolidada, e liberdades individuais garantidas.

Em 2002, o terrorismo eleitoral foi sintetizado na fala de Regina Duarte, na campanha de José Serra: “Eu tenho medo.”. Ao vencer a eleição, Lula declarou: “A esperança venceu o medo.”

Se uma parte da história precisa se repetir, que seja a de 2002, não a de 1964.

Você não está sozinho

Você não está sozinho. Ao ouvir do próprio pai, que preferia ter um filho bandido a ter um filho(a) gay. Ao ter de ocultar de tudo e de todos os seus sentimentos. A não poder andar de mãos dadas, beijo, nem pensar. Ao ouvir risos de seus trejeitos, de sua voz, de seu jeito de ser.

Você não está sozinho. As caras feias que lhe mostram. As frases que lhe indignam. As opiniões que lhe desagradam. Aos pedidos infundados de decência. Ao abandono da família, de muitos amigos (que de fato não o são), das igrejas, do estado, do mundo.

Você não está sozinho. Está carregando injustamente todo mal e culpa do mundo. Está sendo usado como alvo para intriga e disputa de poder. Está amedrontado, estigmatizado, humilhado, muitas vezes agredido, sem defesa, sem merecimento de compaixão.

Você não está sozinho. Você foi levado na conversa, foi iludido, levado a uma emboscada, surrado, com as pernas quebradas, com o pescoço quebrado, jogado no matagal, com a boca cheia de papel, onde está escrito todo o ódio e estupidez ao qual um ser humano pode descarregar contra seu semelhante.

Você não está sozinho. Sua morte é um sinal de alerta. Um alerta de que um de nós não pode sofrer toda essa covardia sozinho em vão. De que você é um mártir que deve simbolizar em todos nós que a intolerância e barbárie precisam morrer, para nascer em nós a tolerância e o respeito ao próximo. Pois estamos cansados de ver amigos nossos tombando em solo mãe gentil sem que nada seja feito.

João Antônio Donati: você não está sozinho.

A morte do estado Laico Brasileiro

Em sua jornada eleitoral, Dilma Rousseff, candidata à reeleição, disse que “o Brasil é um Estado laico, mas feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. Esta frase trouxe preocupação a todos os defensores de um estado laico, já que a laicidade do estado está no princípio de não conceder nenhum benefício ou privilégio a um credo.

Há muito tempo que um certo movimento evangélico popular vem empreendendo lobby político, visando a defesa de seus interesses. Porém estes interesses, muitas vezes esbarram no estado de direito e no estado laico. Por esta razão os evangélicos passaram a participar cada vez mais da política, com um público cativo de seus fieis, além de já comporem uma bancada no congresso nacional. Seu maior feito foi presidir a comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos deputados com o Pastor Marco Feliciano (PSC-SP).

Esta eleição será a primeira com um candidato a presidência pastor evangélico (Pastor Everaldo do PSC) e já conta com dois partidos representantes de seus interesses: o próprio PSC e o PRB, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, e que compõe chapa com a candidatura de Dilma.

Dois projetos capitaneados pelos evangélicos são ameaçadores a alguns grupos, como o movimento LGBT e os movimentos de defesa do estado laico. Há projetos que prevêem a inclusão de lideranças religiosas cristãs entre os grupos que podem propor ação direta de inconstitucionalidade (privilégio exclusivo do presidente, governadores, senado, câmara, governadores de estado, procurador-geral da república e OAB nacional para propor junto ao STF que uma lei seja inconstitucional), e o estatuto da família, que estabeleceria que o casamento só seria permitido no Brasil entre um homem e uma mulher, tornando ilegais todos os casamentos gays registrados no país.

Na África, a influência negativa de missionários cristãos, além da de fundamentalistas islâmicos, em alguns países tem causado resultados trágicos. A perseguição contra homossexuais em Uganda é o exemplo mais emblemático. A lei Anti-gay aprovada este ano, que porém recentemente revogada, é prova de que quando se mistura religião e política, o resultado na maioria das vezes é desastroso. Há cerca de 20 anos, o processo de homofobia institucionalizada vem ocorrendo em Uganda, inclusive com casos absurdos de jornais publicando nomes e endereços de pessoas homossexuais, assumidas ou não, sem contar as perseguições e assassinatos de homossexuais, que na maioria dos casos, não tem seus agressores punidos. A África se tornou um terreno fértil para atos de intolerância religiosa, dado ao fato de que foi colonizado pela Europa e a colonização trouxe um processo de destruição das raízes culturais e da auto-estima de seu povo.

Segundo a organização não-governamental de defesa dos direitos LGBT All Out, em 77 países do mundo a homossexualidade é enquadrada como crime, inclusive com a pena de morte em alguns deles.

O Brasil viveu sob 21 anos sob uma ditadura, onde as liberdades individuais eram restritas. Hoje vivemos em um país livre e democrático. Mas é preciso bom senso. A vontade de muitos (muitas vezes induzida por alguns) não pode induzir o Estado a restringir o direito que as pessoas tem de ser o que são. O amor é um direito inegociável e irrestrito a todos os seres humanos!

O juramento de Hipócrates

Recentemente, no Rio de Janeiro, e neste último final de semana, em São Paulo, ocorreram dois casos de negligência médica que me deixaram estupefato e indignado, com tamanha falta de consideração com o ser humano. Pessoas agonizaram na porta de hospitais sem atendimento, por estes hospitais serem particulares, e se negarem a atender pois estas pessoas não tinham convênio médico.

Sempre me preocupei com estes casos, que escancaram uma cultura materialista e destrutiva, no tocante da vida profissional das pessoas. Não vejo jovens escolhendo uma profissão que esteja mais alinhada à sua personalidade, e sim, às perspectivas financeiras. E os casos de negligência médica contrapõem os interesses de alguns médicos, com o Juramento de Hipócrates, que o fazem quando se formam.

O Juramento de Hipócrates, prega a caridade e a honestidade na prática da medicina, ou seja, deve-se atender a todos que necessitem de atendimento, tendo recursos financeiros ou não.

Ao negar atendimento, além de escancarar uma postura institucional mercenária, seus profissionais descumprem ao juramento de Hipócrates.

Além disso, quem se disporia a buscar atendimento em um hospital que se importa apenas em ganhar dinheiro de seus pacientes? O efeito na imagem destes hospitais é avassalador.

Voltando a questão da carreira, temos que aprender que o dinheiro não é o objetivo, e sim a consequência de um bom trabalho.

Devemos todos nós rever a forma como encaramos o nosso ofício. Em vez de sermos parasitas dele, devemos colocar a serviço da humanidade.

10 minutos

A história é escrita pelos vencedores, não pelos vencidos, costuma-se dizer. Não seria possível então relatar o que foi a acachapante vitória alemã sobre o Brasil nesta Copa do Mundo.

Foram 10 minutos, que se estivessem sido excluídos do jogo trariam uma sensação de dor menos pungida do que representou aquele 7 a 1 para nós.

Mas ao contrário das arrebatadoras vitórias de Anderson Silva no UFC, o futebol não tem nocaute, e os golpes desferidos pelo time alemão entre os 20 e 30 minutos do fatídico primeiro tempo em que um placar de 1 a 0 virou 5 a 0, certamente teria abreviado e muito o sofrimento do torcedor brasileiro, se o tivesse.

O escrete canarinho nunca havia passado em 100 anos de história por tal queda, sequer em amistosos. Mas os vitoriosos frutos são colhidos em terras onde na derrota se plantaram as sementes do ensinamento.

Quase impossível aprender sem dor. E o legado que teremos é que não há mérito sem esforço. Não há merecimento sem sofrimento. Não há resultado sem humildade, esforço, trabalho duro, persistência e paciência.

E o time alemão tem tudo isso, tem mérito. E aprendeu com as derrotas: 2002, 2006, 2010, para enfim, ter a chance de colher o fruto que somente Brasil e Espanha alcançaram, o de ser campeão de uma copa do mundo fora de se seu continente.

10 minutos: tempo suficiente para mudar uma história de copa do mundo, de emudecer vozes, despertar olhares incrédulos, rolar lágrimas. Mas este é o ponto de vista dos vencidos, não dos vencedores. Isto não vira história, ou não?

Querido papai do céu

Querido Papai do Céu,

Minha mãe me ensinou desde pequeno a rezar antes de dormir para pedir em prece boa noite e dias mais felizes.

Sei que há muito tempo não faço isso, mas aprendi que a bondade que se oferece ao próximo sempre retorna de forma dobrada, sob a forma de bênçãos. E eu sei que toda vez que pratico o bem, a gentileza, o otimismo e a esperança estou rogando seu nome, não em palavras rezadas, mas em ações praticadas.

Amanhã é o dia de abençoar um grupo ao qual torcemos muito por eles. Sob eles, paira o descrédito, paira a torcida contra, inclusive com gritos de já ganhou, além do fato de que muito se conspira contra, quando se está em casa.

Lanço minhas esperanças aos futebolistas brasileiros, que com fé, suor, sacrifício e lágrimas chegaram até aqui nesta Copa. Não seria muito justo, um povo tão festivo chorar amanhã. Peço a ti, Papai do Céu, que os proteja, os abençoe e que os motive para vencer este grande desafio.

Pois sei que desejando o bem a eles, eles trarão a mim, e também sei que nesta prece, não estarei sozinho. Muitos de nós também rogam teu nome pedindo bênçãos a eles.

O senhor é justo e misericordioso. Fazei-os triunfar, e terás um povo feliz.

Amém.

Prova dos noves

Considero sempre o evento da Copa do Mundo como uma espécie de “prova dos noves” de otimistas e pessimistas. Ao zapear na web notícias sobre o Jogo entre Brasil e Colômbia, pelas quartas de final leio comentários deste tipo:

Da Colômbia não passa. O Brasil está muito ruim!

O Brasil não vai vencer 🏆 esta copa.

Na sexta o Brasil sai da Copa!

Em contraste com outros comentários do tipo:

O Brasil vai ser campeão! O pior já passou!

A Colômbia é mais fácil que o Chile! Vamos avançar!

Vamos vencer mais uma! Vamos ser hexa!

Esse contraste é interessante. Ao ver um copo com água até a metade, podemos dizer que este copo está meio cheio, ou meio vazio. Nossas experiências, nosso aprendizado, nosso modo de ver e entender o mundo influenciam o nosso nível de otimismo.

Há dois lados nos extremos do otimismo. Otimismo demais leva as pessoas à ilusão, descolamento da realidade e a desilusão, quando a realidade imaginada diverge da realidade real. Pessimismo demais também nos leva a ilusão e descolamento da realidade, mas o pessimismo tem uma tendência de inação e fatalismo. Assim o pessimismo nos amedronta e nos paralisa, enquanto o otimismo nos propõe ação, nos inspira.

O realismo é uma leitura neutra, que se vale de um conjunto de evidências reais para pender ao otimismo ou pessimismo. É o fiel da balança.

O ser humano tem uma fixação pelo futuro, pelo incerto, pelo desconhecido. Especular o que há por vir ainda desperta em nós interesse e curiosidade. Religiões, astrologia, misticismo, ciências, probabilidades e achismos sempre procuraram tentar suprir a lacuna eterna da humanidade em conhecer o incerto.

Por isso não existe verdade mais absoluta que possa confirmar a incerteza e a inquietude que temos diante dela.

O que tem de ser, será.

Cadê o cartão, professor?

Era o dia 12 de junho de 2014. A copa do mundo, enfim, se iniciava. Eu estava na Arena Corinthians, atuando como voluntário da Copa do Mundo, aguardando o retorno de um coordenador de Tecnologia, área que escolhi para voluntariar. Eram 16:50. Estava na zona mista, uma área do estádio que permite que os jornalistas entrevistem os atletas. Atletas perfilados, hinos em execução. Pude ouvir o hino brasileiro cantado pela torcida à capela, prova que a FIFA deveria abolir essa história de hino de 90 segundos. Mas o que se ouviu depois foi estarrecedor. Em coro ouviu-se a maior demonstração de desrespeito que um povo poderia fazer ao seu próprio representante. Mandaram a presidenta tomar naquele lugar.

Depois do trabalho, pude circular pelas áreas das torcidas. Não vi criança de pé no chão, não vi senhora de olhar sofrido, não vi senhor de mão calejada. Copa do mundo é um evento elitista, isto é fato. Mas o que tentou-se fazer aqui no Brasil, foi sim, um ato de bastante coragem. Imagine, você, senhor e senhora, empresário, profissional liberal, classe média, que pagou de 600 a 2000 reais para ver uma abertura de Copa do Mundo, ser “obrigado” a deixar a comodidade de usar o carro, para ir de trem ou metrô, para ir a um longínquo lugar da cidade de São Paulo, onde só tem gente pobre e miserável (reitero que essa é a opinião dessa gente, não a minha).

Perguntaria a estas pessoas porque xingaram a Dilma, mas não tive coragem. A pergunta é o mais eficaz instrumento de reflexão, não para quem pergunta, mas para quem responde. E imagino que uma reflexão provoca reações indesejáveis em pessoas ignorantes e sem consciência do que fazem, pois podem-nas levar a uma verdade intrigante, e auto-ofensiva, corrosiva ao próprio ego.

Foi uma grande demonstração de analfabetismo político, até porque estão usufruindo de um evento provido pelo atual governo que o insultaram. Depois nada adianta culpar a presidente se colocam no congresso canalhas e sanguessugas, que parasitam o estado com corrupção em troca de promessas de governabilidade. Terceiro que no próprio estado de São Paulo temos um exemplo grave de corrupção e cartel para o metrô e CPTM. De onde vem o rio de dinheiro que financia as campanhas bem-feitas do PSDB? Só da elite quatrocentona que o apoia não é suficiente.

Mas voltemos ao nível de educação das pessoas presentes. Eu já escrevi a respeito do modelo educacional aplicado no Brasil. É um choque de realidade pessoas que foram disciplinadas, em vez de educadas, ver um estádio de futebol sem grades, sem fossos, apenas com a proteção por Stewards, com banheiros fartos, sala vip, cadeiras numeradas em todo canto, visão plena do campo em qualquer lugar do estádio, estádio moderno. Não tinha o que reclamar, em relação ao que já tinha. Sobrou para a Dilma.

Se as pessoas que xingaram a presidenta, fossem só um pouco mais inteligentes, não conseguiriam xingar ninguém, pois apesar da culpa que a Dilma carrega, por ser a suprema mandatária da nação, ela não carrega essa responsabilidade sozinha. E a lista de pessoas responsáveis seria tão extensa, que uma copa e uma olimpíada, quiçá um século, não bastariam para xingar todo mundo que nos colocou nesta situação.

Em suma, xingar foi um ato tolo, e será hipócrita, se o povo que xingou Dilma, votar em outubro com a mesma inconsequência que teve ao xingar a presidenta. Cadê o cartão pra essa gente?

Internet: Um porto seguro

Hoje, o senado federal aprovou o marco civil da internet, e entrará em vigor após sanção presidencial. Esta lei provocou muita discussão e polêmica, pois havia interesses de muitos setores da sociedade e da mídia neste marco regulatório.

De fato, o controle de um meio de comunicação tão plural e livre como a internet (ainda que não plenamente democrático no Brasil), nos leva a uma reflexão bastante ampla sobre o papel da mídia em nossa sociedade. Neste artigo quero destacar dois pontos que são chave de uma disputa de interesses: a neutralidade da rede e os direitos autorais na rede.

A neutralidade da rede é um tema que encontra bastante oposição por parte das operadoras de telefonia e provedores de serviços de internet. Há alguns especialistas como Ethevaldo Siqueira, que defendem que algumas aplicações como a tele-medicina tenham prioridade de tráfego. Mas, infelizmente, é sabido de todos que o intuito de estabelecer prioridades no tráfego por parte dos provedores de acesso à internet é meramente financeiro. Quem paga mais, tem maior prioridade de acesso à rede. Um exemplo é a estrutura de internet via cabo. Pergunta-se o porquê de haver diferentes velocidades (e preços), se a estrutura física de uma rede internet via cabo é a mesma, inclusive compartilhada com outros serviços como TV e telefonia. Por isso a neutralidade da rede se faz necessária, para trazer dois efeitos: inibir as operadoras a sucatear serviços de planos de acesso mais baratos e forçar os usuários a migrarem para planos mais caros, e exigir dessas operadoras, por não poder priorizar tráfego de dados, a trabalhar de forma séria na acessibilidade e qualidade dos serviços prestados.

A questão do direito autoral na rede é um embate entre o velho modelo de mídia e um rompimento de paradigma que este velho modelo representa. Desde o início do século XX, quando boa parte da produção cultural se profissionalizou, pelo advento dos meios de comunicação de massa e mídias, como a fotografia, o rádio, o cinema, o fonógrafo, e seus sucessores, vê-se a produção cultural como um produto com valor agregado. Este produto tem um valor tangível, que é a mídia na qual este produto é veiculado, e outro intangível, porém valorado, que é o direito de uso e reprodução. As empresas de mídia, imprensa, empresas de telecomunicação, produtoras de cinema e gravadoras, viram como bastante rentável a monetização plena da produção cultural. Porém, a cultura é uma manifestação social, e ao tratá-la como um produto, seu sentido muitas vezes se perde. Cria-se filtros, ditam-se tendências, e assim, viu-se a mídia como uma importante ferramenta de controle da sociedade por meio da opinião, da monopolização do comportamento e senso comum.

A internet é um meio de comunicação que não precisa de formalismos para se estabelecer a comunicação. Não precisa de alvará de funcionamento como jornais e editoras, não requer concessão pública como as TV’s e rádios. É própria do ideal de Glauber Rocha: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, expressão essa que pode ser modernizada, como “um dispositivo na mão, capaz de espalhar ideias guardadas em nossas cabeças para um mundo conectado”. E esse modelo livre é uma ameaça ao modelo antigo do “produto cultural”, pois é uma concorrência forte e sem controle, sem liderança, sem acumulo de riqueza, de capital.

Claro que, a pretexto de defesa de direitos de execução e difusão, estas empresas de mídia querem restringir o acesso à informação. Um exemplo é a concessão de direitos de transmissão e cobertura jornalística de eventos de interesse público, como a Copa do Mundo, Olimpíadas, Shows, e até eventos políticos. Uma visão padronizada muitas vezes é formada por filtros que buscam omitir detalhes que possam comprometer a imagem desses eventos, por exemplo. Portanto, esse valor intangível da produção cultural e humana é a criação de um produto que não deveria existir, um golpe contra a livre manifestação artística e cultural em benefício de conglomerados de mídia. Os artistas ganham migalhas de direitos autorais. São as empresas que retém a maioria dos recursos de copyright arrecadados.

Este modelo está sucumbindo, mas estes conglomerados tentam a todo custo manter-se incólumes, com o uso de lobby político. Porém observa-se que existe um movimento de contraposição a este velho modelo. Com adventos tecnológicos cada vez mais acessíveis, é possível produzir cultura de qualidade a baixo custo, e a internet é o grande motor da difusão cultural. Inclusive há casos de sucesso em que a internet se tornou um meio de propagação para as mídias tradicionais. O filme “Tropa de Elite” é um exemplo. Uma versão inacabada vazou na rede, e o filme se tornou um sucesso de público, inclusive fazendo com que sua sequência se tornasse o filme de maior bilheteria da história do Brasil. Diversos novos artistas surgiram na rede. A internet tornou-se uma possibilidade de oportunidades iguais a todos. É um campo neutro em que todos jogam em igualdade de condições. Novas formas de financiamento como o Croudfounding, e novas formas de monetização sem custos elevados e sem intermediadores, mudaram o modelo de atuação e manutenção de um novo modelo cultural, independente e promissor. Este modelo descentralizado é temerário para os grandes conglomerados de mídia, pois reduzem o poder de influência que até então acreditavam possuir. E o uso do direito autoral é a arma que estas organizações tem para limitar a manifestação artística, pois muitas destas definições de direitos são baseadas em critérios subjetivos e muitas vezes vagos, apresentadas de forma astutamente jurídica, para que em caso de dissídio, sejam sempre de julgamento favorável a tais instituições.

Garantir que a internet continue sendo um campo livre, porém com normas que garantam o respeito a todos sem nenhum efeito danoso é fundamental para um marco civil perfeito. Mesmo com o projeto pronto e aprovado, a própria natureza dinâmica da internet nos impõe um debate permanente e que deve impor atualizações a este marco civil. Esta conexão não deve cair.

Rompendo a barreira do espaço e do tempo

Eu assisti a um vídeo-clipe na internet, que me impressionou por um detalhe mais que formidável: mesmo este clipe sido produzido em 2013, a aparência é que este clipe foi filmado no fim dos anos 70, começo dos anos 80. O clipe a que me refiro é a da música de Bruno Mars, entitulada Treasure.

O trabalho tão bem feito e detalhado da produção do vídeo para que se parecesse antigo: cenários, formato de tela, efeitos visuais (Chroma key e imagens geradas por computador), captura em Video-tape, figurinos. De fato, uma forma de romper com o espaço e o tempo, de modo a fazer crer que Bruno Mars, numa viagem temporal, saltou de 2014 para 1980, ou o contrário.

Romper a barreira do espaço e do tempo não é um privilégio apenas da arte. As ciências humanas e exatas fazem-se uso de baixas tecnologias, ou de antigos métodos para atingir seus objetivos. Tanto para o bem, como, infelizmente, para o mal.

Um exemplo interessante de uso de baixas tecnologias foi a primavera árabe. Foi proibido o acesso a internet para que o movimento se desarticulasse, porém os jovens árabes passaram a se comunicar via SMS, o torpedo.

Um mal que vemos no rompimento da barreira do espaço e do tempo, são os teóricos fundamentalistas conservadores. Coloco nesse balaio, alguns exagerados de esquerda e direita, religiosos, e outros, que acreditam tolamente em suas teorias, estáticas por seus paradigmas, e que acreditam que a sociedade precisa voltar no tempo para seguir seu rumo.

Um exemplo desse rompimento do tempo para o mal, é a sequência de notícias de pessoas, organizadas ou não, para fazer justiça com as próprias mãos. Essa prática data dos tempos antigos, pré-cristãos, e mostra claramente que se essa prática ainda é cogitada, é porque não ensinamos nosso povo suficientemente a prática consolidada da cidadania. Ser cidadão não é fazer o papel do Estado, e sim, acioná-lo, quando preciso.

Podemos reviver boas práticas, que talvez nunca tivéssemos tido, como a convivência familiar, o respeito ao próximo, a defesa de nossos interesses cidadãos, a participação política, o interesse permanente no auto-desenvolvimento pessoal, e por fim, a busca da felicidade. São rompendo essas barreiras que fazemos como o artista: revivemos o bom do passado, para construirmos um bom futuro.

O momento propício

Este é o momento propício para o gigante acordar de novo.

Todos os governantes de estados e da união estão apreensivos, afinal, este é um ano eleitoral. Também é um ano curto, com carnaval em março e um mês de Copa do Mundo em junho, o que irá parar o Brasil inteiro.

Saiba que os impostos aumentaram. Em diversas cidades o reajuste do IPTU foi muito acima da inflação. Também os juros aumentaram por conta do aumento da taxa Selic. Também houve reajuste de tarifas de ônibus, além do aumento da gasolina em Dezembro.

Bolsonaro, o maior fascista do país, quer ser, pasmem, presidente da comissão de Direitos Humanos. Seria como dar a chave do galinheiro à uma raposa muito astuta.

A molecada da periferia quer fazer o rolezinho, mas os olhos tortos de uma sociedade elitista de shopping não deixa. Acha que é um bando de baderneiros que querem fazer arrastão, vê se pode?

Pois é, amigos, o exemplo vem de baixo, ou melhor, do Sul. O Uruguai aprovou o Casamento Gay, legalizou a Maconha e vive em paz, e enquanto isso, pastor deputado e ex-gay (vê se pode) quer processar a Rede Globo, pois mostrou dois homens se beijando, na novela. Mas mulher pelada no carnaval, MMA, Rachel Sherazade, Cidade Alerta e Brasil Urgente pode passar na TV numa boa, né?

Pode propaganda subliminar? No mundo inteiro não pode, mas no Brasil pode, acredita? O CONAR é uma propaganda enganosa. O SBT tem o comercial mais rápido do mundo, em uma inserção de frações de segundo para anunciar os frasquinhos de perfume Jequiti. Ninguém faz nada.

E o nosso metrô paulista? Lotado, enguiçado, e o nosso governador Adolfo Alckmin fala que está tudo bem e que a última pane foi vandalismo. Duvido que esse calhorda se atreva a pegar o metrô as seis e meia da manhã para ver como o metrô está bem LOTADO! São Paulo é um estado que tem o Lucas Silva e Silva governando, um cara no mundo da lua!

E por falar em copa, padrão FIFA só nos estádios, né? Um pouco de bom-senso falta não apenas ao futebol (Paulo André que o diga), mas ao país inteiro. Arrumaram a sala de visitas, mas o resto da casa continua igual: imunda e bagunçada.

E aí torcida brasileira? Vai continuar deixando ser representados pelos bandidos de Oruro, pela Homofobia verde, pela batalha campal nas arquibancadas, pelas brigas de torcidas combinadas, pela invasão do CT? Chega de permitir que idiotas acabem com a diversão que todas as tardes de domingo nos levou a sermos os melhores do mundo. Os “Hoologans Falsificados” precisam ser confiscados pela justiça e ser impedidos de entrar em um local que não se destina a ser uma praça de guerra, e sim, um local a contemplar o futebol-arte.

Olhou o seu salário, e o preço da comida? Já foi humilhado pelo seu chefe, pelo seu professor? Já foi assaltado? Já teve noite em que não conseguiu dormir por causa de barulho na rua? Está de saco cheio das idiotices que passam na TV? Cansado das injustiças e aborrecimentos que o rodeiam?

Não faça justiça com as próprias mãos, como a Rachel Sherazade. Faça como a Staroup: Proteste!!!

E não se esqueça de votar direito. Não faça na urna o que você faz no banheiro.

Reflexões (indagativas)

Por que será que para que uns poucos triunfem precisa haver tantos aniquilados?

Por que precisa fazer outrém sofrer, para sorrir?

Por quê precisa ter tantos prejudicados para que exista poucos beneficiados?

Por que nos incomoda a diferença, o triunfo alheio, aquilo que, mesmo tendo de sobra, não gostamos de ver nos outros?

Por que queremos esconder nossas fraquezas, e inventar virtudes que em nós não existem?

Por que precisamos ser padronizadamente perfeitos?

Por que nossas diferenças são consideradas defeituosas?

Por que somos proibidos de chorar?

Por que somos proibidos de falar o que pensamos, e por que nossas opiniões nunca são ouvidas com complacência?

Por que vivemos com medo?

Por que mais vale ter do que ser?

Por que faltar com caráter é uma alternativa a ser considerada?

Por que poder é uma obsessão?

Por que entender nossas crenças por leis estáticas e imutáveis?

Por que se defender com ódio e preconceito?

Por que tratar ideologia como briga de torcida, torcida como batalha mortal, e batalha como algo banal?

Por que meu sexo, minha mentalidade, minha opinião, meu gosto, minha atitude e minha ideologia precisam estar presas a paradigmas para serem aceitos?

Por que estou sempre errado?

Por que estou escrevendo isso?

POR QUÊ?

Acorrentado

Pensei que fosse mentira a história do adolescente preso a um poste por uma corrente no Rio de Janeiro. Realmente é inverossímil após conhecer a história inteira e saber que sim, um menor de idade foi agredido, despido e acorrentado a um poste de luz no Flamengo.
Mais incrível é imaginar o que passa na cabeça de cerca de trinta jovens fortes, em motos, para agredir gratuitamente menores de rua.
Difícil mesmo é crer que haja gente que dê razão para esses jovens agredirem menores e acorrentá-los, mesmo que indiretamente por meio das fascistas falas dos apresentadores de telejornais de porta de cadeia.
Me deixa incrédulo saber que os autores dessa atrocidade são brasileiros, que são tidos como pessoas alegres, hospitaleiras e pacíficas.

Olho ao redor, penso, e caio na real. É incrível, absurdo, mas é verdade, o vazio que nos rodeia, a ponto de achar banal.

Agora sinto o pouco da dor que esse menino sentiu. Agora percebo que a cada golpe por ele sofrido, aumenta o desencanto e com ele a necessidade de mudarmos de postura. Temos que acabar com esse mal chamado indiferença. Temos que deixar de achar o mal normal.

E para isso, o medo não deve prevalecer.

Um “rolê” de verdade

Em meio às polêmicas envolvendo os rolezinhos, quero levar à reflexão, como sempre fiz neste blog, sobre a juventude brasileira, e sobre a realidade que nos cercamos.

Eu tenho 32 anos, e o que mais me impressionava na minha infância era a qualidade dos anúncios da propaganda brasileira: comerciais bem acabados, anúncios com belas imagens e textos irresistíveis, jingles que não saíam de nossas cabeças. Mas vivíamos em um momento de crise nos anos 80. A inflação era galopante, empresas quebravam e demitiam em massa, a miséria era visível em todos os lados, o salário era super-baixo, não tínhamos acesso ao consumo, e nós consumíamos na maioria das vezes somente as imagens dos comerciais, e quando comprávamos um produto que era anunciado pela mídia, era para nós uma vitória.

Veio 1994. O plano real deu cabo a mais de uma década de tentativas frustradas de estabilidade econômica. As portas do consumo estavam finalmente abertas para muitos de nós, podíamos ostentar alguns luxos, como televisores, aparelhos de som, telefones celulares, e a oferta de trabalho passou a ser farta. A economia brasileira, apesar de alguns percaustos soprava vigorosamente.

Veio a década de 2000 e os 8 anos de governo Lula deram ao país um status de potência econômica. Enfim a promessa de que o Brasil seria o país do futuro que há tantas décadas se dizia, parecia se concretizar. A nova classe média crescia, pessoas saíam da linha da extrema pobreza e passaram a consumir. O mercado de consumo ficou aquecido, mas alguns resquícios do passado ainda sombreavam nossa realidade.

Lembra dos comerciais que citei no começo deste texto? Com um modelo educacional fragilizado, a mídia fez o papel da escola, e acabou por lançar as pessoas ao consumismo. Novelas, filmes, seriados, comerciais, programas de TV e rádio, nos ‘ensinaram’ que para que você possa ter status, respeito e admiração das pessoas, era preciso que você tenha posses: carro, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, etc.

Esta “indução midiática ao consumo”, continuou nas décadas de 90 e 2000 e até hoje isso existe. Lembro de várias modinhas desde os anos 80, como calças US-TOP, tênis Bamba, camisetas Flamel, bermudas de surfista, calças capri e saruel, camisetas gola “V”, e roupas e artigos de marcas como HD, Oakley, Benetton, Hollyster, etc.

O rolezinho é um subproduto, tido como indesejável por pessoas que se consideram da classe dominante, de uma sociedade condicionada ao consumo, mas é, assim como outros movimentos, uma ação de contra-cultura jovem. A nossa juventude é influenciada por muitos modelos, os quais ele capta e interpreta por meio de ações. O rolezinho é uma dessas ações, e precisa ser visto, não como um movimento marginal, mas sim como uma questão a ser refletida de que até que ponto estamos condicionando as pessoas a serem consumistas.

Vemos que todo o processo de formação social e educacional no país é deficiente. Democratizar a mídia seria uma forma de combater em parte a mídia consumista que vemos. Regular a publicidade voltada para crianças além de promover melhorias qualitativas na educação básica, também são importantes ações afirmativas para corrigir a rota. Devemos entender esse movimento, além de conhecer e respeitar, mas mostrar ao jovem outros rolês, novas formas de expressão cultural e social, e combater o consumismo por meio de campanhas, podem ajudar a mostrar ao jovem que hoje está sem norte, uma referência.

Façamos então um grande rolê, não em shoppings, os templos do consumo, mas sim em todos os outros lugares, onde podemos enriquecer nossas mentes, ostentar nossos valores e nos aceitar como realmente somos.