Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Divagações sobre o amor

O ato de amar é ver a nós mesmos em outro, de forma a este outro se tornar parte de si mesmo. É a auto-perceção no próximo, espelhada na alma e no sentimento. Quando esse amor é correspondido, deixam de existir dois seres, estes passam a coexistir como um todo formado por duas partes complementares. Quando é platônico, apenas um dos seres tenta, em vão, complementar o outro até que este amor termina, ou se torna uma obsessão patológica. Esta obsessão é um sentimento ilusório que aquele o qual sente acredita ser amor, mas não é.
Assim, de uma forma ou de outra, nos iludimos. O amor é tão abstrato que se confunde com possessão, atração, carência, afeição, pena… Deixa de ser complementar e se torna repulsivo, violento. Deixa de ser algo que complementa, para ser ponto de conflito, em que uma das partes busca abstrair da outra os empecilhos que os impedem de, harmoniosamente, se combinar.
A ilusão é inerente ao homem. Pois é o erro de sua perceção movido por seus preconceitos sentimentais e racionais. Por isso devemos aprender com os erros e as ilusões, pois corrigem nossos conceitos. E estes conceitos são conclusões transitórias, pois mudam no tempo, no espaço e no indivíduo. Aprendendo a conviver com os conceitos, desenvolvemos nossos valores que alimentam nosso caráter, e este compilado que é entendido e defendido por nós, pois devemos crer em nossos valores, designam nossa auto-estima.
Como a auto-estima é a crença nos valores que formam nosso caráter, e estes valores se formam para nós através de conceitos que, por sua vez, são obtidos por meio da experiência da interação com outros seres, podemos afirmar que o homem só é completo quando tem o amor.
E este amor é algo que vem do âmago do ser vivente, quando este entende a si mesmo e se identifica em outro ser.

Onde estou?

Meu primeiro grande amor nem sei onde está, se escafedeu, se foi, sumiu, nunca mais vi. Foi meu primeiro beijo, minha primeira transa, estava aprendendo a amar, mesmo que de forma estranha e inconstante, com idas e vindas, tapas e beijos.

Depois vivi um amor adolescente, com beijos agudos e mão boba. Mas era relação de intesesse, pois queria minhas posses em vez de meu carinho. Foi-se mentiras, provocações e uma sentença: acaba aqui. Cada um pro seu canto, cada um pra sua vida.

Outro amor veio, mas repentinamente se foi, arrumou um novo amor, viaja pelo mundo, vive feliz em festas e mais viagens, passou rápido como o tempo, e foi marcante como uma boa lembrança.

Novo amor surgiu, me impressionou por sua avidez, e por me amar demais. Me senti sufocado, porém retribuía aquele amor. Mas o cansaço de rotinas de final de semana veio a corroer aquele amor com xingamentos de parte a parte e feridas abertas, até que este amor se foi, nem deu notícias, se findou.

Uma tarde apenas foi o suficiente para um amor que parecia se corresponder, se despedaçar em mil pedaços ao longo do tempo. Gosto da sua amizade, não do seu amor, foi a declaração mais dura que ouvi de alguém que ama em segredo. Todas as minhas investidas foram inúteis. Todas aquelas declarações de que eu iria mudar só para ter esse amor foram em vão. Hoje é uma outra pessoa, mudou demais, até de vida. E eu fiquei parado, esperando, em vão.

O coração voltara a pulsar. Um novo amor de repente, algo explosivo e intenso, mas que acabou como fogo de palha. De ligações ao telefone horas a fio, foi-se um tempo depois sumiu, nem deu notícias, deve ter desistido de alguém tão distante como eu fui. Eu devo ser muito tonto de plantar um amor e não regar, não cultivar com afeto. O amor é uma flor tão frágil, que logo morre ao primeiro sinal de abandono.

Hoje namoro a distância. Bits e bytes de palavras doces viajam no espaço cibernético, e desejo ardentemente que floresça, que algo aconteça para que meu coração de ternura se aqueça em uma viagem alucinante chamada amor. O medo de ficar só me apavora e eu me desespero… Uma voz feminina canta uma canção e fico pensando se estou amando mais uma vez, em vão.

Não sei o que sinto, não sei o que faço. Estou sozinho, em meu quarto, em um incompreensível e contido lamento. Estou zonzo, me pergunto: “Onde estou?”