Até quando, liberdade?

Era um domingo de sol, não tão calorento quanto nos verões, porque estamos no outono, mas era um domingo agradável, com sol bonito e caloroso. Eu precisava sair para respirar um ar fresco. Até porque o ar confinado, mesmo que seja só o seu, costuma ser tóxico e ficar enfurnado em casa não é saudável nem para o corpo, nem para a mente. Minha cabeça estava a mil, mil pensamentos, mil coisas a fazer, sonhos estranhos, muita raiva acumulada. Talvez uma visão mais ama do céu fosse ajudar. Calcei um tênis, pus minha máscara e fui.

Tentei correr, mas as pernas não suportaram o primeiro quilômetro. Encerrei a corrida e fui caminhar. Minhas caminhadas são longas, no mínimo de uma hora, e durante a caminhada procuro não pensar em muita coisa, bastando observar o movimento: as crianças brincando, homens e mulheres com seus cachorros, algumas outras, como eu, fazendo algum exercício. A minha caminhada costuma ser feita em uma praça um pouco distante, não apenas por ser tranquila, mas por ser um estranho alí, dificilmente seria incomodado.

Voltei e fui pra uma praça mais próxima de casa. E aí olhar para o céu, azul, vi uma batalha de pipas, que se degladiavam, comandadas por crianças, adolescentes, jovens e alguns adultos, quase todos homens. A disputa era acirrada, grupos empinavam pipas, tentando com linha cortante, derrubar do céu outros pipas. Quando um pipa era derrubado, ouve-se gritos de ‘mandado’ e há uma correria de crianças e jovens para apanhar o pipa que caía do céu.

É uma cena surreal em plena pandemia, mas é uma cena real. Crianças e jovens não vinham sendo afetados pela doença do COVID. Tanto que a quantidade de crianças e jovens usando máscara era muito pequena. Eu era um dos poucos mascarados em dezenas de pessoas na praça.

É um momento de crença e descrença. Onde escolhemos o que é a verdade como quem muda um canal de TV. O doloroso é saber, que para muitos desses, que agarram falsas verdades, a verdadeira verdade irá lhe impor uma dolorosa lição. E a verdade somente triunfará quando todos acreditarem nela.

É como diz na bíblia: Conheça a verdade e ela vai te libertar. Somente iremos alcançar a verdadeira liberdade quando os mentirosos perderem todo seu poder. A liberdade será a pomba branca que irá nos avisar que a verdade venceu. Até quando, liberdade? Até quando iremos te esperar? Ainda tenho esperança.

Não faça a cama na varanda

Essa situação toda de pandemia me fez lembrar um trecho de uma música do pai do rock brasileiro, Raul Seixas, que dizia:

Enquanto todos fraquejavam contra o frio

Eu fiz a cama na varanda

Raul Seixas

Eu me lembrei dessa música pois todo final de semana eu vejo festa e aglomeração nas ruas do meu bairro. Agora de noite eu estou ouvindo música alta, e pessoas cantando, como se não existisse nenhuma pandemia, como se não tivesse morrido nesse país mais de 350 mil pessoas por conta da covid-19.

Sem referências a memes, eu não gostaria que essa festa virasse um enterro. Mas as pessoas parecem fazer de tudo para que isso aconteça. Ao passar pela rua, por conta de algumas necessidades que tenho que fazer, como comprar alimentos, ou mesmo fazer uma caminhada para manter o corpo em movimento, eu vejo pessoas ou sem máscara, ou usando no queixo ou com o nariz de fora ou segurando na mão em vez de no rosto.

Comecei a pensar: tento manter a minha lucidez, mas a vontade de me desesperar é enorme. Tal como no filme de terror que a gente sabe muito bem que o personagem não deveria ir por aquele caminho e vai, nós vemos dezenas milhares milhões de brasileiros marchando para uma roleta russa que pode ser extremamente dolorosa.

No meu bairro tem um jovem rapaz que está na UTI. Covid. Respirando por aparelhos. Pode demorar para se recuperar, ou ter sequelas que podem inclusive impossibilitar de trabalhar, de estudar, de ter uma vida normal.

Me preocupo muito com a situação de muitas pessoas. Porque elas precisam trabalhar e sair de suas casas para trazer o sustento para suas famílias. Essas pessoas não possuem outras alternativas, não podem ficar em isolamento social, não podem trabalhar em home Office, não podem aderir a um Lockdown. Não possuem nenhum tipo de suporte, como uma renda mínima, uma bolsa aluguel, uma cesta básica. Do contrário, entraram para estatística de desempregados, de pessoas individados, de pessoas em situação de miséria, de pessoas com fome.

Muitas dessas pessoas descobriram, às duras penas, que o Messias não existe, e o que se apresenta como Messias, quer apenas ser eleito em 2022.

Muitos fraquejam contra o frio, pois este é um inverno rigoroso que infelizmente vai continuar ceifando vidas. Não é hora de pôr a cama na varanda, pois é capaz de não mais acordarmos. Temos que evitar as farras, as visitas, os cultos, as aglomerações. Temos que ficar o máximo de tempo possível em casa. Temos que lutar usando a nossa voz nas redes, por um auxílio emergencial que de fato contemple as necessidades das famílias brasileiras que estão em risco neste momento. Temos que desmentir os mentirosos. Temos que combater o mal que nos avizinha. Temos que ser solidários, que apesar da carestia, nós podemos ajudar com um pouquinho para as pessoas necessitadas. A campanha de arrecadação de alimentos e dinheiro para a distribuição de cestas básicas as pessoas que estão na mais absoluta miséria. Procure saber sobre essas campanhas, e participe. E por fim, tenhamos mais empatia e consciência. Pois tudo que nós fizermos nesta pandemia não será apenas por nós mesmos, e sim por todos.

A humanidade nunca foi provada dessa forma. Há quem diga que seria esta a nova era de aquário. Uma era de consciência e de construção de uma nova sociedade. Sabemos que nossa cultura e valores eram baseados em conceitos que se desvaneceram. E que já está na hora de novos conceitos assumirem seu lugar. A pandemia nunca nos forçou há termos que aprender tão rápido para que nós possamos sobreviver, seja de corpo, mente ou espírito. E a esse aprendizado que devemos tomar para nós, pois nessa pandemia, a humanidade só se salvar, se de fato se unir.

O babaca do ano

Está chegando ao fim o famigerado ano de 2020. O ano em que muitos de nós, seres viventes homo sapiens deste planeta Terra, não guardamos em nossas lembranças com muito carinho. Um ano em que fomos rasgados por uma pandemia, que adiou planos, que destruiu famílias, que trouxe dor, medo e incerteza.

E todo final de ano nós reunimos os cacos para saber o que é o joio e o que é o trigo nessa imensa balbúrdia. E simbolicamente destacamos e enaltecemos o que foi bom e o que foi ruim no decorrer desses 366 longos dias de 2020. Sim, amigos, este foi um ano bissexto, um dia a mais de um ano que se tornou torturante a partir de março.

Então é hora de prestarmos as nossas homenagens e para um ano tão estranho para os “padrões normais”, que instituimos a excêntrica honraria de eleger o babaca do ano.

Não faltaram concorrentes, porém nós temos que puxar o fio da meada pois os personagens, que figuram nas mídias e redes, mais babacas e infames de sempre, fizeram de tudo para conquistar tal honraria este ano, porém já são al concours. São pessoas que com a sua opinião fétida, seu discurso tóxico e suas ações absurdas tornaram esse ano ainda mais difícil para grande maioria desses seres humanos. mas esses personagens folclóricos do que há de mais perverso no âmago da humanidade não existiriam se não houvesse quem batesse palma para esses loucos dançarem.

Por essa razão tal honraria não pode ser oferecida a uma liderança dessa insana idiotice. Esse líder só existe porque há alguém que acredite nele. Por isso o prêmio de babaca do ano vai para você.

Você que não suporta o que é diferente, que não aceita o mundo com mais cores, com mais amores, com mais diversidade. Você que se agarra mais a crença do que aos fatos. Você que dá carteirada, que pergunta “sabe com quem está falando?”, O que usa seu poder para humilhar os outros, e que abdica do seu poder para se safar. Você que prefere filmar com o celular a tragédia do que tomar partido dela. Você que deseja fazer justiça com as próprias mãos, por acreditar que a sua “justiça” é mais justa do que a justiça das leis e dos homens. Você que não admite o erro, a falha, o defeito e some como se nada fosse contigo. Você que desconfia apenas por desconfiar, que olha o preto como animal, a mulher como lixo e o LGBT como piada. Você que vive pondo a culpa nos outros. Você quer um filho que foge à luta. Você que quer medir os outros usando a sua régua. Você que acha que o outro tem que morrer. Que todos têm que ser iguais a você. Que farinha pouca é meu pirão primeiro. Que tem que levar vantagem em tudo. Que segue a cartilha do ódio, usando a falsa e hipócrita fé como álibi.

Aqueles trastes que tanto tu críticas na verdade espelham daquilo que tu és. Se hoje nós vivemos envoltos a tamanha idiotice e insanidade, é porque muitos de nós procuramos nos espelhar naquilo que há de mais torpe e cruel, quando deveríamos nos espelhar naquilo que nos engrandece e nos torna humildes.

Todos nós assim acabamos por ser babacas. De um jeito ou de outro, pois olhamos cada vez mais para nós mesmos e esquecemos que existe uma palavra que precisamos praticar todos os dias para vivermos melhor com os outros: a empatia.

Rejeite o título de babaca do ano, mas dizer não, não basta. Precisamos repensar as nossas atitudes. Precisamos nos por no lugar do outro. Precisamos ser melhores sempre. Para que o prêmio de babaca do ano deixe de fazer sentido.

Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Sozinhos não estamos

Eu hoje em minhas andanças, no vagão do metrô, uma senhora que estava à minha frente elogiou a minha camiseta. Estava estampada uma charge da personagem Mafalda de Quino. Nela estava escrito “Sim às democracia! Sim à justiça! Sim à liberdade! Sim à vida!” Ela elogiou minha coragem por conta do momento tão nebuloso que atravessamos. E se emocionou. Também fiquei comovido, não apenas com a nossa conversa, mas porque por tudo o que passamos e tememos, vemos que não estamos sozinhos.

Ela me falou sobre um movimento de meditação em busca da paz. Precisamos de paz e também de coragem para continuarmos resistindo ao mal que sufoca a razão e a solidariedade que deveríamos ter.

Nesses oásis de humanidade em um deserto de ódio. Só o fato de não estarmos sozinhos nos fortalece. E nos traz um pouco de alento.

Sozinhos não estamos.

Fitas verde-amarelas

Ao voltar pra casa, me deparei com as ruas ainda enfeitadas de fitinhas verde-amarelas, mesmo após a triste despedida de nossa seleção brasileira desta copa do mundo.Os céticos ficariam perguntando qual a razão de tamanha perda de tempo e de recursos, sabendo que a chance de uma glória brasileira na copa do mundo é de cerca de 1/32 ou cerca de 3%, e que, psicologicamente tende a se esvair a cada fase, dada a dificuldade, ao contrário do que o avanço a cada fase se traduz, em termos matemáticos.Talvez estes céticos não entendem o poder que a esperança e a ilusão nos oferecem, em termos presentes e também futuros. Mesmo jogando com o aleatório e o incerto, ao nos iludir, vemos uma realidade mais próxima do que somos e do que desejamos para nós. Vemos o mundo sob outro prisma, mais colorido e entusiasmado, com mais vigor, com mais luz. E isso é contagiante. Parece estranho, mas aplicamos essa mesma visão esperançosa a nossos atos, acordamos mais dispostos, impomos a nossas ações a mesma energia a qual acreditamos e depositamos nossa torcida.Ao fantasiarmos nossa realidade, a testamos, e assim testamos nossos limites, testamos nossas possibilidades e, assim, evoluímos. O que seria do espetacular, se não imaginarmos o impossível?E até mesmo no desatino da derrota, a ilusão, sob a forma de desilusão, se faz presente, como forma de entendermos que vivemos em um universo com limites, e que estes nos balizam. A decepção do imponderável, pode se tornar a pedra angular da mudança, quando visto com olhos sábios.Sei que amanhã ou depois, as fitinhas não mais estarão nas ruas. Que as bandeiras do Brasil não mais irão enfeitar as janelas e varandas. Mas deste dia, eu vou continuar lembrando.Pois mesmo depois da noite triste, sempre haverá um amanhecer.

Marielle e Madalena

Uma notícia me pungiu de dor. Marielle foi morta. Uma mulher de fibra, de favela, do povo do Rio, uma lutadora guerreira. Isso me lembrou de Madalena.

Madalena, foi acusada de adultério. Estava prestes a ser condenada, mas um profeta de Nazaré, mostrou a aqueles que a perseguiam que todos somos iguais em virtudes em defeitos. E que o ódio os condenavam. Isso me relembrou Marielle.

Marielle ousou defender o povo humilde, criticou a intervenção de segurança do estado do Rio, denunciou a violência policial, foi a antítese do senso comum do povo da periferia e da favela: formada na universidade, não se dobrou ao crime organizado, nem se contentou em ser lacaia de uma sociedade brasileira patriarcal, elitista e excludente. Isso me fez lembrar novamente de Madalena.

Madalena teve sua história amputada pelo cristianismo. Sua história não se resumiu a apenas um episódio. Há evangelhos apócrifos que descrevem Madalena como apóstola. Uma liderança feminina e lutadora que não seria admitida em um universo em que o homem sempre foi líder. Isso me lembrou Marielle.

Pois querem covardemente amputar sua história, com omissões e mentiras. Omitem que ela tem uma companheira, e que é militante feminista e LGBT. E mentem quando dizem que ela tinha relação com o tráfico, que foi eleita pelo comando vermelho, que foi mãe adolescente.

As pedras de ódio que não atingiram Madalena foram os tiros que atingiram e mataram Marielle.

O ódio e a insanidade são as regras invisíveis que regem nossa sociedade. Atos covardes praticados de humanos contra humanos por egoísmo, vaidade e insensatez.

Madalena representava tudo que naquela época, era a mudança necessária que rejeitavam.

Marielle representa tudo o que hoje precisamos mudar para que possamos nos ver como iguais.

Poderíamos ser todos Madalenas e não fomos. A história nos deu outra oportunidade. Sejamos todas as pessoas Marielles.

Marielle vive!

Marielle, presente!

Rompendo a barreira do espaço e do tempo

Eu assisti a um vídeo-clipe na internet, que me impressionou por um detalhe mais que formidável: mesmo este clipe sido produzido em 2013, a aparência é que este clipe foi filmado no fim dos anos 70, começo dos anos 80. O clipe a que me refiro é a da música de Bruno Mars, entitulada Treasure.

O trabalho tão bem feito e detalhado da produção do vídeo para que se parecesse antigo: cenários, formato de tela, efeitos visuais (Chroma key e imagens geradas por computador), captura em Video-tape, figurinos. De fato, uma forma de romper com o espaço e o tempo, de modo a fazer crer que Bruno Mars, numa viagem temporal, saltou de 2014 para 1980, ou o contrário.

Romper a barreira do espaço e do tempo não é um privilégio apenas da arte. As ciências humanas e exatas fazem-se uso de baixas tecnologias, ou de antigos métodos para atingir seus objetivos. Tanto para o bem, como, infelizmente, para o mal.

Um exemplo interessante de uso de baixas tecnologias foi a primavera árabe. Foi proibido o acesso a internet para que o movimento se desarticulasse, porém os jovens árabes passaram a se comunicar via SMS, o torpedo.

Um mal que vemos no rompimento da barreira do espaço e do tempo, são os teóricos fundamentalistas conservadores. Coloco nesse balaio, alguns exagerados de esquerda e direita, religiosos, e outros, que acreditam tolamente em suas teorias, estáticas por seus paradigmas, e que acreditam que a sociedade precisa voltar no tempo para seguir seu rumo.

Um exemplo desse rompimento do tempo para o mal, é a sequência de notícias de pessoas, organizadas ou não, para fazer justiça com as próprias mãos. Essa prática data dos tempos antigos, pré-cristãos, e mostra claramente que se essa prática ainda é cogitada, é porque não ensinamos nosso povo suficientemente a prática consolidada da cidadania. Ser cidadão não é fazer o papel do Estado, e sim, acioná-lo, quando preciso.

Podemos reviver boas práticas, que talvez nunca tivéssemos tido, como a convivência familiar, o respeito ao próximo, a defesa de nossos interesses cidadãos, a participação política, o interesse permanente no auto-desenvolvimento pessoal, e por fim, a busca da felicidade. São rompendo essas barreiras que fazemos como o artista: revivemos o bom do passado, para construirmos um bom futuro.

Na parada: política, cultura e economia

Nesta parte, a última, vou por em discussão os aspectos políticos, econômicos e culturais no meio GLBTT.

Hoje o movimento GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros) está em evidência. Seja na música, teatro, teledramaturgia, cinema, televisão e política, a temática da homossexualidade deixou de ser um tabu e tornou-se um assunto em frequente discussão no Brasil. O assunto é polêmico e gera opiniões contra e a favor da homossexualidade, sendo que os grupos mais conservadores rejeitam, e os mais liberais defendem. Porém estamos diante de um debate mais franco e de uma abertura maior baseada na ética a qual a comunidade GLBTT deve se organizar de modo a não perder essa oportunidade de tornar o Brasil um país mais liberal e respeitador da diversidade sexual.

Aqui cabe uma auto-critica ao movimento GLBTT. Observa-se muito o caráter da festa da parada e dos seus dividendos econômicos, porém não procuram verter a parada em dividendos sociais, éticos e sobretudo políticos. É sabido de todos que pelo fato de um homossexual ter um grau de rejeição familiar alto, a maioria deles se tornam independentes economicamente de forma precoce. Por consequência, e também pelo fato de não constituírem famílias com dependentes incapazes, a probabilidade de um homossexual ter um poder aquisitivo maior é muito maior do que um heterossexual de mesma idade. Geralmente possuem uma escolaridade melhor e ganham mais, o que se reflete no público da parada ter uma média de gastos até 30% maior do que turistas heterossexuais, segundo a Associação Comercial de São Paulo. É tido como um nicho de mercado importante  e rentável e que não pode ser ignorado. Com efeito, essa independência e individualidade precoce se tornam empecilhos para que o movimento GLBTT se fortaleça e se organize para que pleiteie seus direitos de forma mais incisiva.

Vemos figuras homossexuais de destaque em todos os meios, porém alguns não se identificam e rejeitam a sua orientação sexual publicamente por acreditarem equivocadamente que orientação sexual e masculinidade são intimamente relacionados, ou ainda, que a orientação sexual seria um empecilho para que alguém realize uma atividade qualquer, como praticar esportes, realizar esforços físicos ou trabalhar de forma pesada.  Não há nenhum estudo que comprove que um homossexual esteja inapto a realizar qualquer atividade, assim como não exista nenhum estudo que inabilite uma mulher a realizar qualquer atividade. Ou seja, qualquer pessoa, não importando sua orientação sexual, tem o direito viver normalmente, e desempenhar qualquer atividade, pois a orientação sexual não desqualifica nenhum indivíduo a faze-la. Uma outra questão é que se alguém defende a causa gay é tida como homossexual, o que é uma falácia mesquinha, justamente para isolar a defesa dos direitos GLBTT aos homossexuais, enfraquecendo o movimento. Não é porque está defendendo uma causa que uma pessoa está diretamente envolvida nela. Há muitas razões para que relacionamentos homoafetivos possam ser aceitos e defendidos por muitas pessoas, homossexuais ou não. O controle da natalidade, o fim da intolerância, a melhoria das políticas de saúde sexual, a redução de batalhas jurídicas por espólio de homossexuais falecidos, o combate a homofobia, a promoção de novas células familiares, a aceitação do indivíduo junto a sociedade e o respeito a sua individualidade, a promoção da inclusão social e do respeito ao próximo seriam alguns dos valores que serão disseminados em nossa sociedade tornando-a mais pacífica, liberal e plural, com a adoção de direitos isonômicos aos homossexuais. O que é preciso é eliminar alguns vícios de nossa comunidade GLBTT como o estereótipo sexualizado que foi pinchado em muitos de nós. Precisamos combater também a auto-homofobia. É preciso que as pessoas possam se assumir sem medo de represálias, pois mais importante do que a aparência social é a auto-estima, e reprimir ou ocultar sua orientação sexual é danoso a sua própria personalidade e saúde mental.

Nossa sociedade também precisa execrar os estereótipos. As pessoas precisam entender que não existem profissões ou atividades gays ou héteros, que existem é pessoas, gays ou héteros, e que a atividade que exercem não tem nenhuma relação com a sua orientação sexual.

A mídia precisa parar com o terrorismo homofóbico na teledramaturgia e jornalismo. Infelizmente a maior emissora de televisão do país insiste em bombardear as mentes das pessoas com um discurso que coloca o homossexual como chacota. Há um seriado chamado “Macho Men” em que um homossexual se torna hétero após uma pancada na cabeça, e também uma cena da novela “Morde e Assopra” em que o personagem gay tem uma noite de sexo com uma mulher. Ninguém muda de orientação sexual de uma hora para outra, num passe de mágica. É possível que uma pessoa gay tenha uma experiência sexual com uma pessoa do sexo oposto, da mesma forma que uma pessoa heterossexual tenha uma experiência homossexual, como ocorre na adolescência de muitos jovens. Mas a insinuação da Rede Globo é sórdida. Induz o telespectador a crer que a orientação sexual é algo exclusivamente racional e voluntário de um indivíduo, mas é muito mais do que isso na realidade, gerando uma distorção dos fatos. Quando isso não ocorre, o personagem gay é estereotipado, efeminado bem distante da maioria dos homossexuais. E as lésbicas são tratadas como fetiche ainda, ou com deboche, com as personagens “Marias Sapatão”, em que são extremamente masculinizadas. Houve mudanças em alguns personagens atualmente, mostrando um lado gay mais próximo da realidade em alguns trabalhos e isto indica uma mudança de postura, mas ainda é exceção, não regra. Ainda há muito moralismo cercando a teledramaturgia da Rede Globo, sendo que cogitou-se muitas vezes cenas de beijos gay que foram até mesmo gravadas, mas cortadas pouco antes da exibição das novelas.

A política é um dos pontos mais cruciais deste processo. A eleição do deputado Jean Wyllys, o primeiro assumidamente gay a assumir uma cadeira na câmara dos deputados é um marco, porém os evangélicos já se organizaram politicamente há muito tempo e formam uma bancada que se opõe a conquista de direitos GLBTT. A organização de um braço político supra-partidário pela causa LGBTT é o primeiro passo para o estabelecimento de diretrizes impactantes que defendam essa causa. A organização deve partir da conscientização do gay, da lésbica, bissexual, travesti ou transgênero da importância em votar em representantes que atendam a suas reinvindicações. O fortalecimento das entidades de defesa GLBTT é também crucial, com uma participação mais ativa dentro do poder público para apurar e denunciar a homofobia em todos os aspectos de nossa sociedade. Somente um estado livre se forma, quando todos os cidadãos atuam de forma ostensiva em todos os movimentos sociais. Também é importante que a sociedade GLBTT fortaleça estas entidades participando ativamente de suas atividades.

A Drag Queen Tchaka disse na marcha anti-homofobia, ocorrida em São Paulo em abril que  “o gay é o sal, que tempera e dá aquele gostinho bom ao mundo” e é com orgulho que vamos levantar a bandeira do arco-íris, não apenas para mostrar as suas cores, mas para temperar a Terra com amor, respeito e humanidade.