Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Arma

A arma estará na mão do motorista. Que fechou o seu carro na grande avenida.

A arma vai estar na cintura do homem. Que assedia a mulher na festa, mulher que pode ser sua amiga, sua filha, sua namorada, sua esposa.

A arma pode estar na casa do homem de bem. Cujo filho sofreu bullying na escola. Cuja filha está deprimida. Ou do desesperado porque perdeu o emprego. E também estará em casa quando o bandido do mal for rouba-la.

A arma pode estar no porta-luvas. Do carro do homem que não admite o fim do relacionamento.

A arma pode estar na fazenda. Improdutiva, cujo fazendeiro usará para se “defender” dos camponeses, que não concordam com o jeito com que o fazendeiro distrata a terra.

A arma pode estar com o grileiro. Que vai atirar em tudo o quanto for bicho vivo. Até gente. Até índio. Até satisfazer sua cobiça por terra. Que nunca acaba.

A arma vai estar com o rico. Só estará na mão do pobre honesto, quando desfalecido, para justificar o erro da abordagem policial.

A arma sempre estará na mão de quem quer impor respeito. Sempre estará na mão de quem oprime. Sempre estará na mão de quem não quer de verdade se defender. Pois nem sempre a melhor defesa é o ataque.

A arma é o poder através da violência. A arma nunca será o objeto da paz. E aquele que quer a paz, não se arma de armas, e sim de ideias, de soluções e de diálogo.

Aqueles que tolamente crêem na arma como objeto de pacificação um aviso.

Também morre quem atira.

Um papo com a consciência

– Boa noite, amigo!
– Boa noite, como está?
– Vou indo, e você?
– Pareço em paz, mas o senhor parece não estar.
– Você deve ter notado. Tudo para mim parece tão confuso…
– Eu sei disso. Sei de tudo, não precisa dizer. Afinal, somos praticamente íntimos. Penso o tempo todo, e você age, às vezes, sem me consultar.
– Você sabe que sou assim impulsivo, mas você me entende, né?
– Eu compreendo, meu caro amigo. Sou sua consciência, e mesmo você agindo eu reflito o seu ato para que, se errado, não mais o cometa. Isto faz parte do meu ofício, meu caro, e sei que orgulhas do meu trabalho.
– Eu adoro você, consciência. Mas tem momentos que não dá para viver em harmonia contigo. Veja o que me aconteceu. Eu escrevi palavras fortes e sinceras e veja o que aconteceu…
– Eu sei disso, mas é impossível em um mundo tão diverso de ideias ser unanimidade. Tu não cansas de parafrasear Nelson Rodrigues ao dizer que “Toda Unanimidade é Burra”? Não é possível agradar a gregos e troianos, meu filho! Por mais que tente ser uma “Unanimidade Inteligente”, sempre haverá alguém que que irá contesta-la por mais diversos motivos.
– Entendo, mas acho que não é pelo que dizem que fui criticado, mas pelo que sou.
– Muitos de nós temos que assumir a responsabilidade por nossas escolhas, e também pelas posições que almejamos e conquistamos. É possível que o machuquem pelo respaldo e audiência que conquistou. Mas também é possível que a leitura que você fez da realidade não é aquela que eles leem. Não podemos questionar a sabedoria ou ignorância de alguém, apenas podemos contesta-la. Pois cada um de nós adquiriu um conhecimento de algum assunto de uma forma única e pessoal e esta não pode ser questionada por quem quer que seja. Este é um dos maiores erros das pessoas: julgar os atos das pessoas sob sua visão, sem entender como essa pessoa entendeu um fato para agir dessa forma.
– Então, eu estaria errado?
– Não exatamente… Neste caso não havia como considerar certo ou errado e sim, apropriado ou inapropriado. Veja outras pessoas que leram seu texto. A maioria delas concordou com suas palavras, somente estas que não. Vejam a variedade de pessoas que aprovaram e as que rejeitaram suas palavras.
– Todas as que me rejeitaram tinham ideias comuns.
– Conclui-se que para estas pessoas, suas palavras foram inadequadas.
– Pois é. Mas me perdoe, acho que estas não leram minhas ideias da forma como deveriam.
– Mas a leram da forma como elas entenderam, de acordo com os conhecimentos que tem do mundo.
– Acho que são alienadas. Não percebem os problemas que cercam nosso país achando que é apenas luta de classes e politicagem…
– Talvez não seja. Talvez tenham conhecimento teórico e filosófico e o questionam pois o seu conhecimento é prático e empírico.
– Pode ser, mas eles não estariam errados também?
– Se estiverem fundamentados apenas em teorias, sim.
– Acho que as pessoas poderiam ser um pouco mais inteligentes, como disse o Carlos Nascimento no jornal.
– Pode ser, se não perdessem tempo com futilidades como Big Brother e Luiza no Canadá…
– E o Pinheirinho? Fico puto da vida quando milhares de pessoas defendem cães e gatos contra maus-tratos na Paulista enquanto em São José dos Campos centenas de famílias são escorraçadas como se fossem vira-latas…
– Você tem um coração bom, mas muitos dos que protestaram contra maus-tratos contra animais não sabiam o que se passava no Pinheirinho.
– Não sabiam pois a mídia se omite! Não li uma palavra boa que seja sobre o Pinheirinho. Só vi meias verdades e ataques políticos.
– Mas não seria melhor se as pessoas pudessem mostrar toda a verdade que a mídia esconde? As mídias sociais estão aqui para isso…
– Verdade! É hora de escrever sobre isso…
– Mas aqui o senhor não falou tudo?
– Talvez… Talvez…