Fitas verde-amarelas

Ao voltar pra casa, me deparei com as ruas ainda enfeitadas de fitinhas verde-amarelas, mesmo após a triste despedida de nossa seleção brasileira desta copa do mundo.Os céticos ficariam perguntando qual a razão de tamanha perda de tempo e de recursos, sabendo que a chance de uma glória brasileira na copa do mundo é de cerca de 1/32 ou cerca de 3%, e que, psicologicamente tende a se esvair a cada fase, dada a dificuldade, ao contrário do que o avanço a cada fase se traduz, em termos matemáticos.Talvez estes céticos não entendem o poder que a esperança e a ilusão nos oferecem, em termos presentes e também futuros. Mesmo jogando com o aleatório e o incerto, ao nos iludir, vemos uma realidade mais próxima do que somos e do que desejamos para nós. Vemos o mundo sob outro prisma, mais colorido e entusiasmado, com mais vigor, com mais luz. E isso é contagiante. Parece estranho, mas aplicamos essa mesma visão esperançosa a nossos atos, acordamos mais dispostos, impomos a nossas ações a mesma energia a qual acreditamos e depositamos nossa torcida.Ao fantasiarmos nossa realidade, a testamos, e assim testamos nossos limites, testamos nossas possibilidades e, assim, evoluímos. O que seria do espetacular, se não imaginarmos o impossível?E até mesmo no desatino da derrota, a ilusão, sob a forma de desilusão, se faz presente, como forma de entendermos que vivemos em um universo com limites, e que estes nos balizam. A decepção do imponderável, pode se tornar a pedra angular da mudança, quando visto com olhos sábios.Sei que amanhã ou depois, as fitinhas não mais estarão nas ruas. Que as bandeiras do Brasil não mais irão enfeitar as janelas e varandas. Mas deste dia, eu vou continuar lembrando.Pois mesmo depois da noite triste, sempre haverá um amanhecer.

10 minutos

A história é escrita pelos vencedores, não pelos vencidos, costuma-se dizer. Não seria possível então relatar o que foi a acachapante vitória alemã sobre o Brasil nesta Copa do Mundo.

Foram 10 minutos, que se estivessem sido excluídos do jogo trariam uma sensação de dor menos pungida do que representou aquele 7 a 1 para nós.

Mas ao contrário das arrebatadoras vitórias de Anderson Silva no UFC, o futebol não tem nocaute, e os golpes desferidos pelo time alemão entre os 20 e 30 minutos do fatídico primeiro tempo em que um placar de 1 a 0 virou 5 a 0, certamente teria abreviado e muito o sofrimento do torcedor brasileiro, se o tivesse.

O escrete canarinho nunca havia passado em 100 anos de história por tal queda, sequer em amistosos. Mas os vitoriosos frutos são colhidos em terras onde na derrota se plantaram as sementes do ensinamento.

Quase impossível aprender sem dor. E o legado que teremos é que não há mérito sem esforço. Não há merecimento sem sofrimento. Não há resultado sem humildade, esforço, trabalho duro, persistência e paciência.

E o time alemão tem tudo isso, tem mérito. E aprendeu com as derrotas: 2002, 2006, 2010, para enfim, ter a chance de colher o fruto que somente Brasil e Espanha alcançaram, o de ser campeão de uma copa do mundo fora de se seu continente.

10 minutos: tempo suficiente para mudar uma história de copa do mundo, de emudecer vozes, despertar olhares incrédulos, rolar lágrimas. Mas este é o ponto de vista dos vencidos, não dos vencedores. Isto não vira história, ou não?

Querido papai do céu

Querido Papai do Céu,

Minha mãe me ensinou desde pequeno a rezar antes de dormir para pedir em prece boa noite e dias mais felizes.

Sei que há muito tempo não faço isso, mas aprendi que a bondade que se oferece ao próximo sempre retorna de forma dobrada, sob a forma de bênçãos. E eu sei que toda vez que pratico o bem, a gentileza, o otimismo e a esperança estou rogando seu nome, não em palavras rezadas, mas em ações praticadas.

Amanhã é o dia de abençoar um grupo ao qual torcemos muito por eles. Sob eles, paira o descrédito, paira a torcida contra, inclusive com gritos de já ganhou, além do fato de que muito se conspira contra, quando se está em casa.

Lanço minhas esperanças aos futebolistas brasileiros, que com fé, suor, sacrifício e lágrimas chegaram até aqui nesta Copa. Não seria muito justo, um povo tão festivo chorar amanhã. Peço a ti, Papai do Céu, que os proteja, os abençoe e que os motive para vencer este grande desafio.

Pois sei que desejando o bem a eles, eles trarão a mim, e também sei que nesta prece, não estarei sozinho. Muitos de nós também rogam teu nome pedindo bênçãos a eles.

O senhor é justo e misericordioso. Fazei-os triunfar, e terás um povo feliz.

Amém.

Prova dos noves

Considero sempre o evento da Copa do Mundo como uma espécie de “prova dos noves” de otimistas e pessimistas. Ao zapear na web notícias sobre o Jogo entre Brasil e Colômbia, pelas quartas de final leio comentários deste tipo:

Da Colômbia não passa. O Brasil está muito ruim!

O Brasil não vai vencer 🏆 esta copa.

Na sexta o Brasil sai da Copa!

Em contraste com outros comentários do tipo:

O Brasil vai ser campeão! O pior já passou!

A Colômbia é mais fácil que o Chile! Vamos avançar!

Vamos vencer mais uma! Vamos ser hexa!

Esse contraste é interessante. Ao ver um copo com água até a metade, podemos dizer que este copo está meio cheio, ou meio vazio. Nossas experiências, nosso aprendizado, nosso modo de ver e entender o mundo influenciam o nosso nível de otimismo.

Há dois lados nos extremos do otimismo. Otimismo demais leva as pessoas à ilusão, descolamento da realidade e a desilusão, quando a realidade imaginada diverge da realidade real. Pessimismo demais também nos leva a ilusão e descolamento da realidade, mas o pessimismo tem uma tendência de inação e fatalismo. Assim o pessimismo nos amedronta e nos paralisa, enquanto o otimismo nos propõe ação, nos inspira.

O realismo é uma leitura neutra, que se vale de um conjunto de evidências reais para pender ao otimismo ou pessimismo. É o fiel da balança.

O ser humano tem uma fixação pelo futuro, pelo incerto, pelo desconhecido. Especular o que há por vir ainda desperta em nós interesse e curiosidade. Religiões, astrologia, misticismo, ciências, probabilidades e achismos sempre procuraram tentar suprir a lacuna eterna da humanidade em conhecer o incerto.

Por isso não existe verdade mais absoluta que possa confirmar a incerteza e a inquietude que temos diante dela.

O que tem de ser, será.

O mérito dos grandes

O mérito dos grandes é reconhecer suas fraquezas e também seus superiores pares. Não há razão para tristeza com a derrota, pois tudo o que há de torto existe para ser endireitado. O futebol me inspira muito, e nesta final de paulistão, é muito inspirador reconhecer que a derrota veio por eles serem melhores que nós. Tivemos foco, falhamos, é verdade, mas chegamos e valorizamos a glória santista, que é digna de aplausos, pois está em um esforço heroico de ser o único guerreiro brasileiro vivo na Taça Libertadores.

Ao ouvir a entrevista de Muricy, técnico vencedor, vimos claramente que o futebol é sim uma ciência exata, e requerem os parâmetros corretos, as circunstâncias dadas favoráveis para distinguir vencedores de vencidos. O fracasso corintiano na Taça Libertadores e sua derrota no Paulista, o que é um mérito, pois demonstra uma recuperação psicológica extrema de uma derrota traumática contra o Tolima, aliada a derrotas de grandes clubes brasileiros na Copa do Brasil e Libertadores, mostram que é preciso tomar alguma atitude, pois vemos o futebol brasileiro em franco declínio.

Se a gerência de nosso esporte nacional continuar intransigente, capitalista selvagem e estúpida, amargaremos um grande vexame na Copa do Mundo de 2014, não apenas fora das quatro linhas, onde vemos uma grande desorganização na condução das obras para a Copa, como dentro de campo, com um futebol dependente de alguns craques (como vimos em 2006 e 2010 em que a seleção brasileira fracassou), frente a um abismo de jogadores mal-amadurecidos que são vendidos a clubes europeus a preço de banana.

O povo brasileiro já não anseia mais ser exportador de bens primários no futebol, assim como é na economia. Os clubes de futebol têm um potencial midiático enorme, mas somente enxergam nos direitos de televisão e patrocínios os quais pedem esmola, as fontes de renda para os clubes, fora a falha condução administrativa, com estatutos pouco democráticos, leis pouco severas, permitindo a má gestão, endividamento elevado, calote fiscal, corrupção e lavagem de dinheiro.

Você, torcedor brasileiro, também é culpado. Enquanto se conformar em sua zona de conforto e deixar de ser hipócrita rindo da derrota alheia e em vez de ficar protestando contra as falhas de seu time de coração, nunca veremos europeus, americanos, japoneses e africanos ostentarem com orgulho o manto sagrado de seus clubes em seus países de origem. Enquanto ficar ligado na TV, vendo seus amigos sacrificando seu sono para acompanharem no estádio o seu clube do coração, vai ficar tudo do jeito que está, pois os seus gritos não chegam aos atletas em campo. Enquanto você pensar em dar um murro na cara de um amigo seu por causa de futebol, você não será digno de ser um torcedor de seu clube. Não podemos carregar o ódio e sim a vontade de vencer, competindo, pois esta nunca se transforma em ódio e sim em amizade e companheirismo.

Sejamos francos, é hora de reinventarmos o futebol brasileiro.