Não faça a cama na varanda

Essa situação toda de pandemia me fez lembrar um trecho de uma música do pai do rock brasileiro, Raul Seixas, que dizia:

Enquanto todos fraquejavam contra o frio

Eu fiz a cama na varanda

Raul Seixas

Eu me lembrei dessa música pois todo final de semana eu vejo festa e aglomeração nas ruas do meu bairro. Agora de noite eu estou ouvindo música alta, e pessoas cantando, como se não existisse nenhuma pandemia, como se não tivesse morrido nesse país mais de 350 mil pessoas por conta da covid-19.

Sem referências a memes, eu não gostaria que essa festa virasse um enterro. Mas as pessoas parecem fazer de tudo para que isso aconteça. Ao passar pela rua, por conta de algumas necessidades que tenho que fazer, como comprar alimentos, ou mesmo fazer uma caminhada para manter o corpo em movimento, eu vejo pessoas ou sem máscara, ou usando no queixo ou com o nariz de fora ou segurando na mão em vez de no rosto.

Comecei a pensar: tento manter a minha lucidez, mas a vontade de me desesperar é enorme. Tal como no filme de terror que a gente sabe muito bem que o personagem não deveria ir por aquele caminho e vai, nós vemos dezenas milhares milhões de brasileiros marchando para uma roleta russa que pode ser extremamente dolorosa.

No meu bairro tem um jovem rapaz que está na UTI. Covid. Respirando por aparelhos. Pode demorar para se recuperar, ou ter sequelas que podem inclusive impossibilitar de trabalhar, de estudar, de ter uma vida normal.

Me preocupo muito com a situação de muitas pessoas. Porque elas precisam trabalhar e sair de suas casas para trazer o sustento para suas famílias. Essas pessoas não possuem outras alternativas, não podem ficar em isolamento social, não podem trabalhar em home Office, não podem aderir a um Lockdown. Não possuem nenhum tipo de suporte, como uma renda mínima, uma bolsa aluguel, uma cesta básica. Do contrário, entraram para estatística de desempregados, de pessoas individados, de pessoas em situação de miséria, de pessoas com fome.

Muitas dessas pessoas descobriram, às duras penas, que o Messias não existe, e o que se apresenta como Messias, quer apenas ser eleito em 2022.

Muitos fraquejam contra o frio, pois este é um inverno rigoroso que infelizmente vai continuar ceifando vidas. Não é hora de pôr a cama na varanda, pois é capaz de não mais acordarmos. Temos que evitar as farras, as visitas, os cultos, as aglomerações. Temos que ficar o máximo de tempo possível em casa. Temos que lutar usando a nossa voz nas redes, por um auxílio emergencial que de fato contemple as necessidades das famílias brasileiras que estão em risco neste momento. Temos que desmentir os mentirosos. Temos que combater o mal que nos avizinha. Temos que ser solidários, que apesar da carestia, nós podemos ajudar com um pouquinho para as pessoas necessitadas. A campanha de arrecadação de alimentos e dinheiro para a distribuição de cestas básicas as pessoas que estão na mais absoluta miséria. Procure saber sobre essas campanhas, e participe. E por fim, tenhamos mais empatia e consciência. Pois tudo que nós fizermos nesta pandemia não será apenas por nós mesmos, e sim por todos.

A humanidade nunca foi provada dessa forma. Há quem diga que seria esta a nova era de aquário. Uma era de consciência e de construção de uma nova sociedade. Sabemos que nossa cultura e valores eram baseados em conceitos que se desvaneceram. E que já está na hora de novos conceitos assumirem seu lugar. A pandemia nunca nos forçou há termos que aprender tão rápido para que nós possamos sobreviver, seja de corpo, mente ou espírito. E a esse aprendizado que devemos tomar para nós, pois nessa pandemia, a humanidade só se salvar, se de fato se unir.

Não somatizarás teu sofrimento

Em minha franca vida já chorei muitas vezes. Incontáveis vezes. Já chorei sem motivo é também por motivos bobos. Já chorei escondido, já chorei na frente dos outros, mas nunca consegui me ver chorando, apesar de ter tentado algumas vezes.

Hoje não choro com tanta frequência. Pelo menos fisicamente. Um misto de resignação e tristeza costumam preencher o vão existente deixado pela impossibilidade de chorar. Ao não conseguir externalizar o que se sente, temos um sintoma de que esteja se habituando a somatizar seu sofrimento, a ponto de essa ação se tornar involuntária.

Ao meu ver, somatizar significa tentar absorver rapidamente uma situação traumática ou desfavorável. Porém isso implica em engolir o choro, e mesmo sofrendo, tentar seguir adiante. Uma das necessidades que construímos em um mundo de sociedade moderna é o da reputação social, e chorar, sofrer, acusar o golpe sofrido, é sinal de fraqueza. Mas em um mundo cada vez mais competitivo, é exigido de nós cada vez mais coisas a ponto de ser quase impossível darmos conta de tudo.

Nos deram os trabalhos de Hércules, mas não nos deram o dom de sermos semideuses.

E diante dessa impossibilidade, aparentar ser forte é uma saída para, pelo menos, se ver aceito por uma sociedade cada vez mais exigente. Se as mulheres de Atenas não precisam honestas, elas devem parecer honestas. E muitos de nós conseguimos ser amélias atenienses, porém somatizando, absorvendo toda a carga pesada e dolorosa que nos põem em nossas costas.

Somatizar é danoso. É um veneno que sufoca nosso corpo, nossa mente e nosso espírito. Torna o corpo tenso, faz com que apliquemos uma força descomunal contra nós mesmos, para que o desatino que recebemos simplesmente suma dentro de nós mesmos. E isso traz reflexos, estressa nosso corpo e mente, tira nossa sensibilidade, pois a mente transforma a somatização em um hábito. E por consequência, fragiliza o corpo, reduzindo nossas defesas naturais, nossa força, fazendo-nos cada vez mais sedentários e assim sujeitos a mais doenças, como ansiedade, depressão, problemas de hipertensão, coronários, AVC, diabetes, obesidade e por fim, a morte.

Não devemos somatizar nosso sofrimento!

É preciso fazer como os chineses, que quando notam algo de ruim no corpo, tem que expulsá-lo. Rancor não se guarda, ranço também, nem trauma, nem ódio, nem farpas, nada que te cause dor precisa ficar no seu corpo e na sua mente.

Grite! Chore! Meta o louco! Dê perdido! Respire fundo, deixe esse sangue ruim sair do corpo, para que o sangue novo preencha seu lugar. Não precisa fugir para um lugar distante, basta sintonizar-se consigo mesmo no seu quarto.

Só você e Deus, ou a divindade que põe sua fé.

Não devemos esquecer de nossas prioridades, que muitas vezes esquecemos. Muitas vezes damos valor a coisas sem importância e esquecemos de coisas realmente importantes como nós mesmos.

Nessas horas que nos sintonizamos, e que buscamos nos desintoxicar dos males que o mundo nos causam, é que devemos nos recordar das nossas prioridades, devemos resgatar nossa humildade, de que não somos heróis ou semideuses, de que somos seres humanos, que riem, choram, agem gozam e sofrem os momentos de nossas vidas.

Se eu quiser falar com Deus.

Toda vez que começa essa música de Gilberto Gil, mas com a interpretação emocionante de Elis Regina, sou tomado por uma emoção enorme. É sugestiva a letra, pois para entrarmos em sintonia com Deus (ou com nós mesmos) precisamos ser autocríticos e para isso, exige-se franqueza e humildade extremas.

E assim, poderemos chegar ao nada, como diria a letra da canção. Nada daquilo que esperávamos encontrar.