Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Famílias de comercial de margarina

Dia 31 de março de 2015 marcou um triste episódio da defesa dos direitos humanos e do combate racional à violência. Foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça por 43 votos contra 21, a proposta de emenda constitucional que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Mais uma vez, os políticos do Brasil não entendem e não usam o poder que tem nas mãos com sabedoria. Mais uma vez se atacam os efeitos em vez das causas. Mais uma vez os congressistas brasileiros atuam de forma passional, irracional e irresponsável quanto ao futuro do país e quanto à questão da violência e da questão do menor em situação de conflito com a lei.

O cerne da questão está num dos pontos ao qual os senhores parlamentares, sobretudo a bancada religiosa, não quer mexer, por contrariar seus interesses: a família. É na família onde são cultivados os valores que conduzem a sociedade a uma situação de paz social, ordem e respeito mútuo. Outro ponto importante que também é relegado, por contrariar os interesses dos donos do poder é a educação.

A melhor forma de combater a violência e resolver a questão do menor em conflito com a lei, não é com punição e sim com prevenção. E a prevenção vai muito além da educação familiar, passa pelo planejamento familiar, e até do conceito de família.

O conceito de família é uma questão que a bancada religiosa quer intervir, para impedir o reconhecimento do Estado de casais LGBT com filhos, sejam estes naturais, ou por meio de adoção, como sendo uma unidade familiar, por meio do nefasto estatuto da família.

Esta mesma bancada evita ao máximo tocar em questões delicadas como o aborto ou programas públicos de contracepção. O objetivo é claro: o controle das pessoas através de uma “padronização” e “normatização” do comportamento sexual, como ferramenta de controle, pois diz-se que quem controla o sexo, controla o homem.

Retirar o controle do comportamento sexual da igreja e dar às pessoas o direito de livre arbítrio, seria a abolição do poder e influência desses grupos sobre a sociedade, o que também representaria a perda de seu poder político e social.

Tanto é que o moralismo e ações de cunho excludente e corretivo são a tônica desses grupos. Seria perfeitamente compreensível, porém bastante reprovável, o apoio destes à redução da maioridade penal.

A família é o mote de defesa destes grupos. Porém o modelo de família que estes defendem é um modelo deturpado, excludente e leviano, um modelo aparentemente perfeito aos olhos das divindades que acreditam, que é muito parecido com a família apresentada nos comerciais de margarina. Este tipo de família, não existe: é um modelo utópico, que não deve ser imposto à sociedade, pois é um modelo excludente. Tão excludente quanto milhares e milhares de jovens, que por estar em conflito com a lei, serão afetados por uma solução burra em reduzir a maioridade penal.

Acabar com a impunidade não é jogar o jovem no lixo, como propõe a redução da maioridade penal. A educação do jovem tem que vir desde o começo, com a concepção da família. Pais e sociedade são corresponsáveis pela criação de nossos filhos. Não podemos permitir que a questão sexual e familiar seja banalizada e desmoralizada desta forma. O planejamento familiar, o incentivo a contracepção, a educação familiar e escolar, com a difusão de valores, como o respeito ao próximo, a valorização da vida e o desapego aos valores materiais. Devemos também ter o entendimento de que a mídia, a cultura e a propaganda devem estar em consonância com estes valores, com o combate à propaganda infantil, a democratização da mídia, a regulamentação e fomento à cultura, com o incentivo a movimentos culturais e socieis que privilegiem as raízes brasileiras e os valores humanos.

Por outro lado, devemos punir, sim, aqueles que colocam nossos adolescentes no crime. Temos que também repensar o modelo penal em que vivemos, pois este apenas agrada os aristocratas, que preferem fugir e esconder os problemas, ao invés de enfrentar e solucioná-los. O modelo de prisão como depósito de gente, com superlotação, sem atividades de trabalho e educação, além da reintegração do indivíduo à sociedade, não é a solução efetiva para o problema da violência e da criminalidade, além de ser um ônus para a sociedade, que tem que arcar, além dos custos de operação dos presídios, com o fato de estas pessoas detidas deixarem de contribuir para a sociedade. Temos também que tornar a punição aos aliciadores de menores para o crime e para a prostituição mais rígida. Também temos que observar os pais que não arcam com a educação dos filhos, seja pela questão de formação inadequada para compor uma família, seja pelas ações que os direcionam para valores incompatíveis com o que se espera de um convívio social.

Para resolver a questão do menor, devemos abolir a família do comercial de margarina. Devemos admitir que o modelo familiar é diverso, porém focado em desenvolver crianças e jovens, preparando-as para o convívio em sociedade de forma harmônica e progressista.

A morte do estado Laico Brasileiro

Em sua jornada eleitoral, Dilma Rousseff, candidata à reeleição, disse que “o Brasil é um Estado laico, mas feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. Esta frase trouxe preocupação a todos os defensores de um estado laico, já que a laicidade do estado está no princípio de não conceder nenhum benefício ou privilégio a um credo.

Há muito tempo que um certo movimento evangélico popular vem empreendendo lobby político, visando a defesa de seus interesses. Porém estes interesses, muitas vezes esbarram no estado de direito e no estado laico. Por esta razão os evangélicos passaram a participar cada vez mais da política, com um público cativo de seus fieis, além de já comporem uma bancada no congresso nacional. Seu maior feito foi presidir a comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos deputados com o Pastor Marco Feliciano (PSC-SP).

Esta eleição será a primeira com um candidato a presidência pastor evangélico (Pastor Everaldo do PSC) e já conta com dois partidos representantes de seus interesses: o próprio PSC e o PRB, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, e que compõe chapa com a candidatura de Dilma.

Dois projetos capitaneados pelos evangélicos são ameaçadores a alguns grupos, como o movimento LGBT e os movimentos de defesa do estado laico. Há projetos que prevêem a inclusão de lideranças religiosas cristãs entre os grupos que podem propor ação direta de inconstitucionalidade (privilégio exclusivo do presidente, governadores, senado, câmara, governadores de estado, procurador-geral da república e OAB nacional para propor junto ao STF que uma lei seja inconstitucional), e o estatuto da família, que estabeleceria que o casamento só seria permitido no Brasil entre um homem e uma mulher, tornando ilegais todos os casamentos gays registrados no país.

Na África, a influência negativa de missionários cristãos, além da de fundamentalistas islâmicos, em alguns países tem causado resultados trágicos. A perseguição contra homossexuais em Uganda é o exemplo mais emblemático. A lei Anti-gay aprovada este ano, que porém recentemente revogada, é prova de que quando se mistura religião e política, o resultado na maioria das vezes é desastroso. Há cerca de 20 anos, o processo de homofobia institucionalizada vem ocorrendo em Uganda, inclusive com casos absurdos de jornais publicando nomes e endereços de pessoas homossexuais, assumidas ou não, sem contar as perseguições e assassinatos de homossexuais, que na maioria dos casos, não tem seus agressores punidos. A África se tornou um terreno fértil para atos de intolerância religiosa, dado ao fato de que foi colonizado pela Europa e a colonização trouxe um processo de destruição das raízes culturais e da auto-estima de seu povo.

Segundo a organização não-governamental de defesa dos direitos LGBT All Out, em 77 países do mundo a homossexualidade é enquadrada como crime, inclusive com a pena de morte em alguns deles.

O Brasil viveu sob 21 anos sob uma ditadura, onde as liberdades individuais eram restritas. Hoje vivemos em um país livre e democrático. Mas é preciso bom senso. A vontade de muitos (muitas vezes induzida por alguns) não pode induzir o Estado a restringir o direito que as pessoas tem de ser o que são. O amor é um direito inegociável e irrestrito a todos os seres humanos!