Um “rolê” de verdade

Em meio às polêmicas envolvendo os rolezinhos, quero levar à reflexão, como sempre fiz neste blog, sobre a juventude brasileira, e sobre a realidade que nos cercamos.

Eu tenho 32 anos, e o que mais me impressionava na minha infância era a qualidade dos anúncios da propaganda brasileira: comerciais bem acabados, anúncios com belas imagens e textos irresistíveis, jingles que não saíam de nossas cabeças. Mas vivíamos em um momento de crise nos anos 80. A inflação era galopante, empresas quebravam e demitiam em massa, a miséria era visível em todos os lados, o salário era super-baixo, não tínhamos acesso ao consumo, e nós consumíamos na maioria das vezes somente as imagens dos comerciais, e quando comprávamos um produto que era anunciado pela mídia, era para nós uma vitória.

Veio 1994. O plano real deu cabo a mais de uma década de tentativas frustradas de estabilidade econômica. As portas do consumo estavam finalmente abertas para muitos de nós, podíamos ostentar alguns luxos, como televisores, aparelhos de som, telefones celulares, e a oferta de trabalho passou a ser farta. A economia brasileira, apesar de alguns percaustos soprava vigorosamente.

Veio a década de 2000 e os 8 anos de governo Lula deram ao país um status de potência econômica. Enfim a promessa de que o Brasil seria o país do futuro que há tantas décadas se dizia, parecia se concretizar. A nova classe média crescia, pessoas saíam da linha da extrema pobreza e passaram a consumir. O mercado de consumo ficou aquecido, mas alguns resquícios do passado ainda sombreavam nossa realidade.

Lembra dos comerciais que citei no começo deste texto? Com um modelo educacional fragilizado, a mídia fez o papel da escola, e acabou por lançar as pessoas ao consumismo. Novelas, filmes, seriados, comerciais, programas de TV e rádio, nos ‘ensinaram’ que para que você possa ter status, respeito e admiração das pessoas, era preciso que você tenha posses: carro, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, etc.

Esta “indução midiática ao consumo”, continuou nas décadas de 90 e 2000 e até hoje isso existe. Lembro de várias modinhas desde os anos 80, como calças US-TOP, tênis Bamba, camisetas Flamel, bermudas de surfista, calças capri e saruel, camisetas gola “V”, e roupas e artigos de marcas como HD, Oakley, Benetton, Hollyster, etc.

O rolezinho é um subproduto, tido como indesejável por pessoas que se consideram da classe dominante, de uma sociedade condicionada ao consumo, mas é, assim como outros movimentos, uma ação de contra-cultura jovem. A nossa juventude é influenciada por muitos modelos, os quais ele capta e interpreta por meio de ações. O rolezinho é uma dessas ações, e precisa ser visto, não como um movimento marginal, mas sim como uma questão a ser refletida de que até que ponto estamos condicionando as pessoas a serem consumistas.

Vemos que todo o processo de formação social e educacional no país é deficiente. Democratizar a mídia seria uma forma de combater em parte a mídia consumista que vemos. Regular a publicidade voltada para crianças além de promover melhorias qualitativas na educação básica, também são importantes ações afirmativas para corrigir a rota. Devemos entender esse movimento, além de conhecer e respeitar, mas mostrar ao jovem outros rolês, novas formas de expressão cultural e social, e combater o consumismo por meio de campanhas, podem ajudar a mostrar ao jovem que hoje está sem norte, uma referência.

Façamos então um grande rolê, não em shoppings, os templos do consumo, mas sim em todos os outros lugares, onde podemos enriquecer nossas mentes, ostentar nossos valores e nos aceitar como realmente somos.

Geração perdida

Hoje, ao ir para a faculdade, pude perceber o sentido da famigerada alcunha de geração perdida a que somos chamados. Fiz uma prova de programação lógico-aritmética e foi um desastre, assim como todas as provas que fiz da área da matemática. Ao sair da prova, porém, percebi algo totalmente lógico que culminou neste desastre: a falta de conteúdo básico aliado ao desinteresse. Vejamos bem, como uma pessoa inteligente e capaz como cada um de nós somos, pode em sua sã consciência querer saber fazer sem ter um aprendizado básico adequado? Isto desestimula e compromete nosso desempenho de aprendizado. É como se faltasse algo, se tivesse pulado do ensino fundamental direto para a faculdade. Um vácuo que prejudicou milhares de jovens desde a reformulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1998, para agradar a interesses de instituições de ensino privado e a governos estaduais, como o de São Paulo, que desejavam flexibilizar a lei para implantar um perverso sistema educacional formador de analfabetos funcionais. Todas as métricas de desempenho da educação nacional, nas quais as suas estratégias se baseiam, não traduzem adequadamente a realidade educacional brasileira. Pois esta está embasada em uma filosofia que privilegia a quantidade em vez da qualidade, já que objetiva apenas a formação de mão-de-obra em vez de cidadãos.
A formação intelectual possibilita a uma sociedade desenvolver seu senso crítico e criativo, tornando-o um agente ativo de transformação. Quando esta formação é deficiente, o cidadão não dispõe de recursos para se contrapor ao que o prejudica, ou apoiar o que o beneficia, ou ter julgamento diante de qualquer questão. Sem conhecimento, uma sociedade se torna presa fácil de manipuladores, tanto políticos, religiosos ou ideológicos, e no Brasil, são estes manipuladores são os que estão no poder. Para manter seu status quo, eles atacam impiedosamente a educação, única arma que o povo teria para se defender.
Estamos diante de mais um movimento do governo do estado de São Paulo para sucatear nossa educação. A FATEC de São Paulo sofrerá uma reformulação de diversos cursos com cortes de disciplinas da área da matemática. O objetivo principal seria nivelar os cursos da FATEC de São Paulo com as demais FATEC’s do estado. Fica evidente que isto significa nivelar por baixo e nota-se que este também é um reflexo do sucateamento da educação como um todo, pois a maioria dos alunos tem algum tipo de dificuldade em sala de aula. Fica claro o problema de encaixe: o aluno não recebeu a preparação devida para cursar uma faculdade, onde o professor não dispõe de tempo, nem alçada para corrigir esse problema de encaixe.
Observo que a cada ano, o nível de conhecimento do jovem brasileiro vem caindo a patamares preocupantes, e lutar contra esse movimento de tornar nosso povo ignorante, é uma causa que, capitaneada pela sociedade acadêmica e estudantil, pode ser abraçada por toda a sociedade brasileira.

As cercanias de uma universidade

É interessante ver os fatos sobre um outro olhar, mais clínico, despido de qualquer tendência a apoio ou rejeição. Sorte tenho de ter duas visões de uma mesmo evento. Pelas redes sociais e através de amigos estudantes e militantes tive informações sobre a ocupação da reitoria da USP, e acompanhei, preocupado, o seu desenrolar. O resto vi pela mídia, claramente buscando enfraquecer o movimento com rótulos, factoides, agressividade e menosprezo.

Pelo que pude ver, houve sim, uma certa desorganização por parte dos estudantes, pois permitiram que alguns jovens, estudantes ou não, externassem a face do movimento que a mídia escancara para que os retóricos moralistas demolissem o movimento em críticas rasgadas, para que a opinião pública condenasse o movimento. Todo aquele que age e pensa sem se preocupar com o movimento e seu impacto o trai. E ao usar de expedientes que contrariam e distorcem os intuitos do movimento é um ataque ao próprio movimento. Quando vi que alguns jovens foram presos portando entorpecentes no início da ocupação, a atitude esperada de um movimento focado e organizado seria de condenar o ato, ou dos estudantes detidos, ou das autoridades policiais, mas preferiu-se a omissão. Estamos em uma sociedade, onde infelizmente a questão da droga é tratada ainda como caso de polícia. Mostrar que a questão da droga vai além de uma infração penal, daria uma força tremenda ao movimento e à manifestação. Por outro lado, a atitude das autoridades ao dispersar o movimento foi exagerada, descabida e autoritária. A energia gasta pela polícia em debelar o movimento (mais de 400 policiais, tropa de choque, helicópteros, dignos de rebelião em presídio), poderia ser utilizada se pudesse conter as milhares de mortes que ocorrem diariamente nas periferias deste país por conta de drogas ilícitas, armas ilegais, crime organizado e muito mais.

Do lado de fora vemos que o jovem estudante da USP já foi estigmatizado e rotulado de playboy, maconheiro, frustrado comunista entre outros rótulos indesejáveis. O fato de a USP ser considerada uma universidade elitista está no fato de o Estado não propiciar uma educação baseada no aprimoramento qualitativo, em vez de quantitativo, não valoriza o educador, não torna o esporte e a cultura elementos catalizadores e motivadores de uma educação de qualidade, para não dar igualdade de oportunidade ao povo e termos assim uma sociedade justa e democrática.

As questões que envolvem essa ocupação vão muito além da segurança, drogas, política, polícia ou repressão. Está na forma de como enxergamos a sociedade, e de como torna-la melhor. Vemos aqui a hipocrisia, o moralismo e o atraso estampados em nossa cara preconceituosa, ao vermos, na televisão, jovens de futuro sendo agredidos covardemente, e achando tudo isso muito bom. Por outro lado é hora de mudar a verdade socialista que nos rodeia. Como diria no filme “Tropa de elite”, o inimigo agora é outro. O discurso de algumas correntes de esquerda me incomodam pelo seu grau de alienação e descolamento da realidade social. Não se deve levar tudo a ferro e fogo e temo que a não adaptação da esquerda aos novos tempos pode mata-la. É preciso manter os ideais mas adaptar o discurso e as práticas a novos tempos.

Está na hora de um novo nível de pensamento, que propicie a todos um real entendimento de nosso papel como cidadãos. É temível que a única solução para tudo seja a barbárie e o conflito. E é mais temível que o Estado, que deve nos proteger, prefere agir de forma ditatorial e violenta. No fim, todos nós saímos derrotados e nossa sociedade dá mais um passo para trás, rumo à ignorância.

O apartheid social do Brasil

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Dois fatos ocorridos esta semana no Brasil me motivaram a escrever sobre um assunto que é considerado um tabu entre políticos e toda a sociedade: o apartheid social que ainda existe no país. De um lado vemos uma elite rica, dona do poder e controle político e do outro temos uma grande parcela da população sem acesso aos serviços básicos como educação, saúde e segurança, dependendo das decisões governamentais para usufruir de algum conforto. Os fatos ocorridos no país que inspiraram este artigo foram os protestos contra os protestos dos moradores do bairro de classe média-alta de Higienópolis, na capital paulista contra a construção de uma estação de metrô naquele bairro, aliada à polêmica de livros didáticos distribuídos nas escolas públicas brasileiras com erros graves de ortografia propositais nos livros de língua portuguesa e erros de cálculo nos livros de matemática.

Temos hoje uma educação básica de qualidade ruim, mais pela ausência de recursos do que pelo esforço dos profissionais de educação que heroicamente procuram manter uma educação de nível razoável, nas instituições públicas de ensino, pois amparo financeiro para a educação básica no Brasil resume-se à construção de escolas. A valorização do trabalho do professor e mecanismos que tornem o trabalho do professor melhor e mais digno são relegados a segundo plano, a não ser por cumprimento de metas quantitativas que não traduzem a qualidade do ensino ministrado nas escolas. E para piorar, não procuram oferecer qualidade ao material didático, seja pela obsolescência do material ou pela falta de controle de qualidade. Assim, vemos uma precarização da educação básica em nosso país e isto já traz reflexos na educação superior, pois já sentimos uma carência de mão de obra qualificada.

Já o caso da queda de braço entre o governo e os moradores de Higienópolis vemos claramente o conflituoso embate entre interesse público e interesse de classe social. Não pela atitude dos moradores em não querer a estação, mas pelos motivos os quais esses moradores tem em se opor à construção de uma estação de metrô no bairro. Entre as razões informadas pelos moradores, a principal queixa é que o local traria criminosos para a região. Uma justificativa descabida e apenas destinada a isola-los do restante da população, com ar de superioridade. O governo do estado cedeu e a estação será construída em outro local, o que provocou uma grande polêmica entre os moradores e os populares de outros pontos da cidade. Foi organizado inclusive um “churrascão da gente diferenciada”, um protesto organizado pela internet contra a mudança do local da estação. O protesto serviu para abrir os olhos de muita gente que julgava que a luta de classes já havia sido extinto.

Infelizmente vemos que há uma distância abismal entre ricos e pobres, os primeiros julgando ter o poder herdado dos tempos do início da era republicana e os segundos pelo descaso e falta de igualdade de oportunidades para obter de forma lícita a ascensão social. O estado pode equalizar e extinguir a luta de classes tratando a todos os cidadãos, não importando a classe social como iguais e oferecendo todo o aparato estatal para equalizar este abismo existente entre ricos e pobres, tornando a sociedade mais próspera e socialmente justa.

Enchendo linguiça

Na última terça, dia 03/05, ocorreu, no anfiteatro da FATEC-SP, um debate sobre as mudanças organizacionais em que o CEETEPS (Centro de Educação Tecnológica Paula Souza) estão sofrendo. A explanação do dirigente do Centro Paula Souza não passam de enchição de linguiça. A única vantagem desta mudança seria uma maior autonomia da instituição para alterar cursos, vagas, cronogramas e unidades de ensino, sem no entanto, prover autonomia financeira.

O grande questionamento feito pelos alunos, professores e funcionários foi o motivo pelo qual estes não foram consultados antes das mudanças auferidas. Todas as alterações foram feitas pelo governo estadual através da Assembleia Legislativa com a chancela do Centro Paula Souza. Esta quebra de braço entre corpo acadêmico de FATEC’s e ETEC’s e o governo paulista já tem cerca de 12 anos, entre idas e vindas, greves, protestos e projetos de lei engavetados na assembleia. A vitória governamental é mais uma derrota da classe estudantil paulista, que sofre com o descaso e a depreciação da qualidade de ensino no estado de São Paulo.

Na época em que este embate começou, eu era aluno da ETE Getúlio Vargas e senti na pele a insensibilidade governamental em relação a educação. Quando a nova LDB (lei de diretrizes e bases da educação nacional) foi aprovada, o governo estadual paulista do então governador Mário Covas instituiu uma truculenta reforma nos ensinos fundamental e médio, separando ensino técnico do regular e implantando a famigerada progressão continuada. As reformas impostas pelo governo estadual foram feitas sem nenhuma preparação ou adaptação aos professores e alunos, que foram claramente prejudicados por uma postura ditatorial e abusiva.

Consequências desses atos foram as denúncias em meados da década de 2000, por parte de pais de alunos de escolas públicas estaduais de que seus filhos mesmo estando no sexto ano do ensino fundamental, ainda não sabiam ler nem escrever e as greves dos professores do CEETEPS em 1999 e da rede estadual de ensino, nos anos seguintes, tida como política pelo governo, para acobertar a grave denúncia de sucateamento da educação pública no estado. Até hoje sofro com as consequências de uma educação deficitária na faculdade, quando tenho minha capacidade de aprendizado prejudicada e desempenho abaixo da média, pois com as reformas feitas na educação técnica naquela época, fui por muitas vezes aprovado sem saber o mínimo necessário para cursar uma boa faculdade. E este não é um caso isolado, matérias fundamentais na FATEC como cálculo e física, apresentam altos índices de reprovação, enquanto matérias como inglês e português, precisam por parte dos professores ter sua disciplina simplificada para não passar pelo mesmo problema.

O quadro e as perspectivas são preocupantes. Não apenas para a FATEC, mas para a educação paulista e brasileira. Houve um dano gravíssimo à educação e hoje estamos carentes de profissionais capacitados e competentes para trazer prosperidade a economia brasileira. O futuro é sombrio e incerto e muito do que vemos de entraves econômicos e sociais se deram por uma incapacidade política, incompetência administrativa e elitismo egoísta e estúpido, pois é a elite econômica trabalhou por séculos na manutenção do status quo, e seus efeitos nefastos ainda repercutem negativamente em nossa sociedade.

A conscientização da juventude e da nova classe média poderiam amenizar o quadro exigindo políticas que permitam um desenvolvimento social através de um ensino de qualidade e transparência na condução de políticas públicas de educação.