Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Sozinhos não estamos

Eu hoje em minhas andanças, no vagão do metrô, uma senhora que estava à minha frente elogiou a minha camiseta. Estava estampada uma charge da personagem Mafalda de Quino. Nela estava escrito “Sim às democracia! Sim à justiça! Sim à liberdade! Sim à vida!” Ela elogiou minha coragem por conta do momento tão nebuloso que atravessamos. E se emocionou. Também fiquei comovido, não apenas com a nossa conversa, mas porque por tudo o que passamos e tememos, vemos que não estamos sozinhos.

Ela me falou sobre um movimento de meditação em busca da paz. Precisamos de paz e também de coragem para continuarmos resistindo ao mal que sufoca a razão e a solidariedade que deveríamos ter.

Nesses oásis de humanidade em um deserto de ódio. Só o fato de não estarmos sozinhos nos fortalece. E nos traz um pouco de alento.

Sozinhos não estamos.

Não foi Deus o culpado

Noite sangrenta em Paris. Terroristas transformaram a cidade-luz em um território negro e sombrio. Corpos inocentes tombavam na noite parisiense para saciar a sede de ódio, travestida de vingança e desagravo a uma religião. Mentira! Não é a religião a culpada, é a estupidez.

Noites turbulentas no Brasil. Pseudo-líderes religiosos demonizam pessoas. Seus ‘crimes’? Aceitarem-se como tais, viverem sua diversidade sexual, e assumir sua identidade de gênero, pedindo ao estado “apenas” o que é de direito: dignidade. E motivados por essa demonização, pessoas que seguem esses “líderes” matam, estupram, desrespeitam, agridem e lutam para que os LGBT’s não tenham direito a nada.

Separemos o joio do trigo. As divindades foram concebidas como norte espiritual, como meio de as pessoas buscarem plenitude de vida. O que vemos quando um homem pratica o mal contra seu semelhante motivado pela crença doentia por uma divindade, é buscar na fé um álibi para sua perversidade.

Pois o mal advém de quem o atua, e retrata claramente como sua crença se distorceu e se desvirtuou da convivência pacífica e harmoniosa com seus pares.
Pois o que todas as crenças tem em comum são valores, e muitos desses valores podem ser cultivados até mesmo sem a crença.

Mas a fé busca trazer a nós uma motivação que nos põe além de nossos limites auto-conhecidos. E ao usarmos esta motivação como razão de dolo a outrem, simplesmente contradizemos a estes valores.

Todas as divindades carregam valores, e são valores aceitos por todos. Não devemos desvirtuar a crença para que esta crie monstros que destroem vidas em nome da fé.

Semeadores de ódio

Ontem ocorreram diversos eventos que marcaram a semana. Entre o futebol e a morte de Osama Bin Laden, fico com a intersecção dos temas falando sobre o ódio. Sempre digo que o ódio é um sentimento de auto-defesa contra algo que acreditamos ser uma ameaça, e que na maioria dos casos, esse ódio é injustificável, pois se utilizam de argumentos falsos ou procuram não conhecer aquilo que odeiam, para que possam entender o seu sentimento e até mesmo mudar sua percepção.

Neste cenário temos os semeadores de ódio, sua figura mais nefasta. Sua função é disseminar o ódio contra algo mesmo com argumentos falsos ou insipientes. E a internet se tornou uma das ferramentas de disseminação de ódio mais utilizadas. Ontem tivemos dois exemplos disso. Um perfil falso no Twitter publicou mensagens de cunho racista e homofóbico contra a torcida do Flamengo durante e após o jogo em que se sagrou campeão carioca ao bater o Vasco nos pênaltis. Os jogadores do Palmeiras, sobretudo Kleber, insultaram os torcedores do Corinthians após a derrota nos pênaltis.

Esse tipo de comportamento é intolerável e é mais grave quando o ódio provém de formadores de opinião e ídolos. Quem possui fã deve ser responsável por seus atos e palavras, pois estes tem o poder de ser formadores de opinião. E estes atos se tornam sementes de ódio e hostilidades que precisam ser contidos para que não motivem atos de violência.

O caso do perfil falso no Twitter hostilizando flamenguistas, é de um comportamento insano e covarde. Nota-se que se usa do expediente do anonimato para espalhar mensagens de ódio com o intuito claro de transgredir normas de respeito mútuo e de convivência social, num ato claro de covardia. Os atores de atos como esses, similares aos praticados por vândalos e pichadores dá ao transgressor a pseudo-sensação de poder pelo feito que obteve, mas trata-se de pessoas doentes e emocionalmente desequilibradas pela sensação permanente de fracasso pessoal e necessidade permanentemente frustrada de auto-afirmação.

O caso de Osama Bin Laden é similar a de outras figuras históricas que procuraram manipular pessoas para atender seus interesses ideológicos. Ao deturpar as palavras do alcorão para instituir uma intifada islâmica, e citando fatos historicamente superados como as cruzadas e a expulsão dos árabes da península ibérica, via-se claramente um processo de alienação ideológica com propósitos de disseminar o ódio contra o ocidente. A cultura islâmica deturpada pelo regime teocrático e ditatorial e a imensa desigualdade social nestes países contribuíram para agravar esse quadro. Assim, jovens árabes são seduzidos a aderir à causa terrorista de modo a ter sua família recompensada por seu “ato heroico”.

O ódio é um sentimento que se enfraqueceria se não houvessem os semeadores de ódio. Devemos ter a plena consciência de que alimentando estes sentimentos, podemos causar mal a nós mesmos. E para que estes sentimentos não surjam é preciso sabedoria para entender e serenidade para compreender os fatos, agindo de forma racional e coesa.