Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Batalhas de fé

Vejo, por muitas vezes, no facebook, episódios de uma interminável e efusiva discussão entre ateus exaltados e evangélicos fanáticos a respeito da religião. Sou católico, porém crítico de uma fé alienada e estúpida que vejo em muitos locais e também da generalização igualmente estúpida que muitos ateus assim o fazem.

Sempre acreditei que o Homem, enquanto espécie, é capaz de elucidar questões a respeito de suas origens, de suas capacidades, de suas naturezas e de sua convivência em sociedade. A pluralidade da espécie humana é o elemento fundamental e decisivo para a sua evolução diante de outras espécies, pois torna o seu ambiente muito mais dinâmico e disputado, de modo a sempre haver, usando de princípios racionais e naturais de sua espécie, a adaptação a este ambiente. As religiões surgiram como forma de justificar um padrão moral e social, de modo que este padrão se tornasse crível e aceito por seus integrantes. Este padrão é dotado de regras definidas em consonância com normas morais já estabelecidas, convencionadas por grupos econômica e politicamente dominantes, porém atribuídos a divindades, como forma de isentá-los de possíveis responsabilidades.

Fica claro, que quem tem o contrôle sobre a cultura religiosa, tem poder. Fica evidente também que persuadir as pessoas a agir de acordo com uma doutrina de recompensa, mediante cega lealdade, é amplamente vantajoso para quem tem esse contrôle. Pois é parte da fisiologia humana se sacrificar em troca de algo que o recompense. E esta natureza da troca é bastante explorada por alguns grupos religiosos, que mantém uma legião de fiéis, cuja lealdade é tão fanática e cega, que deixam de viver suas vidas para viver uma alienação.

Viver uma religião de maneira crítica e racional é perfeitamente possível, mas tiraria dos líderes religiosos o poder e a influência sobre seus fiéis. Por isso, corrompem doutrinas, criam preconceitos, implantam moralismos, inventam inimigos fictícios, para que se crie uma “zona de perigo” em torno deles, das quais os fiéis não podem escapar, estando eles subjugados a seus interesses e vontades.

E neste cenário surge a figura do fanático. Este, desprovido de senso crítico, característica esta inibida por uma doutrinação cultural contínua de destruição deste senso, ou ainda por uma capacidade intelectual reduzida, torna-se um personagem importante para a barbarização da fé, tornando-o também uma espécie de soldado que defende, ataca e contradiz os próprios princípios religiosos que alega defender. Importante salientar que apenas uma pequena parcela dos que possuem uma crença religiosa são, de fato, fanáticos. Mas a influência em uma comunidade religiosa quando este fanático é o líder, pode ser desastrosa. O caso da seita de Jin Jones poderia ser citado como exemplo de um líder fanático que levou sua seita a um ritual de suicídio coletivo, em 1978.

Mas geralmente, o líder religioso não é fanático, mas sorrateiramente passa essa impressão a seus seguidores, pois esta crença deve aparecer crível para aqueles que o seguem. Isto pode ser notado nas explanações carregadas de hesitação e emoções melancólicas, de forma teatral, como se a afirmação da fé fosse um show, um espetáculo dramático. E o fanático, não apenas endossa esse discurso, como também o reproduz em palavras e ações que o justifiquem.

Em suma, o que parecia ser um remédio para civilizar sociedades antigas, passou a ser um veneno para uma sociedade de paz, hoje. A religião teve seu papel histórico de grande influência, permitindo o surgimento e a expansão de grandes sociedades humanas que hoje coabitam o planeta, e possuem o domínio político, cultural e econômico. Entretanto, ainda se insiste em existir a ideia da cultura dominante e de sobrevivência, para promover uma princípio de igualdade imposta, sem nenhuma preocupação com as individualidades das pessoas. Esta característica é excludente e agressiva, não alinhada a princípios humanos pacíficos.

Surgiram movimentos laicos e ateus que estão se contrapondo aos movimentos religiosos fundamentalistas. Porém estes movimentos repetem os mesmos erros dos fundamentalistas, procurando de forma agressiva e até mesmo ofensiva, promover o ateísmo e demonizar a religião. Costumam relacionar personagens torpes de nossa história, como Adolf Hitler, ao cristianismo e querem mostrar o lado negro da religião sobre os mais diversos aspectos, de forma generalizada. As falhas do passado e o uso da religião como ferramenta de obtenção de poder contribuem para que os fatos apresentados sejam tido como verídicos, mas é preciso estabelecer uma conduta mais aberta ao apoio do que a rejeição. A reação dos fanáticos é um forte indício de que as ações dos ateus e laicos está produzindo repercussão, mas não é pertinente o rebaixamento a um mesmo nível de intolerância.

Uma grande falha da humanidade é entender que, por todos os seres humanos serem semelhantes sob o ponto de vista físico e fisiológico, deve-se promover uma imposição total e incondicional de igualdade de atitudes e filosofias, para que se estabeleça uma relação de igualdade. O ser humano é o único ser vivo que distingue e rejeita seus semelhantes por condições alheias a suas capacidades e características físicas e fisiológicas. Quando o Homem aprender a tratar como igual, seu semelhante, sem observar qual sua orientação política, social, sexual, cultural ou acadêmica, estaremos estabelecendo uma nova sociedade onde todos terão oportunidades e onde todos terão a plena consciência de uma cultura pacífica e de unidade. Uma sociedade de fato e de direito.

Que seja o primeiro e único

Juro por Deus que não queria escrever uma letra que seja sobre o BBB. No entanto, dadas às circunstâncias e à conjuntura sócio-política do Brasil neste dado momento, este assunto vem a ser a temática deste artigo.

Num momento em que pessoas se embriagam ao volante e pouco se importam, ou que movimentam céus e terra contra a agressão a uma cachorrinha e no entanto, veem o drama de uma senhora agredida por um agiota ou ainda o trágico cenário de definhação humana corriqueiramente vista nos becos da Cracolândia com cara de paisagem, o Big Brother Brasil é uma amostra da mais dantesca imagem do que se tornou a cultura, o comportamento e a mentalidade do povo brasileiro.

O caso do suposto estupro cometido por um dos participantes a uma colega de confinamento, que estaria bêbada e inconsciente levantou uma série de reações que escancaram as mais torpes e estarrecedoras cicatrizes da sociedade brasileira. Cicatrizes essas que impedem de nos tornar civilizados, empurrando-nos para a barbárie.

A primeira cicatriz é a do moralismo. Um homem não pode se aproveitar de uma donzela, mesmo bêbada, isto seria um estupro, um atentado à moral e aos bons costumes, como se nosso país fosse um povo de puritanos, que se julgam castos e perfeitos a ponto de julgar os atos alheios e ver neles toda a sorte de maldades.

A segunda cicatriz é a do machismo. Ela se ofereceu! Ficou rebolando essa bunda carnuda na frente do cara e ele não resistiu! Fez seu papel de homem que é o do predador sexual, viril, forte, que não deixa escapar as oportunidades, mesmo que de forma malandra e covarde! Veja, caro machão, se estivesse no lugar dele não faria a mesma coisa? E qual o papel da mulher neste caso? Apenas de objeto sexual? De  satisfazer ao homem sexualmente, mesmo que não sinta prazer, que não goze, que tenha que sofrer? A maioria dos homens brasileiros foram condicionados a agir dessa forma. Não à toa existe uma velada homofobia que diz que um homem que não faz seu papel de homem, simplesmente não é homem. E a mulher que faz papel de homem é fetiche, desde que não venha “invadir” o território masculino. Já vi muitas lésbicas apanharem de homens por que não admitiam perder suas mulheres para elas, pois se acham acima dos demais, se acham os donos, os chefes, os maiorais.

A terceira cicatriz é a do racismo. EU DUVIDO QUE SE O ENVOLVIDO FOSSE BRANCO TERIA TRATAMENTO IGUAL! (coloco em letras garrafais isso) Se fosse o Alemão que ganhou um outro BBB diria que ele cumpriu o seu papel de macho. Já para esse rapaz, o Daniel, é estuprador, maníaco, bandido. Nunca um negro é visto com bons olhos pela sociedade e também admito que julguei muitas vezes o livro pela capa. As raízes do preconceito imperam e nos impedem de estabelecer no próximo uma relação de confiança. Sempre vemos o nosso compatriota com um olhar malicioso que aumenta conforme escurece a cor de sua pele.

A quarta cicatriz, sendo a mais forte e aberta, é a da hipocrisia. Ela entrelaça todas as demais cicatrizes expondo o nosso vazio de caráter. Uma regra só é válida e aceita, quando esta não nos prejudica. É vergonhoso e inadmissível a admissão da falha, do erro. Acredita-se que Deus é brasileiro e por sermos filhos dessa terra teríamos que ser perfeitos, a nosso modo. Vemos a hipocrisia em todos os lugares. Quantas vezes vimos evangélicos pedindo clemência a Deus nos cultos, mas quando saem de suas igrejas ostentam luxo, falam mal da vida alheia, como se o Deus deles somente o vigiassem dentro de seus templos? Quantas vezes vimos pais e mães dizerem que não tem preconceito contra homossexuais, mas que agridem e expulsam de casa os próprios filhos, quando descobrem que são? Quantas pessoas dizem ser contra a fome e a miséria e no entanto, viram as costas para quem precisa de ajuda? Esse mundo fantasioso de faz de conta, esse formalismo que toma conta da sociedade tornando-a falsa, superficial, quase ficcional nos rumina e nos cospe para uma realidade que  custamos a crer: de que nossos problemas estão diante de nossos olhos e não podemos mais fugir deles ou esconde-los.

Muitos dos nossos problemas são heranças do nosso passado. A abolição da escravatura, a independência do Brasil, a proclamação da república, a república velha, o estado novo, a ditadura militar, a vinda da corte portuguesa, o descobrimento, as revoltas duramente reprimidas e outros fatos históricos, se analisados friamente, nos evidenciam os impactos causados na cultura ideológica de nosso povo.

O momento é ideal para um basta. Uma nova consciência coletiva deve surgir para combater a toda essa barbárie que toma conta de nossa sociedade. Um olhar crítico se faz necessário em vez de aceitar tudo o que nos é oferecido.