Vencer é se tornar indestrutível

Sempre tenho algumas músicas que me fazem chorar. Recentemente adicionei três músicas a esta playlist: Wild wild son de Armin Van Buuren, AmarElo de Emicida, e Indestrutível de Pabllo Vittar. E falar sobre resistência é falar sobre sua hipérbole, ou seja, sua indestrutibilidade.

Nunca uma agressão, seja ela moral, física, social ou outra, é desferida a esmo. Por mais torpe a razão em agredir, sempre há uma razão. E hoje, com uma sociedade ultra competitiva, com também um excessivo número de nivelamentos, certamente para manter uma condição de desigualdade, a gente vê, sobretudo em zonas de competição mais acentuadas, as feridas deixadas por grupos que usam de rasteiros e ardilosos procedimentos para tentar tirar do páreo pessoas. E o alvo sempre são aqueles aos quais são estigmatizados, os que não pertencem a um padrão moral culturalmente imposto, de acordo com a cor, credo, posição política, gênero e identidade de gênero, origem geográfica, sexualidade, presença de deficiência, idade, fisionomia, e outros, e sempre serão de uma forma ou de outra, vistos como estranhos para aqueles que se ‘enquadram’ nesse padrão, discriminados, marginalizados agredidos e excluídos.

Quem é alvo do ódio alheio, sabe o quanto é doloroso sofrer com a exclusão, a ofensa, a agressão e o desrespeito sofridos. Mas o intuito de agredir, nesses casos em sua maioria, é esse: engrandecer moralmente o agressor e diminuir o agredido. Isso é muito comum e não é e ontem, e vivi isso em meu início de vivência escolar. E isso na época em que bullying não era tratado como tal, mas sempre esteve presente no ambiente escolar. E pensando bem nas pessoas que praticavam o bullying contra os colegas, inclusive contra mim, uma característica tinha em comum neles: a convicção de sua superioridade e a sensação de onipotência, ou seja, crêem que pode tudo e que são melhores que os outros. Mas como essas características estariam presentes em garotos e garotas de 8, 10, 12 anos? A resposta? Podem ter sofrido influência familiar, seja por omissão, ou por incentivo direto. Nas reuniões de pais, o perfil de alguns pais desses alunos era parecido no tocante a superioridade, e grande protecionismo. Não impunham limites. E este tipo de comportamento é o que se vê hoje, em muitos adultos que usam a rede social para impor seu ponto de vista: com ar de superioridade e sensação de onipotência, usam desse modus operandi para tentar forjar uma superioridade moral a quem oprime. Mas isso só funciona se a pessoa agredida acusar o golpe. Só dá certo se a pessoa sai da sala, se capitaliza e sucumbe a agressão sofrida. Pois a intenção do agressor é essa: expulsar os dissidentes para legitimar seu ponto de vista. O processo de bolha que a rede social se tornou potencializou pontos de vista, e até vejo um processo de impulsionamento pago para promovê-los, abrindo uma temível caixa de Pandora de preconceito e ódio. Antes isolados, pessoas com pontos de vista racistas, fascistas, machistas, lgbtfóbicos e outros, ganharam voz, espaço e meios de se organizar. E episódios de agressão, com grande quantidade de ataques nas redes sociais, se tornaram mais frequentes.

Aprendi que a piada perde a graça quando ninguém ri. Assim como a agressão se torna inócua, quando o agressor não consegue oprimir o agredido. A isto, a palavra resistir é a palavra de ordem para combater o ódio. Quando se leva um golpe e resiste, o agressor pensa que não foi forte o suficiente. Mesmo tentando agredir mais e mais, se houver resistência, o agressor se sentirá agredido, pois vê que quem está agredindo não se deixa abater pelos golpes. Ou desiste, ou tenta agir covardemente. Mas de qualquer forma o agressor fica exposto, fica em evidência seu ódio, sua conduta que é a exata antítese do que se espera de uma pessoa sociável. Já aconteceu comigo, e o fator resistência foi importante para adquirir o respeito e aqueles que me desrespeitavam e tiveram que a contragosto me respeitar. Os haters ainda existem, mas se resistirmos, eles enfraquecem. E não devemos aguentar o ódio calados, nem sozinhos. Precisamos fazer cumprir o pacto que fizemos no fim do ano passado: “Ninguém larga a mão de ninguém.” E nos fortaleceremos. E os haters que lutem! Mas saibam que irão perder.

Hoje não é dia de parabéns

8 de março. Dia internacional da mulher. Parabéns???

Não. Dar parabéns a mulher por seu dia de luta contra a desigualdade de gênero é no mínimo, deboche. Afinal, ainda estamos muito longe de essa data marcante em nosso calendário deixar de fazer sentido.

Apesar de a maioria da população brasileira ser feminina, ganham menos, mesmo com média de escolaridade maior, sofrem mais com a crise, pois são as preferidas a ser dispensadas, possuem maior dificuldade em ascender na carreira profissional, e são preteridas para seleções em cargos de chefia.

Fora a jornada dupla que tem que enfrentar, já que em um país patriarcal, machista e misógino como o nosso, todos os afazeres domésticos são de sua incumbência. De fato é uma desigualdade injusta.

Hoje não é dia de parabéns, é dia de luta, é dia de desculpas, é dia de empatia. Não podemos achar que no dia 8 de março sejamos benevolentes com as mulheres, quando o resto do ano tratamos com desprezo e desrespeito.

Sobretudo às mulheres trans que são todos os dias assassinadas neste país e não tem espaço nenhum no mercado de trabalho, caindo muitas delas na prostituição para sobreviver.

Não podemos esquecer que este dia é um dia de lembrar que houve muitos avanços a começar pelos direitos do trabalho e o direito ao voto no início do século passado. A mulher vem ocupando seus espaços e a luta é para que não haja barreiras para que elas continuem exercendo sua liberdade e dignidade. Pois lugar de mulher é onde ela quiser.

Não diga parabéns para a mulher pelo seu dia. Diga obrigado, diga desculpe, diga estou contigo.