Marielle e Madalena

Uma notícia me pungiu de dor. Marielle foi morta. Uma mulher de fibra, de favela, do povo do Rio, uma lutadora guerreira. Isso me lembrou de Madalena.

Madalena, foi acusada de adultério. Estava prestes a ser condenada, mas um profeta de Nazaré, mostrou a aqueles que a perseguiam que todos somos iguais em virtudes em defeitos. E que o ódio os condenavam. Isso me relembrou Marielle.

Marielle ousou defender o povo humilde, criticou a intervenção de segurança do estado do Rio, denunciou a violência policial, foi a antítese do senso comum do povo da periferia e da favela: formada na universidade, não se dobrou ao crime organizado, nem se contentou em ser lacaia de uma sociedade brasileira patriarcal, elitista e excludente. Isso me fez lembrar novamente de Madalena.

Madalena teve sua história amputada pelo cristianismo. Sua história não se resumiu a apenas um episódio. Há evangelhos apócrifos que descrevem Madalena como apóstola. Uma liderança feminina e lutadora que não seria admitida em um universo em que o homem sempre foi líder. Isso me lembrou Marielle.

Pois querem covardemente amputar sua história, com omissões e mentiras. Omitem que ela tem uma companheira, e que é militante feminista e LGBT. E mentem quando dizem que ela tinha relação com o tráfico, que foi eleita pelo comando vermelho, que foi mãe adolescente.

As pedras de ódio que não atingiram Madalena foram os tiros que atingiram e mataram Marielle.

O ódio e a insanidade são as regras invisíveis que regem nossa sociedade. Atos covardes praticados de humanos contra humanos por egoísmo, vaidade e insensatez.

Madalena representava tudo que naquela época, era a mudança necessária que rejeitavam.

Marielle representa tudo o que hoje precisamos mudar para que possamos nos ver como iguais.

Poderíamos ser todos Madalenas e não fomos. A história nos deu outra oportunidade. Sejamos todas as pessoas Marielles.

Marielle vive!

Marielle, presente!

Homenagem ao amigo Nei

Cedo demais…

Como disseram outro dia, por que os bons morrem jovens? Há lógicas que não entendemos, nem queremos aceitar, pois a vida é ilógica, o mundo é ilógico, e nada nos faz sentido. É difícil crer na fragilidade da vida, mesmo com tanta coisa que o Homem fez para fortalecê-la. É difícil crer na força da morte, mesmo com tantos recursos que usamos para derrotá-la. E este fim precoce nos punge de tal forma que somos surpreendidos, agimos com descrença, revolta, dor e, por fim, tristeza.

A melhor forma de homenagear alguém que se foi é vivendo intensamente, pois ao lembrar aquela canção do Milton Nascimento, a Canção da America, que sempre choramos ao lembrar da dor da despedida, lembramos que qualquer dia a gente vai se encontrar, e quando se encontrar, certamente nosso amigo vai querer ouvir de nós muita coisa.

Quanto a você, amigo Nei, me dói saber só agora que você não está mais aqui. Mas que palavras devo dizer, se a tristeza dessa notícia não é possível descrever em palavras? Ficaria horas a fio tentando em vão dizer o que é isso que tira o nosso chão, nossa alegria, um pouco de nossa fé.

Que esteja em paz, onde quer que esteja. É o que é possível dizer.

A última balada

A festa parecia animada. Todos pareciam felizes. Mas o que se sucedeu naquela noite de domingo, mudaria para sempre muitas vidas.
Seria essa a última balada, de tom tenebroso, cinzento, fatal. Gritos, lágrimas, dor e desespero na última balada de suas vidas. Última e derradeira noite de suas vidas. O fogo abrasou suas vidas, levando conosco um pouco das nossas. Um terrível espetáculo dantesco, captados por celulares, câmeras de TV e mostrados para os olhos do mundo, tirando de nós a alegria que os domingos costumam trazer. Celulares que intactos, insensíveis, subliminarmente anunciavam a seus entes queridos o fim. As insistentes chamadas queriam uma prova, um sinal de vida, em vão. A dor da perda em filas intermináveis, em hospitais, no ginásio, em busca de um fio de esperança se estinguiram na face desfalecida de um ente querido entre as vítimas imoladas no desastre. Uma dor que deixou de ser deles nem minha, mas nossa, pois essa dor que os punge é tão colossal que não seria digno carregar isso sozinhas.
Isso nos nostra como somos frágeis, indefesos, diante de nosso destino. Nossas vidas são como uma imensa árvore cheia de folhas, sendo que cada uma delas é uma vida nossa. Há períodos de tempestades em que muitas dessas folhas são levadas embora, de uma vez. Novas folhas poderiam surgir, mas nada poderia trazer de volta as fohas que se foram. Mas o que nos desola é ver folhas muito novas serem arrancadas da árvore da vida sem nos avisar, sem nos fazer entender o porquê desse fim tão precoce. Isso não deve ser justo, é inexplicável, e também imponderável. É o amém que relutamos em dizer, mas infelizmente a vida diz.
Este seria os espetáculo mais triste do mundo se não fosse um outro ocorrido em um circo em Niterói, há cerca de 50 anos. Faz-se lembrar o vocalista da banda ao funcionário do circo, a lona com a espuma da boate, a elefanta com os seguranças, e as crianças… eram apenas crianças, lá e cá, com seus sonhos e seus futuros reduzidos a cinzas. Agora no lugar do futuro, ficou a ausência, no lugar do sonho, o desatino, no lugar da presença, ficou a lembrança e no lugar da vida, a saudade.
Como é triste ver a lógica da vida ser invertida: vemos em vez dos filhos enterrarem os pais, os pais enterrando os filhos.

(inspirado na tragédia de Santa Maria, Rio Grande do sul, Brasil)

Amy Winehouse está morta

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Os fãs de música foram surpreendidos hoje com a notícia da morte de Amy Winehouse (1983-2011), encontrada morta em sua casa, em Londres, Inglaterra. Mas esta trágica notícia é uma tragédia anunciada pois os frequentes problemas com álcool e drogas levaram-na a esta direção e parecia ser questão de tempo o seu precoce fim. Dona de uma voz potente e inconfundível, sua genialidade musical, que lembrava as grandes divas do Funk/Soul mundial, se contrastava com seu estilo rebelde, desregrado e às vezes inconsequente, com rompantes violentos em escândalos que escancaravam uma vida de vícios em drogas e álcool.

Há dois legados que Amy pode deixar após sua meteórica carreira. O primeiro e mais importante e positivo foi o legado artístico, visto ao seu sucesso arrebatador e sua característica musical ímpar. O outro, tão importante quanto, porém negativo, é o legado social. Os problemas que ela teve com o vício das drogas e do álcool mostram claramente que o entorpecimento não é benéfico a ninguém, pelo contrário, corrói sua capacidade criativa, sua habilidade e por fim, destrói sua vida totalmente.

A mídia, por sua vez, tem uma parcela de contribuição na sua morte. Tabloides e sites de fofoca tornaram-na uma estrela de escândalos, exibindo em close suas bebedeiras e vexames, em nome da audiência e do capitalismo sensacionalista que contaminou muitos jornais em todo o mundo. A relação de Amy com a mídia, tão estreita e conflituosa, contrasta com casos nacionais como o de Fábio Assunção e Walter Casagrande que tiveram problemas com drogas, mas que foram blindados pela mídia (notadamente a Rede Globo, emissora à qual estas pessoas mantinham vínculo profissional), somente falando sobre o assunto após uma reabilitação. Se por um lado a blindagem torna a questão do vício um tabu, por outro, a exposição excessiva o banaliza, e até mesmo incentiva outras pessoas a fazer o mesmo.

Os locais de reabilitação de dependentes químicos são chamados de Rehabs nos Estados Unidos e Inglaterra. E Rehab é o maior sucesso de Amy Winehouse, tornando esta música um retrato de uma artista que imola hoje. Talvez Rehab seja uma sátira à uma vida desregrada, mas pode ser um pedido de socorro contra o isolamento que o vício traz. A dependência de álcool e drogas afasta o viciado das pessoas que ama e o Rehab é o isolamento de forma institucionalizada e formal. Não há recuperação de um dependente sem a reintegração deste à sociedade e à família, pois este problema não é apenas do dependente, já que este não possui mais a capacidade emocional e psíquica de enfrenta-lo. A questão do vício deve ser enfrentado pelo dependente químico e por todos que o rodeiam, sejam parentes, amigos e conhecidos. E este é o verdadeiro sentido que Rehab tem, não dito pela voz de Amy quando cantava aquela música, e sim, com as mensagens subliminares que sua vida enviava a todos nós a cada capítulo conturbado de sua, agora abreviada, vida.