“Padrão Globo de Qualidade” some na TV Digital

Se você assiste a Rede Globo pela TV Digital vai se irritar um pouco. Apesar de ser a maior emissora de Televisão do País, com a maior audiência e a maior defensora do padrão nipo-brasileiro, existe uma grande variância de padrões de imagem em sua programação.

Um dos programas que mais exemplificam essa discrepância é o Domingão do Faustão. Se o programa é gravado no Rio de Janeiro, é transmitido em HDTV, mas se gravado em São Paulo, é transmitido em SDTV. E o que é mais intrigante, é o fato de a sede paulista da Rede Globo ser um prédio moderno e construído em 1999, o que permitiria a rápida instalação de equipamento moderno, e no entanto, QUASE NENHUM PROGRAMA DE ESTÚDIO GERADO EM SÃO PAULO É PRODUZIDO EM HDTV. E há programas de difusão nacional que são gerados na capital paulista como o Programa do Jô, Altas Horas e Bem Estar (único programa de estúdio gerado em São Paulo com transmissão em HDTV ao vivo). Além disso, muitos outros programas de estúdio gravados no Rio de Janeiro, como o Caldeirão do Huck, Vídeo Show, Esquenta e Mais Você, TV Xuxa, Big Brother Brasil entre outros que são ainda produzidos em SDTV.

QUASE NENHUM PROGRAMA DE ESTÚDIO GERADO EM SÃO PAULO É PRODUZIDO EM HDTV.

Em relação ao jornalismo, é perfeitamente compreensível manter o padrão SDTV para todos os telejornais devido à capilaridade da rede, mas um programa como o Fantástico ou Globo Repórter, em que a maioria das matérias são produzidas durante a semana, apenas eventualmente haver conteúdos em HDTV é no mínimo um desrespeito a quem investiu e acreditou na proposta da TV Digital, que a mesma Globo tanto defendeu. E o uso do novo padrão deve também ser um incentivo a produções próprias, como o elogiado pela crítica Profissão Repórter.

A mesma crítica se aplica à dramaturgia. Diversas produções em andamento na emissora, ainda são produzidos em SDTV, sobretudo humorísticos, como A Turma do Didi, Os Caras de Pau e Zorra Total. As novelas estão todas em HDTV, mas houve uma demora para que todas as produções sejam feitas usando o novo padrão. Primeiro foi o horário nobre, ainda em 2007, depois o horário das 18 horas em 2009, seguida do folhetim Malhação em 2010 e por fim, o horário das 19 horas em 2011. Cinco anos para todas as novelas da Globo estejam produzidas sob o novo padrão de imagem.

Enquanto isso, nas outras emissoras, o conteúdo em HDTV já é produzido em larga escala, sendo que boa parte da programação da concorrência já é produzida assim.

A explicação lógica é que, pelo tamanho da emissora, a transição para o HDTV seja feita de forma lenta e gradual, acompanhando a evolução da audiência digital. Mas já se passaram mais de 5 anos da TV Digital e os avanços foram até então tímidos e a concorrência anda produzindo muito mais conteúdo voltado para a TV Digital. A Globo vai ter de correr atrás do atraso, pois daqui a pouco será 2017 e a audiência total da TV será digital.

As novelas estão mudando

Este ano, vemos na Rede Globo um aperfeiçoamento técnico em sua teledramaturgia de novelas. Atualmente as três novelas em exibição na emissora são transmitidos em HDTV. A diferença é que agora estão usando a tecnologia cinematográfica para a produção. Usando de recursos de fotografia e os mesmos modelos de câmeras usadas no cinema, a Rede Globo deu a suas novelas, que é uma das paixões televisivas do brasileiro, um padrão de exportação a suas produções.

Se observar atentamente para as cenas de Amor, eterno amor, Cheias de charme e Avenida Brasil vemos alterações na iluminação das cenas, alguns traços característicos e uma maior riqueza de detalhes, além, é claro, do aspecto de telecine imposto pelo aparelho cinematográfico utilizado no registo das cenas. Interessante observar que este recurso melhora significativamente a qualidade da produção, dando a ele uma aparência mais plástica, mais artística.

O uso de recursos cinematográficos em produções televisivas deixou de ser custoso, graças a própria tecnologia digital. Antes, nas décadas de 1960 e 1970, utilizava-se o filme em tudo, até mesmo nas produções jornalísticas, onde as reportagens usavam filmes de cinema. Com a utilização do videoteipe na TV brasileira, a situação mudou. O custo de produção teve uma significativa queda, permitindo ao diretor da produção um ganho de desempenho em função do tempo e dos trabalhos de pós-produção. Foi aí que a novela brasileira explodiu.

Muito se questionou a respeito da diferença qualitativa de imagem das produções brasileiras e as similares europeias e estadunidenses. Mas a razão pela escolha do videoteipe nas produções brasileiras de teledramaturgia pode ser resumido em duas palavras: custo e escala. Pela quantidade de produções simultâneas (três novelas diárias, seriados, minisséries, programas humorísticos semanais, etc.), uma tecnologia que tenha uma boa relação de custo-benefício, seria vital para a sobrevivência da teledramaturgia no país.

Mas com a chegada da TV Digital no país, em 2007, foi exigida uma mudança nos padrões de produção empregados. As imagens em alta definição exigiram um aperfeiçoamento técnico tanto da parte de cenografia quanto da parte de maquiagem, figurino e até mesmo a caracterização dos atores teve que ser revista.

Desde o ano passado, todas as novelas da emissora são filmadas em HDTV. Mas desde 2010, com a novela Araguaia, que as novelas são filmadas com tecnologia cinematográfica.

A própria tecnologia do cinema contribuiu para que este modo de filmar fosse utilizado na TV. Hoje, as filmagens não utilizam mais os filmes para registrar as cenas, e sim sensores digitais (a Kodak não teria ido à falência por isso?). Assim, as cenas são gravadas no formato digital, mas mantidas as características de filmagem do cinema convencional (com o filme). Isto reduziu sensivelmente o custo de produção do cinema, e permitiu que a televisão usasse esse recurso.

Não apenas nas novelas, como nas minisseries e seriados a tecnologia do cinema está sendo usada.
Que tal assistirmos a novela, esta noite?

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