O babaca do ano

Está chegando ao fim o famigerado ano de 2020. O ano em que muitos de nós, seres viventes homo sapiens deste planeta Terra, não guardamos em nossas lembranças com muito carinho. Um ano em que fomos rasgados por uma pandemia, que adiou planos, que destruiu famílias, que trouxe dor, medo e incerteza.

E todo final de ano nós reunimos os cacos para saber o que é o joio e o que é o trigo nessa imensa balbúrdia. E simbolicamente destacamos e enaltecemos o que foi bom e o que foi ruim no decorrer desses 366 longos dias de 2020. Sim, amigos, este foi um ano bissexto, um dia a mais de um ano que se tornou torturante a partir de março.

Então é hora de prestarmos as nossas homenagens e para um ano tão estranho para os “padrões normais”, que instituimos a excêntrica honraria de eleger o babaca do ano.

Não faltaram concorrentes, porém nós temos que puxar o fio da meada pois os personagens, que figuram nas mídias e redes, mais babacas e infames de sempre, fizeram de tudo para conquistar tal honraria este ano, porém já são al concours. São pessoas que com a sua opinião fétida, seu discurso tóxico e suas ações absurdas tornaram esse ano ainda mais difícil para grande maioria desses seres humanos. mas esses personagens folclóricos do que há de mais perverso no âmago da humanidade não existiriam se não houvesse quem batesse palma para esses loucos dançarem.

Por essa razão tal honraria não pode ser oferecida a uma liderança dessa insana idiotice. Esse líder só existe porque há alguém que acredite nele. Por isso o prêmio de babaca do ano vai para você.

Você que não suporta o que é diferente, que não aceita o mundo com mais cores, com mais amores, com mais diversidade. Você que se agarra mais a crença do que aos fatos. Você que dá carteirada, que pergunta “sabe com quem está falando?”, O que usa seu poder para humilhar os outros, e que abdica do seu poder para se safar. Você que prefere filmar com o celular a tragédia do que tomar partido dela. Você que deseja fazer justiça com as próprias mãos, por acreditar que a sua “justiça” é mais justa do que a justiça das leis e dos homens. Você que não admite o erro, a falha, o defeito e some como se nada fosse contigo. Você que desconfia apenas por desconfiar, que olha o preto como animal, a mulher como lixo e o LGBT como piada. Você que vive pondo a culpa nos outros. Você quer um filho que foge à luta. Você que quer medir os outros usando a sua régua. Você que acha que o outro tem que morrer. Que todos têm que ser iguais a você. Que farinha pouca é meu pirão primeiro. Que tem que levar vantagem em tudo. Que segue a cartilha do ódio, usando a falsa e hipócrita fé como álibi.

Aqueles trastes que tanto tu críticas na verdade espelham daquilo que tu és. Se hoje nós vivemos envoltos a tamanha idiotice e insanidade, é porque muitos de nós procuramos nos espelhar naquilo que há de mais torpe e cruel, quando deveríamos nos espelhar naquilo que nos engrandece e nos torna humildes.

Todos nós assim acabamos por ser babacas. De um jeito ou de outro, pois olhamos cada vez mais para nós mesmos e esquecemos que existe uma palavra que precisamos praticar todos os dias para vivermos melhor com os outros: a empatia.

Rejeite o título de babaca do ano, mas dizer não, não basta. Precisamos repensar as nossas atitudes. Precisamos nos por no lugar do outro. Precisamos ser melhores sempre. Para que o prêmio de babaca do ano deixe de fazer sentido.

Vencer é se tornar indestrutível

Sempre tenho algumas músicas que me fazem chorar. Recentemente adicionei três músicas a esta playlist: Wild wild son de Armin Van Buuren, AmarElo de Emicida, e Indestrutível de Pabllo Vittar. E falar sobre resistência é falar sobre sua hipérbole, ou seja, sua indestrutibilidade.

Nunca uma agressão, seja ela moral, física, social ou outra, é desferida a esmo. Por mais torpe a razão em agredir, sempre há uma razão. E hoje, com uma sociedade ultra competitiva, com também um excessivo número de nivelamentos, certamente para manter uma condição de desigualdade, a gente vê, sobretudo em zonas de competição mais acentuadas, as feridas deixadas por grupos que usam de rasteiros e ardilosos procedimentos para tentar tirar do páreo pessoas. E o alvo sempre são aqueles aos quais são estigmatizados, os que não pertencem a um padrão moral culturalmente imposto, de acordo com a cor, credo, posição política, gênero e identidade de gênero, origem geográfica, sexualidade, presença de deficiência, idade, fisionomia, e outros, e sempre serão de uma forma ou de outra, vistos como estranhos para aqueles que se ‘enquadram’ nesse padrão, discriminados, marginalizados agredidos e excluídos.

Quem é alvo do ódio alheio, sabe o quanto é doloroso sofrer com a exclusão, a ofensa, a agressão e o desrespeito sofridos. Mas o intuito de agredir, nesses casos em sua maioria, é esse: engrandecer moralmente o agressor e diminuir o agredido. Isso é muito comum e não é e ontem, e vivi isso em meu início de vivência escolar. E isso na época em que bullying não era tratado como tal, mas sempre esteve presente no ambiente escolar. E pensando bem nas pessoas que praticavam o bullying contra os colegas, inclusive contra mim, uma característica tinha em comum neles: a convicção de sua superioridade e a sensação de onipotência, ou seja, crêem que pode tudo e que são melhores que os outros. Mas como essas características estariam presentes em garotos e garotas de 8, 10, 12 anos? A resposta? Podem ter sofrido influência familiar, seja por omissão, ou por incentivo direto. Nas reuniões de pais, o perfil de alguns pais desses alunos era parecido no tocante a superioridade, e grande protecionismo. Não impunham limites. E este tipo de comportamento é o que se vê hoje, em muitos adultos que usam a rede social para impor seu ponto de vista: com ar de superioridade e sensação de onipotência, usam desse modus operandi para tentar forjar uma superioridade moral a quem oprime. Mas isso só funciona se a pessoa agredida acusar o golpe. Só dá certo se a pessoa sai da sala, se capitaliza e sucumbe a agressão sofrida. Pois a intenção do agressor é essa: expulsar os dissidentes para legitimar seu ponto de vista. O processo de bolha que a rede social se tornou potencializou pontos de vista, e até vejo um processo de impulsionamento pago para promovê-los, abrindo uma temível caixa de Pandora de preconceito e ódio. Antes isolados, pessoas com pontos de vista racistas, fascistas, machistas, lgbtfóbicos e outros, ganharam voz, espaço e meios de se organizar. E episódios de agressão, com grande quantidade de ataques nas redes sociais, se tornaram mais frequentes.

Aprendi que a piada perde a graça quando ninguém ri. Assim como a agressão se torna inócua, quando o agressor não consegue oprimir o agredido. A isto, a palavra resistir é a palavra de ordem para combater o ódio. Quando se leva um golpe e resiste, o agressor pensa que não foi forte o suficiente. Mesmo tentando agredir mais e mais, se houver resistência, o agressor se sentirá agredido, pois vê que quem está agredindo não se deixa abater pelos golpes. Ou desiste, ou tenta agir covardemente. Mas de qualquer forma o agressor fica exposto, fica em evidência seu ódio, sua conduta que é a exata antítese do que se espera de uma pessoa sociável. Já aconteceu comigo, e o fator resistência foi importante para adquirir o respeito e aqueles que me desrespeitavam e tiveram que a contragosto me respeitar. Os haters ainda existem, mas se resistirmos, eles enfraquecem. E não devemos aguentar o ódio calados, nem sozinhos. Precisamos fazer cumprir o pacto que fizemos no fim do ano passado: “Ninguém larga a mão de ninguém.” E nos fortaleceremos. E os haters que lutem! Mas saibam que irão perder.

Semeadores de ódio

Ontem ocorreram diversos eventos que marcaram a semana. Entre o futebol e a morte de Osama Bin Laden, fico com a intersecção dos temas falando sobre o ódio. Sempre digo que o ódio é um sentimento de auto-defesa contra algo que acreditamos ser uma ameaça, e que na maioria dos casos, esse ódio é injustificável, pois se utilizam de argumentos falsos ou procuram não conhecer aquilo que odeiam, para que possam entender o seu sentimento e até mesmo mudar sua percepção.

Neste cenário temos os semeadores de ódio, sua figura mais nefasta. Sua função é disseminar o ódio contra algo mesmo com argumentos falsos ou insipientes. E a internet se tornou uma das ferramentas de disseminação de ódio mais utilizadas. Ontem tivemos dois exemplos disso. Um perfil falso no Twitter publicou mensagens de cunho racista e homofóbico contra a torcida do Flamengo durante e após o jogo em que se sagrou campeão carioca ao bater o Vasco nos pênaltis. Os jogadores do Palmeiras, sobretudo Kleber, insultaram os torcedores do Corinthians após a derrota nos pênaltis.

Esse tipo de comportamento é intolerável e é mais grave quando o ódio provém de formadores de opinião e ídolos. Quem possui fã deve ser responsável por seus atos e palavras, pois estes tem o poder de ser formadores de opinião. E estes atos se tornam sementes de ódio e hostilidades que precisam ser contidos para que não motivem atos de violência.

O caso do perfil falso no Twitter hostilizando flamenguistas, é de um comportamento insano e covarde. Nota-se que se usa do expediente do anonimato para espalhar mensagens de ódio com o intuito claro de transgredir normas de respeito mútuo e de convivência social, num ato claro de covardia. Os atores de atos como esses, similares aos praticados por vândalos e pichadores dá ao transgressor a pseudo-sensação de poder pelo feito que obteve, mas trata-se de pessoas doentes e emocionalmente desequilibradas pela sensação permanente de fracasso pessoal e necessidade permanentemente frustrada de auto-afirmação.

O caso de Osama Bin Laden é similar a de outras figuras históricas que procuraram manipular pessoas para atender seus interesses ideológicos. Ao deturpar as palavras do alcorão para instituir uma intifada islâmica, e citando fatos historicamente superados como as cruzadas e a expulsão dos árabes da península ibérica, via-se claramente um processo de alienação ideológica com propósitos de disseminar o ódio contra o ocidente. A cultura islâmica deturpada pelo regime teocrático e ditatorial e a imensa desigualdade social nestes países contribuíram para agravar esse quadro. Assim, jovens árabes são seduzidos a aderir à causa terrorista de modo a ter sua família recompensada por seu “ato heroico”.

O ódio é um sentimento que se enfraqueceria se não houvessem os semeadores de ódio. Devemos ter a plena consciência de que alimentando estes sentimentos, podemos causar mal a nós mesmos. E para que estes sentimentos não surjam é preciso sabedoria para entender e serenidade para compreender os fatos, agindo de forma racional e coesa.