Até quando, liberdade?

Era um domingo de sol, não tão calorento quanto nos verões, porque estamos no outono, mas era um domingo agradável, com sol bonito e caloroso. Eu precisava sair para respirar um ar fresco. Até porque o ar confinado, mesmo que seja só o seu, costuma ser tóxico e ficar enfurnado em casa não é saudável nem para o corpo, nem para a mente. Minha cabeça estava a mil, mil pensamentos, mil coisas a fazer, sonhos estranhos, muita raiva acumulada. Talvez uma visão mais ama do céu fosse ajudar. Calcei um tênis, pus minha máscara e fui.

Tentei correr, mas as pernas não suportaram o primeiro quilômetro. Encerrei a corrida e fui caminhar. Minhas caminhadas são longas, no mínimo de uma hora, e durante a caminhada procuro não pensar em muita coisa, bastando observar o movimento: as crianças brincando, homens e mulheres com seus cachorros, algumas outras, como eu, fazendo algum exercício. A minha caminhada costuma ser feita em uma praça um pouco distante, não apenas por ser tranquila, mas por ser um estranho alí, dificilmente seria incomodado.

Voltei e fui pra uma praça mais próxima de casa. E aí olhar para o céu, azul, vi uma batalha de pipas, que se degladiavam, comandadas por crianças, adolescentes, jovens e alguns adultos, quase todos homens. A disputa era acirrada, grupos empinavam pipas, tentando com linha cortante, derrubar do céu outros pipas. Quando um pipa era derrubado, ouve-se gritos de ‘mandado’ e há uma correria de crianças e jovens para apanhar o pipa que caía do céu.

É uma cena surreal em plena pandemia, mas é uma cena real. Crianças e jovens não vinham sendo afetados pela doença do COVID. Tanto que a quantidade de crianças e jovens usando máscara era muito pequena. Eu era um dos poucos mascarados em dezenas de pessoas na praça.

É um momento de crença e descrença. Onde escolhemos o que é a verdade como quem muda um canal de TV. O doloroso é saber, que para muitos desses, que agarram falsas verdades, a verdadeira verdade irá lhe impor uma dolorosa lição. E a verdade somente triunfará quando todos acreditarem nela.

É como diz na bíblia: Conheça a verdade e ela vai te libertar. Somente iremos alcançar a verdadeira liberdade quando os mentirosos perderem todo seu poder. A liberdade será a pomba branca que irá nos avisar que a verdade venceu. Até quando, liberdade? Até quando iremos te esperar? Ainda tenho esperança.

Não faça a cama na varanda

Essa situação toda de pandemia me fez lembrar um trecho de uma música do pai do rock brasileiro, Raul Seixas, que dizia:

Enquanto todos fraquejavam contra o frio

Eu fiz a cama na varanda

Raul Seixas

Eu me lembrei dessa música pois todo final de semana eu vejo festa e aglomeração nas ruas do meu bairro. Agora de noite eu estou ouvindo música alta, e pessoas cantando, como se não existisse nenhuma pandemia, como se não tivesse morrido nesse país mais de 350 mil pessoas por conta da covid-19.

Sem referências a memes, eu não gostaria que essa festa virasse um enterro. Mas as pessoas parecem fazer de tudo para que isso aconteça. Ao passar pela rua, por conta de algumas necessidades que tenho que fazer, como comprar alimentos, ou mesmo fazer uma caminhada para manter o corpo em movimento, eu vejo pessoas ou sem máscara, ou usando no queixo ou com o nariz de fora ou segurando na mão em vez de no rosto.

Comecei a pensar: tento manter a minha lucidez, mas a vontade de me desesperar é enorme. Tal como no filme de terror que a gente sabe muito bem que o personagem não deveria ir por aquele caminho e vai, nós vemos dezenas milhares milhões de brasileiros marchando para uma roleta russa que pode ser extremamente dolorosa.

No meu bairro tem um jovem rapaz que está na UTI. Covid. Respirando por aparelhos. Pode demorar para se recuperar, ou ter sequelas que podem inclusive impossibilitar de trabalhar, de estudar, de ter uma vida normal.

Me preocupo muito com a situação de muitas pessoas. Porque elas precisam trabalhar e sair de suas casas para trazer o sustento para suas famílias. Essas pessoas não possuem outras alternativas, não podem ficar em isolamento social, não podem trabalhar em home Office, não podem aderir a um Lockdown. Não possuem nenhum tipo de suporte, como uma renda mínima, uma bolsa aluguel, uma cesta básica. Do contrário, entraram para estatística de desempregados, de pessoas individados, de pessoas em situação de miséria, de pessoas com fome.

Muitas dessas pessoas descobriram, às duras penas, que o Messias não existe, e o que se apresenta como Messias, quer apenas ser eleito em 2022.

Muitos fraquejam contra o frio, pois este é um inverno rigoroso que infelizmente vai continuar ceifando vidas. Não é hora de pôr a cama na varanda, pois é capaz de não mais acordarmos. Temos que evitar as farras, as visitas, os cultos, as aglomerações. Temos que ficar o máximo de tempo possível em casa. Temos que lutar usando a nossa voz nas redes, por um auxílio emergencial que de fato contemple as necessidades das famílias brasileiras que estão em risco neste momento. Temos que desmentir os mentirosos. Temos que combater o mal que nos avizinha. Temos que ser solidários, que apesar da carestia, nós podemos ajudar com um pouquinho para as pessoas necessitadas. A campanha de arrecadação de alimentos e dinheiro para a distribuição de cestas básicas as pessoas que estão na mais absoluta miséria. Procure saber sobre essas campanhas, e participe. E por fim, tenhamos mais empatia e consciência. Pois tudo que nós fizermos nesta pandemia não será apenas por nós mesmos, e sim por todos.

A humanidade nunca foi provada dessa forma. Há quem diga que seria esta a nova era de aquário. Uma era de consciência e de construção de uma nova sociedade. Sabemos que nossa cultura e valores eram baseados em conceitos que se desvaneceram. E que já está na hora de novos conceitos assumirem seu lugar. A pandemia nunca nos forçou há termos que aprender tão rápido para que nós possamos sobreviver, seja de corpo, mente ou espírito. E a esse aprendizado que devemos tomar para nós, pois nessa pandemia, a humanidade só se salvar, se de fato se unir.

2020: o ano em que vidas importam

2020 está para chegar à seu final. Isso certamente com tudo que aconteceu, uma importante lição temos que tirar desse ano que foi muito triste, muito trágico, muito desolador. 2020 foi o ano em que aprendemos sobre a importância da vida. Não apenas a nossa vida, mas a vida dos outros que estão à nossa volta.

Começamos falando sobre os incêndios florestais. Primeiro na Austrália, depois na Amazônia e no Pantanal. A vida selvagem importa. Plantas e animais sucumbiram ao fogo causado direta ou indiretamente pela ação do homem: diretamente pelas queimadas e indiretamente pelo aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa lançados na atmosfera em meio a uma ganância industrial, cada vez mais impiedosa e feroz.

Depois veio a pandemia que paralisou o mundo e fez tombar pela moléstia milhões de pessoas em todo mundo. Dezenas de páginas diárias de obituários na Itália. Dezenas de covas abertas em Nova York, Rio de Janeiro, Manaus e São Paulo. Pessoas morrendo nas calçadas no Equador. Lockdown, distanciamento social, uso de máscaras, colapso no sistema de saúde ruas desertas, economias paralisadas, desemprego em massa, fome e miséria. Desde março, a pandemia nos impôs uma rotina macabra, onde tememos perder silenciosamente nossos entes queridos, pois a maioria das pessoas que sucumbiram tinham comorbidades ou estavam em idade avançada. Vidas frágeis importam.

Eu não consigo respirar. Foram as últimas palavras de George Floyd, um homem preto estadunidense que morreu estrangulado por um policial branco. A rotina da pandemia foi interrompida por uma série de protestos nos Estados Unidos com adesão maciça de grandes personalidades do entretenimento e do esporte, com destaque aos atletas de basquete da NBA. Em novembro, na véspera do dia da consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O debate da questão racial no Brasil ganhou força, pois sabemos que por mais que tentem provar o contrário, o Brasil possui embutido em sua cultura o racismo estrutural. No Rio de Janeiro, uma família inteira foi metralhada por ser confundida com traficantes apenas por serem negros. Uma mulher em São Paulo teve a cabeça presa ao chão com os joelhos de um policial. É corriqueiro um caso ou outro de racismo no Brasil e no Mundo, que inclusive fez com que o jogo de futebol na França fosse paralisado. Vidas negras importam.

Morta a facadas na frente dos filhos na véspera do Natal. A violência doméstica e o feminicídio também estiveram presentes esse ano. Também completou-se mil dias sem a resposta para uma pergunta inquietante: quem mandou matar Marielle Franco e Anderson, e por quê? Nessas eleições mulheres sofreram ofensas e injúrias apenas por serem mulheres e pleitear em um espaço que é legitimamente delas: o espaço onde elas quiserem ocupar. Mulheres assediadas e violentadas sexualmente, sem direito de defesa. Seja empresário, artista, políticos. Não importa a idade, nem menores de idade estão respeitando. Mais do que nunca, vidas femininas importam.

Cada vez mais LGBTs são agredidos. E as mulheres trans são as maiores vítimas. Os casos de transfobia cresceram esse ano e com a pandemia ficou ainda pior. Marginalizadas, e muitas tendo como a prostituição um meio de sobrevivência. Um grito de basta foi a eleição da mulher mais votada para vereadora no Brasil: Erika Hilton, uma mulher trans preta em São Paulo. Em Belo Horizonte, Duda Salabert, outra mulher trans, foi uma das mais votadas. Para vencer a opressão, é preciso ocupar espaços e denunciar as agressões. Vidas Trans importam, vidas LGBTQIA+ importam.

A tirania foi a tônica de governos de alguns países do mundo, que usaram a pandemia como álibi para impor ainda mais restrições as pessoas. A regra é simples: obrigações e negações de direitos para muitos e privilégios para poucos. A pandemia revelou a miséria e o desastre dessa política de exclusão e morte. Da negação da pandemia e a inação governamental, vemos um poder cada vez mais distante de quem mais precisa de sua ação. A democracia enfim, saiu do coma, impôs algumas derrotas aos tiranos. Caiu Macri, a proibição do aborto e a isenção de impostos para grandes fortunas na Argentina, caiu o golpe na Bolívia, caiu a constituição do Pinochet no Chile, e caiu Donald Trump nos Estados Unidos. A democracia no mundo respira. Vidas democráticas importam.

Este ano foi um ano em que nunca se viu antes o papel individual das pessoas no seu cotidiano. Com a pandemia, quase toda a população mundial teve que mudar o modo de vida e passou a ver o outro de uma forma diferente, mesmo que à distância. O isolamento social nos fez notar o quão estamos distantes uns dos outros, e o quão empáticos deixamos de ser. Vivemos sob um modo de vida em que somente aquilo que nos rodeia era tido como importante. Hoje vemos que aquilo que o outro faz pode sim nos afetar. Que uma irresponsabilidade alheia pode nos trazer sofrimento e morte. Que exemplos vindos de outras pessoas que até então idolatrávamos, podem nos dar um bom ou um mal caminho. Tudo ficou mais próximo, mais visível. O fogo que ardia na Amazônia trouxe chuvas de cinzas em São Paulo. O doente assintomático de covid, que pegou a doença em uma festa clandestina, passou a doença para seus pais e avós que não resistiram. 2020 nos impôs a necessidade de sermos protagonistas e corresponsáveis por um mundo que nos ensina a sermos mais empáticos e mais humanos. Vidas além das nossas importam.

O confinamento, o bombardeio de notícias negativas, o escárnio e o desdém de outras pessoas, a guerra digital nas redes e as perspectivas cada vez mais sombrias de um futuro próximo, testaram nossos nervos e nossas emoções. Nunca ficamos tão distantes e tão desolados, nunca choramos tanto, nunca fomos tão flagelados pelo isolamento social e pela distância que tivemos que nos impor para salvar as nossas vidas e as vidas de quem amamos. Nunca precisou-se tanto de motivos para sorrir. Nunca precisamos tanto de um cafuné, de um ombro amigo e de um colo para chorar. Nunca nos sentimos tão frágeis, tão indefesos diante de uma situação de calamidade. Nunca estivemos tão cansados, tão atordoados, tão insanos e desesperados diante de um cenário tão adverso. Quem passou por esse momento tão difícil, jamais irá esquecer a agonia dos dias de 2020. Quem perdeu entes queridos e amigos na batalha contra a pandemia jamais irá esquecer o quão doloroso é a vida se esvaindo pelos dedos. Neste fim de ano, as vidas que se foram se tornaram um tributo para continuar lutando e valorizando cada vez mais a vida. Pois hoje e sempre: a vida importa.

Nada mais além

Nada além de uma ilusão. Mas esta é uma ilusão real. Pois é uma realidade muito cruel para vê-la sem filtros. Nos arrastamos ainda mais fundo na alucinógena convicção, de que a verdade é algo que se apropria, de que deve ser confrontado com as “verdades” alheias, de modo que possamos triunfar sobre os outros através das crenças delas em nossas crenças.

Cada vez mais estamos isolados, sozinhos. Distantes, desnorteados, sem futuro, sem rumo, sem identidade, sem rosto, sem sentimento. Sem nada.

Somos migalhas amassadas pela dura realidade que nos destrói ainda mais. Somos miseráveis, compartilhando nossa própria miséria travestida de riqueza. Somos tolos, ostentando vantagens que não existem. Somos cópias inexatas e defeituosas de Dom Quixote, que veem gigantes em qualquer coisa, não apenas em moinhos de vento.

Enclausurados em nossas casas, o desespero é visto pelas janelas. Não pelo horizonte acinzentado de ruas cada vez mais fúnebres, mas pelo reflexo de nossas almas que vemos pelo vidro.

Nas ruas, o desatino de uma tragédia anunciada. Mais pessoas nas ruas, por necessidade ou descrença, contagiam não apenas o vírus, mas também a certeza de que dias de dor e sofrimento se avizinham.

São situações-limite. Se há um momento para aprender e amadurecer, que seja esse. Que possamos, com a ausência, a carência e o desatino, olhar o outro com mais empatia.

Que praças, parques e campos sejam novamente repletos de pessoas que se respeitem e se tolerem.

Que o vazio dos lugares também esvazie, em nós, o rancor.

20140914_003121