Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Não foi Deus o culpado

Noite sangrenta em Paris. Terroristas transformaram a cidade-luz em um território negro e sombrio. Corpos inocentes tombavam na noite parisiense para saciar a sede de ódio, travestida de vingança e desagravo a uma religião. Mentira! Não é a religião a culpada, é a estupidez.

Noites turbulentas no Brasil. Pseudo-líderes religiosos demonizam pessoas. Seus ‘crimes’? Aceitarem-se como tais, viverem sua diversidade sexual, e assumir sua identidade de gênero, pedindo ao estado “apenas” o que é de direito: dignidade. E motivados por essa demonização, pessoas que seguem esses “líderes” matam, estupram, desrespeitam, agridem e lutam para que os LGBT’s não tenham direito a nada.

Separemos o joio do trigo. As divindades foram concebidas como norte espiritual, como meio de as pessoas buscarem plenitude de vida. O que vemos quando um homem pratica o mal contra seu semelhante motivado pela crença doentia por uma divindade, é buscar na fé um álibi para sua perversidade.

Pois o mal advém de quem o atua, e retrata claramente como sua crença se distorceu e se desvirtuou da convivência pacífica e harmoniosa com seus pares.
Pois o que todas as crenças tem em comum são valores, e muitos desses valores podem ser cultivados até mesmo sem a crença.

Mas a fé busca trazer a nós uma motivação que nos põe além de nossos limites auto-conhecidos. E ao usarmos esta motivação como razão de dolo a outrem, simplesmente contradizemos a estes valores.

Todas as divindades carregam valores, e são valores aceitos por todos. Não devemos desvirtuar a crença para que esta crie monstros que destroem vidas em nome da fé.

Feliciano e os “pais de família”

Hoje fui surpreendido por mais uma declaração infeliz do charlat…, quer dizer, pastor e deputado Marco Feliciano, alvo de protestos contra sua permanência na presidência da Comissão de Direitos Humanos da câmara dos deputados. Segundo o próprio, não existem pais de família ali nos protestos. O intuito da declaração, proferida no programa do Ratinho no SBT, é de claramente colocar os manifestantes contra a opinião pública, taxando-os de alienados e desocupados.
Mas se a família é tida como a unidade nuclear de toda a sociedade, Feliciano, além de lançar uma declaração altamente infeliz e preconceituosa, mostra claramente sua opinião retrógrada sobre o conceito de família.
Casais sem filhos, pessoas que moram sozinhas, pessoas solteiras com filhos, casais homossexuais também são famílias, Feliciano! E todas elas estavam defendendo o direito de serem reconhecidas como famílias em um estado que é tido como laico. Você tem todo o direito de discordar desses novos conceitos de família, mas tem a obrigação de respeitar essas pessoas, pois o senhor não representa apenas os seus fieis, mas todo o povo brasileiro, lembre-se disso! E portanto, suas opiniões não devem estar acima dos anseios do povo, pois em um regime de eleição como o nosso, o senhor não representa apenas os fieis que votaram no senhor, mas numa parcela muito maior da sociedade que espera do político um servo do povo e não um servo de si mesmo.
Pelo bem do povo brasileiro, fora Feliciano! Não é possível que em 2013 ainda exista o facismo troglodita, travestido de moral religiosa.

O sábio e o tolo: convivendo com a diferença

Hoje é 17 de maio de 2012: dia mundial de luta contra a homofobia. É um dia diferente dos demais pois ajuda a nos mostrar a grande tolice humana em rejeitar quem é diferente. A pessoa homossexual é idêntica às demais podendo ambas terem as mesmas probabilidades de caráter e habilidades, inexistindo portanto, nenhuma razão para desqualificar uma pessoa homossexual sob seu aspecto humano. As manifestações de ódio à comunidade gay não possuem justificativas plausíveis e embasadas em provas que confirmem a homossexualidade como uma ameaça à sociedade e à raça humana, sendo portanto vítimas de padrões sociais inadequados à nossa realidade, marginalizados por doutrinas obsoletas e demonizados por algumas organizações religiosas com o intuito de atrair fiéis a suas seitas.

Nosso país atravessa um momento delicado, pois vê-se uma sucessão de retrocessos promovidos por políticos oriundos da bancada evangélica para instituir no país uma teocracia cristã. E estes senhores instituiram a comunidade gay como seus maiores inimigos. Além de se opor claramente a leis e programas governamentais contra a homofobia, ainda tentam atribuir aos homossexuais o rótulo de pedófilos e estupradores, com o intuito de marginalizá-los. Enquanto isso, gays, lésbicas, travestis e transgêneros são agredidos, assassinados e tem seus direitos usurpados por uma sociedade e um estado que deveria ser laicos e de direito, mas que acabou sendo um estado de interesses. Um país como o Brasil, que viveu por 21 anos, sob a sombra obscura do cerceamento da liberdade por conta da ditadura, não pode trocar sua liberdade recém-adquirida por nada, sequer por uma promessa de salvação divina. E o processo de alienação é tamanho que se não houver o combate a esse facismo teocrático, as liberdades e direitos individuais estarão ameaçados.

E um Homem livre é também feliz e criativo, ser de suma importância para contribuir positivamente em nossa sociedade. Todo homem que compreende e respeita as diferenças que dele o circundam, é uma pessoa sábia. Tolice é achar, mesquinhamente, que as suas visões e entendimentos de mundo devem ser impostos aos demais. Ter um entendimento e um juízo de valores e crenças é um direito que todos nós temos e o praticamos, mesmo que involuntariamente por meio da opinião. Mas não é direito de ninguém impor a outro ser humano suas filosofias, exceto pelo convencimento voluntário deste. E mesmo que não haja este convencimento, a pessoa que possui outra filosofia deve ter seu juízo de valores respeitado, sem ser discriminado ou marginalizado de forma alguma. Isto está implícito na declaração dos direitos humanos e até mesmo nos mais notáveis fundamentos cristãos, os quais estes grupos rasgam e agridem para defender seus interesses expansionistas.

Lutar contra a intolerância é nossa bandeira de luta neste dia contra a homofobia, representação máxima do mal que um ser humano causa a outro.

Batalhas de fé

Vejo, por muitas vezes, no facebook, episódios de uma interminável e efusiva discussão entre ateus exaltados e evangélicos fanáticos a respeito da religião. Sou católico, porém crítico de uma fé alienada e estúpida que vejo em muitos locais e também da generalização igualmente estúpida que muitos ateus assim o fazem.

Sempre acreditei que o Homem, enquanto espécie, é capaz de elucidar questões a respeito de suas origens, de suas capacidades, de suas naturezas e de sua convivência em sociedade. A pluralidade da espécie humana é o elemento fundamental e decisivo para a sua evolução diante de outras espécies, pois torna o seu ambiente muito mais dinâmico e disputado, de modo a sempre haver, usando de princípios racionais e naturais de sua espécie, a adaptação a este ambiente. As religiões surgiram como forma de justificar um padrão moral e social, de modo que este padrão se tornasse crível e aceito por seus integrantes. Este padrão é dotado de regras definidas em consonância com normas morais já estabelecidas, convencionadas por grupos econômica e politicamente dominantes, porém atribuídos a divindades, como forma de isentá-los de possíveis responsabilidades.

Fica claro, que quem tem o contrôle sobre a cultura religiosa, tem poder. Fica evidente também que persuadir as pessoas a agir de acordo com uma doutrina de recompensa, mediante cega lealdade, é amplamente vantajoso para quem tem esse contrôle. Pois é parte da fisiologia humana se sacrificar em troca de algo que o recompense. E esta natureza da troca é bastante explorada por alguns grupos religiosos, que mantém uma legião de fiéis, cuja lealdade é tão fanática e cega, que deixam de viver suas vidas para viver uma alienação.

Viver uma religião de maneira crítica e racional é perfeitamente possível, mas tiraria dos líderes religiosos o poder e a influência sobre seus fiéis. Por isso, corrompem doutrinas, criam preconceitos, implantam moralismos, inventam inimigos fictícios, para que se crie uma “zona de perigo” em torno deles, das quais os fiéis não podem escapar, estando eles subjugados a seus interesses e vontades.

E neste cenário surge a figura do fanático. Este, desprovido de senso crítico, característica esta inibida por uma doutrinação cultural contínua de destruição deste senso, ou ainda por uma capacidade intelectual reduzida, torna-se um personagem importante para a barbarização da fé, tornando-o também uma espécie de soldado que defende, ataca e contradiz os próprios princípios religiosos que alega defender. Importante salientar que apenas uma pequena parcela dos que possuem uma crença religiosa são, de fato, fanáticos. Mas a influência em uma comunidade religiosa quando este fanático é o líder, pode ser desastrosa. O caso da seita de Jin Jones poderia ser citado como exemplo de um líder fanático que levou sua seita a um ritual de suicídio coletivo, em 1978.

Mas geralmente, o líder religioso não é fanático, mas sorrateiramente passa essa impressão a seus seguidores, pois esta crença deve aparecer crível para aqueles que o seguem. Isto pode ser notado nas explanações carregadas de hesitação e emoções melancólicas, de forma teatral, como se a afirmação da fé fosse um show, um espetáculo dramático. E o fanático, não apenas endossa esse discurso, como também o reproduz em palavras e ações que o justifiquem.

Em suma, o que parecia ser um remédio para civilizar sociedades antigas, passou a ser um veneno para uma sociedade de paz, hoje. A religião teve seu papel histórico de grande influência, permitindo o surgimento e a expansão de grandes sociedades humanas que hoje coabitam o planeta, e possuem o domínio político, cultural e econômico. Entretanto, ainda se insiste em existir a ideia da cultura dominante e de sobrevivência, para promover uma princípio de igualdade imposta, sem nenhuma preocupação com as individualidades das pessoas. Esta característica é excludente e agressiva, não alinhada a princípios humanos pacíficos.

Surgiram movimentos laicos e ateus que estão se contrapondo aos movimentos religiosos fundamentalistas. Porém estes movimentos repetem os mesmos erros dos fundamentalistas, procurando de forma agressiva e até mesmo ofensiva, promover o ateísmo e demonizar a religião. Costumam relacionar personagens torpes de nossa história, como Adolf Hitler, ao cristianismo e querem mostrar o lado negro da religião sobre os mais diversos aspectos, de forma generalizada. As falhas do passado e o uso da religião como ferramenta de obtenção de poder contribuem para que os fatos apresentados sejam tido como verídicos, mas é preciso estabelecer uma conduta mais aberta ao apoio do que a rejeição. A reação dos fanáticos é um forte indício de que as ações dos ateus e laicos está produzindo repercussão, mas não é pertinente o rebaixamento a um mesmo nível de intolerância.

Uma grande falha da humanidade é entender que, por todos os seres humanos serem semelhantes sob o ponto de vista físico e fisiológico, deve-se promover uma imposição total e incondicional de igualdade de atitudes e filosofias, para que se estabeleça uma relação de igualdade. O ser humano é o único ser vivo que distingue e rejeita seus semelhantes por condições alheias a suas capacidades e características físicas e fisiológicas. Quando o Homem aprender a tratar como igual, seu semelhante, sem observar qual sua orientação política, social, sexual, cultural ou acadêmica, estaremos estabelecendo uma nova sociedade onde todos terão oportunidades e onde todos terão a plena consciência de uma cultura pacífica e de unidade. Uma sociedade de fato e de direito.

Na parada: A igreja

Hoje iniciaremos uma série de artigos sobre a parada gay de São Paulo que ocorrerá no dia 26 de junho. E o primeiro artigo convida o leitor a debater sobre homossexualidade e religião.

Os grupos religiosos mais conservadores contestam a PLC 122 que criminaliza a homofobia no país. Segundo estes, a lei seria contra a liberdade de expressão religiosa, já que a doutrina religiosa prega a homossexualidade como um pecado e o homossexual um herege. De fato, há passagens da bíblia que atestam esta afirmação e que condenam o homossexual a ser tido como persona non-grata da sociedade cristã ideal. Entretanto, a própria Bíblia se for contextualizada e adaptada para os dias de hoje, nos mostra que a visão homofóbica de muitas entidades religiosas é distorcida e facilmente contestável.

O homossexual, o viciado, o mendigo e todos os marginalizados são hoje o que eram naquela época o leproso, o cego, a adúltera que também eram marginalizados e perseguidos pela sociedade. Agindo assim, os líderes religiosos que pregam a homofobia estão contradizendo os próprios princípios cristãos que defendem. Pois Jesus Cristo mostrou que todas as pessoas, sem distinção, podem ser cristãs aceitas e são dignas de compaixão e misericórdia.

Assim sendo, os conceitos cristãos elementares são a síntese dos conceitos humanos universais e ideais. Mas a distorção desses conceitos é o que faz com que muitas igrejas tenham esse papel segregatório. Observa-se uma leitura literal e não contextualizada das escrituras, e isto somado a termos líderes religiosos sem formação litúrgica adequada, os chamados obreiros e “Pastores de fundo de quintal”, que pregam a palavra de Deus sem conhecê-la plenamente. Também não há em muitos cursos litúrgicos um conhecimento apurado das escrituras e uma contextualização que promova um caráter inclusivo à religião. Sem dúvida, parte da distorção que equivocadamente relaciona homofobia e religião tem esse fato como uma das causas.

A história do cristianismo também ajuda a explicar a origem da homofobia em seu contexto filosófico. Quando o cristianismo surgiu, os cristãos pioneiros eram oprimidos pelos romanos que possuíam uma vida de orgias e o comportamento casto dos cristãos procurava se opor aos dos romanos. Além disso, havia uma necessidade de combater a superioridade numérica de outros povos por meio da procriação, que é a constituição de uma unidade familiar com numerosos descendentes. Esta política procriatória fez com que a população cristã crescesse em progressão geométrica e se tornasse a mais populosa do mundo antigo. Assim sendo, todo ato que não colaborasse com essa doutrina (a homossexualidade) era tido como transgressor e patológico. Hoje não existe a necessidade de procriação para o estabelecimento de uma doutrina religiosa, então por que a homossexualidade ainda é banida das igrejas? Por questão de controle. As igrejas mais homofóbicas são as que mais detém o controle e alienação sobre seus fieis. Um grupo se torna mais unido e disciplinado quando encontram um denominador comum, e a motivação é maior quando este denominador provém de uma possível ameaça. Isso alimenta o ódio como uma forma de auto-defesa e assim, os homossexuais passaram a ser tidos como inimigos da doutrina cristã, como método disciplinar de controle. Outra justificativa plenamente observável é de que a comunidade LGBT por ser marginalizada se torna vulnerável e frágil, e seria tecnicamente uma demonstração de força aniquilá-la.

Contudo, nota-se claramente um paradoxal comportamento que é cego e alienado. O comportamento nazi-facista destas organizações religiosas, as quais ferem até mesmo seus próprios princípios fundamentais em nome de poder e influência, disfarçados de moralismo, devem ser reprimidos com sabedoria e conhecimento. Se há em outras passagens das escrituras outros tipos de restrições que foram abandonadas pela comunidade cristã por não ser compatíveis com nosso modo atual de viver, por que então abandonar a homofobia e considerar a todos como filhos de Deus?