Não foi Deus o culpado

Noite sangrenta em Paris. Terroristas transformaram a cidade-luz em um território negro e sombrio. Corpos inocentes tombavam na noite parisiense para saciar a sede de ódio, travestida de vingança e desagravo a uma religião. Mentira! Não é a religião a culpada, é a estupidez.

Noites turbulentas no Brasil. Pseudo-líderes religiosos demonizam pessoas. Seus ‘crimes’? Aceitarem-se como tais, viverem sua diversidade sexual, e assumir sua identidade de gênero, pedindo ao estado “apenas” o que é de direito: dignidade. E motivados por essa demonização, pessoas que seguem esses “líderes” matam, estupram, desrespeitam, agridem e lutam para que os LGBT’s não tenham direito a nada.

Separemos o joio do trigo. As divindades foram concebidas como norte espiritual, como meio de as pessoas buscarem plenitude de vida. O que vemos quando um homem pratica o mal contra seu semelhante motivado pela crença doentia por uma divindade, é buscar na fé um álibi para sua perversidade.

Pois o mal advém de quem o atua, e retrata claramente como sua crença se distorceu e se desvirtuou da convivência pacífica e harmoniosa com seus pares.
Pois o que todas as crenças tem em comum são valores, e muitos desses valores podem ser cultivados até mesmo sem a crença.

Mas a fé busca trazer a nós uma motivação que nos põe além de nossos limites auto-conhecidos. E ao usarmos esta motivação como razão de dolo a outrem, simplesmente contradizemos a estes valores.

Todas as divindades carregam valores, e são valores aceitos por todos. Não devemos desvirtuar a crença para que esta crie monstros que destroem vidas em nome da fé.

11/09/2011: 10 anos de fato tristemente histórico

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Hoje o mundo lembra os atentados terroristas ocorridos nos Estados Unidos, há exatos 10 anos. E este triste episódio marcou profundamente a história recente da humanidade. E pudemos presenciar na TV, no rádio, na Internet, jornais toda essa tragédia, como se esta estivesse nas janelas de nossas casas. Pude presenciar naquela terça-feira fria e nublada de 11 de setembro de 2001, em São Paulo, como tudo poeticamente conspirava para um dia triste. As emissoras de TV não paravam de falar sobre o ocorrido, as rádios também, muitas delas interrompendo sua programação para informar continuamente os fatos que se sucediam. Ouvi no rádio, surpreendentemente na rádio Energia 97 FM (que toca música eletrônica) que as torres do World Trend Center haviam caído, e com elas a ilusão de que os EUA eram inabaláveis. A internet travou naquele dia. Todos queriam saber sobre o atentado nos portais e sites jornalísticos, congestionando a grande rede, tendo que os próprios sites a criar versões simplificadas de suas páginas iniciais para atender a demanda de acessos.

Como a insanidade pode ser tão devastadora? Os cerca de 3000 mortos em Nova Iorque, Pentágono e Pensilvânia mostram o tamanho de uma estupidez que não tem palavras, tamanho, medida ou causa que justifique tal ato. Ato este que opôs o mundo contra o Islã e provocou outros abalos estruturais na conjuntura mundial. O clima de incerteza contaminou o pensamento de todas as pessoas. Cogitou-se até em uma terceira guerra mundial ou ainda que este ataque seria uma grande fraude por ser tão surpreendente e inesperado. Mas a tragédia foi real e abalou as estruturas da terra dos que se auto-intitulavam “os donos do mundo”, e pairou sobre a terra do Tio Sam uma nuvem de incertezas, e inclusive outros eventos, como o furacão Katrina, tornaram os estadunidenses mais pessimistas.

Uma das consequências do 11 de setembro foi a crise de 2008. As estratégias de defesa, a contenção do clima de insegurança, o contra-ataque contra o talibã e a reconstrução das áreas afetadas pelos ataques custaram muito caro aos EUA. E isto culminou com uma crise econômica americana, insolvência e quebradeira dos bancos, mostrando assim a fragilidade da estrutura econômica estadunidense. E como os EUA são o centro econômico mundial, o efeito cascata provocou uma grande pandemia econômica. Até hoje sofremos os efeitos da crise de 2008 e o rebaixamento da nota da dívida estadunidense reflete que esta crise estará longe de se encerrar para eles, pois há uma grande barreira que é a política. Os republicanos seriam os maiores responsáveis pelo agravamento da situação estadunidense no pós-11/09. Além de ter tomado medidas ineficazes e incoerentes para contra-atacar (o exemplo maior disso foi a invasão do Iraque), não houve um controle de sua política interna, o que fez com que houvesse uma bolha de crédito e que esta estourasse.

O 11 de setembro evidencia uma realidade em que se considera que os fins justificam os meios, tanto de um lado, como de outro, porém esta tese caiu por terra, já que no fim, todos sairam derrotados deste triste e lamentável episódio de nossa história.

Semeadores de ódio

Ontem ocorreram diversos eventos que marcaram a semana. Entre o futebol e a morte de Osama Bin Laden, fico com a intersecção dos temas falando sobre o ódio. Sempre digo que o ódio é um sentimento de auto-defesa contra algo que acreditamos ser uma ameaça, e que na maioria dos casos, esse ódio é injustificável, pois se utilizam de argumentos falsos ou procuram não conhecer aquilo que odeiam, para que possam entender o seu sentimento e até mesmo mudar sua percepção.

Neste cenário temos os semeadores de ódio, sua figura mais nefasta. Sua função é disseminar o ódio contra algo mesmo com argumentos falsos ou insipientes. E a internet se tornou uma das ferramentas de disseminação de ódio mais utilizadas. Ontem tivemos dois exemplos disso. Um perfil falso no Twitter publicou mensagens de cunho racista e homofóbico contra a torcida do Flamengo durante e após o jogo em que se sagrou campeão carioca ao bater o Vasco nos pênaltis. Os jogadores do Palmeiras, sobretudo Kleber, insultaram os torcedores do Corinthians após a derrota nos pênaltis.

Esse tipo de comportamento é intolerável e é mais grave quando o ódio provém de formadores de opinião e ídolos. Quem possui fã deve ser responsável por seus atos e palavras, pois estes tem o poder de ser formadores de opinião. E estes atos se tornam sementes de ódio e hostilidades que precisam ser contidos para que não motivem atos de violência.

O caso do perfil falso no Twitter hostilizando flamenguistas, é de um comportamento insano e covarde. Nota-se que se usa do expediente do anonimato para espalhar mensagens de ódio com o intuito claro de transgredir normas de respeito mútuo e de convivência social, num ato claro de covardia. Os atores de atos como esses, similares aos praticados por vândalos e pichadores dá ao transgressor a pseudo-sensação de poder pelo feito que obteve, mas trata-se de pessoas doentes e emocionalmente desequilibradas pela sensação permanente de fracasso pessoal e necessidade permanentemente frustrada de auto-afirmação.

O caso de Osama Bin Laden é similar a de outras figuras históricas que procuraram manipular pessoas para atender seus interesses ideológicos. Ao deturpar as palavras do alcorão para instituir uma intifada islâmica, e citando fatos historicamente superados como as cruzadas e a expulsão dos árabes da península ibérica, via-se claramente um processo de alienação ideológica com propósitos de disseminar o ódio contra o ocidente. A cultura islâmica deturpada pelo regime teocrático e ditatorial e a imensa desigualdade social nestes países contribuíram para agravar esse quadro. Assim, jovens árabes são seduzidos a aderir à causa terrorista de modo a ter sua família recompensada por seu “ato heroico”.

O ódio é um sentimento que se enfraqueceria se não houvessem os semeadores de ódio. Devemos ter a plena consciência de que alimentando estes sentimentos, podemos causar mal a nós mesmos. E para que estes sentimentos não surjam é preciso sabedoria para entender e serenidade para compreender os fatos, agindo de forma racional e coesa.