Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

A última balada

A festa parecia animada. Todos pareciam felizes. Mas o que se sucedeu naquela noite de domingo, mudaria para sempre muitas vidas.
Seria essa a última balada, de tom tenebroso, cinzento, fatal. Gritos, lágrimas, dor e desespero na última balada de suas vidas. Última e derradeira noite de suas vidas. O fogo abrasou suas vidas, levando conosco um pouco das nossas. Um terrível espetáculo dantesco, captados por celulares, câmeras de TV e mostrados para os olhos do mundo, tirando de nós a alegria que os domingos costumam trazer. Celulares que intactos, insensíveis, subliminarmente anunciavam a seus entes queridos o fim. As insistentes chamadas queriam uma prova, um sinal de vida, em vão. A dor da perda em filas intermináveis, em hospitais, no ginásio, em busca de um fio de esperança se estinguiram na face desfalecida de um ente querido entre as vítimas imoladas no desastre. Uma dor que deixou de ser deles nem minha, mas nossa, pois essa dor que os punge é tão colossal que não seria digno carregar isso sozinhas.
Isso nos nostra como somos frágeis, indefesos, diante de nosso destino. Nossas vidas são como uma imensa árvore cheia de folhas, sendo que cada uma delas é uma vida nossa. Há períodos de tempestades em que muitas dessas folhas são levadas embora, de uma vez. Novas folhas poderiam surgir, mas nada poderia trazer de volta as fohas que se foram. Mas o que nos desola é ver folhas muito novas serem arrancadas da árvore da vida sem nos avisar, sem nos fazer entender o porquê desse fim tão precoce. Isso não deve ser justo, é inexplicável, e também imponderável. É o amém que relutamos em dizer, mas infelizmente a vida diz.
Este seria os espetáculo mais triste do mundo se não fosse um outro ocorrido em um circo em Niterói, há cerca de 50 anos. Faz-se lembrar o vocalista da banda ao funcionário do circo, a lona com a espuma da boate, a elefanta com os seguranças, e as crianças… eram apenas crianças, lá e cá, com seus sonhos e seus futuros reduzidos a cinzas. Agora no lugar do futuro, ficou a ausência, no lugar do sonho, o desatino, no lugar da presença, ficou a lembrança e no lugar da vida, a saudade.
Como é triste ver a lógica da vida ser invertida: vemos em vez dos filhos enterrarem os pais, os pais enterrando os filhos.

(inspirado na tragédia de Santa Maria, Rio Grande do sul, Brasil)

Uma tragédia inexplicável

O Brasil acompanha com perplexidade a tragédia ocorrida na última quinta-feira, 07/04. Um homem chamado Wellington de Oliveira, invade armado a escola municipal Tasso de Oliveira, no bairro do Realengo no Rio de Janeiro e atira nos alunos, a maioria meninas e depois se suicida, levando consigo mais 13 vidas inocentes. Este trágico episódio, nos mostra o grau de insanidade a que estamos vivendo. A começar pelas condições em que este ato triste ocorreu, pelo perfil do assassino e das vítimas, e pelas ligações com religião, é difícil esclarecer as suas causas, sem antes buscar mais provas e evidências da sua personalidade.

As informações, são desencontradas, mais pela tentativa do assassino em esconder evidências e pelo caráter ávido da imprensa em buscar informações sobre o ocorrido. Assim surgem inúmeras hipóteses que informam sobre as causas do ocorrido. Bullying, sexualidade, religião e loucura entram no repertório de razões pelas quais levaram Wellington a cometer tal atrocidade.

Mas é preciso entender que é preciso detectar e buscar tratamento para pessoas com comportamento anti-social, como foi o caso de Wellington. Estava claro que indivíduos com esse tipo de comportamento precisam de ajuda para que não se tornem elementos nocivos à sociedade.

Mais do que a ajuda que é necessária, é preciso estabelecer que ajuda deve ser feita e quem está ajudando, pois uma ação indevida no intuito de ajudar pode agravar a situação em vez de melhorar.

Vi que algumas igrejas ajudam pessoas neste caso, mas em alguns casos utilizam de praticas de forte disciplina e alienação. Esta prática pode se tornar uma bomba de efeito retardado, pois esta alienação poderá confundir ainda mais essas pessoas e fazer com que estas se tornem fundamentalistas e agressivas a ponto de justificar conceitos religiosos para realizar atos de insanidade e inconsequência.