Por que “Orgulho Hétero”?

Qual o oposto de orgulho? Vergonha.

Orgulho é um sentimento de quem sente satisfação por ser de uma determinada maneira, ou pertencer a uma determinada classe.
Vergonha, por sua vez é a insatisfação ou constrangimento de ser ou pertencer a uma classe.

Orgulho e vergonha estão relacionados, muitas vezes a condições naturais e permanentes, que tem uma origem natural, inata, em alguns casos tão profundos, que podem ser imutáveis.

Por que existe o orgulho gay, o orgulho negro, o orgulho feminino? Pois estas classes de pessoas eram discriminadas por sua condição, muitas vezes marginalizadas e impedidas de exercer sua cidadania e seus direitos por suas antíteses tidas como dominantes: homens, brancos e heterossexuais (esse não é o padrão na política, na cultura, desporto, mídia e propaganda?)

E este tipo de “norma” não é por acaso. Serve para manter um controle, uma situação de domínio de uma minoria (um grupo que exerce posição de liderança), contra uma maioria (dominada, obediente, subserviente). E essas normas são estabelecidas para, primeiro, gerar pontos de conflito internos, que desestruturem a maioria, mantendo uma condição estabelecida, e segundo, para gerar uma falsa sensação de hierarquia social, colocando aqueles que estão obedecendo a este padrão como privilegiados e os que estão fora dele, como marginalizados.

Quem está fora da “norma”, e observa atentamente a esse jogo percebe este panorama de Discriminar para controlar, e se tornam alvo dos defensores da norma. Algumas igrejas, partidos políticos e grupos como a Ku-klux-clan ou nazi-fascistas adotam a estratégia de eleger um “inimigo” para motivar e unir seus seguidores. Eles claramente reafirmam seu orgulho, em troca do constrangimento e aniquilação de seus alvos.

Será que o orgulho hétero é um contraponto de quem quer manter o ódio e o preconceito contra a comunidade LGBT?
Será que o orgulho hétero é um contraponto de quem quer manter o ódio e o preconceito contra a comunidade LGBT?

Taí o temor de assumir uma posição de orgulho de pertencer a uma situação dominante e de maioria, pois esta posição pode desencadear um sentimento de rivalidade, ódio e desejo de aniquilar um grupo que não esteja alinhada a esta posição dominante. Foi assim que o holocausto surgiu.

Somente deixará de fazer sentido a questão de ostentar um orgulho de pertencer a uma classe, quando diferenciar deixar de ser uma questão relevante, ou seja, quando todas as pessoas de grupos heterogêneos estejam sob um mesmo patamar de direitos e deveres, e determinada característica inerente a pessoa deixe de ser condição para conceder direito, ou outorgar dever.

Se há o orgulho gay, negro, ou feminino, é porque estes grupos querem reverter uma condição de desigualdade imposta a eles. Uma condição que muitas vezes os põem em condição de desvantagem.

Por que ainda há diferença de remuneração entre homens e mulheres, em trabalhos iguais? Por que pessoas negras, tem em média uma escolaridade pior do que brancos, e por que a maioria das vítimas da violência policial são negros e pardos? Por quê um casal homoafetivo não tem naturalmente direito a herança, pensão, adoção?

Agora entendeu porque não faz o menor sentido ter orgulho em ser privilegiado?

(adaptado de um comentário meu no facebook em resposta a um “amigo” que defende o dia do orgulho hetero, por considerar “igualdade de direitos”)

Um belo recado

Terminou agora há pouco a cerimônia de premiação do Oscar. E entre os premiados e indicados ao prêmio ficou um belo recado. Um recado a aqueles presos a paradigmas, que insistem em diferenciar as pessoas pela cor da pele, orientação sexual, nacionalidade ou por ser portador de deficiência.

O grande vencedor do Oscar, Birdman, é dirigido por pelo diretor mexicano Alejandro G. Iñarritu. Sabe-se que é corrente em toda a parte do mundo, estrangeiros serem subestimados em seus talentos, inclusive não tendo espaço para mostrar aos países que escolheram para viver, que vieram em missão de paz, para somar suas habilidades em prol de seus novos compatriotas.

A teoria de tudo é uma história que vem mostrar que o talento supera todas as adversidades. Todos os portadores de algum tipo de deficiência, ainda não tem direito a uma vida independente, sequer são reconhecidos no mercado de trabalho, como pessoas que podem contribuir e muito com a sociedade.

Selma mostra que a realidade do racismo, mesmo sendo um filme de época, ainda é um tema atual e uma realidade ainda não superada. O tema musical do filme e que foi premiado pelo Oscar – Glory – utiliza R&B, Hip-hop e faz um link entre realidade e a época de Martin Luther King, mostrando que sua luta ainda não foi completamente vencida.

Mas quero destacar o filme O jogo da imitação. A história de Alan Turing vem mostrar a tolice que é discriminar pessoas. De nada serviu as contribuições dele para a computação e por decifrar o código de comunicação nazista, poupando milhões de vidas na segunda guerra mundial. Naquela época, na Grã-Bretanha, ser homossexual era crime, e Alan foi condenado a castração química. Preconceito, desinformação e discriminação é uma realidade que a comunidade LGBT sofre diariamente, simplesmente por ser o que são, e assumir sua orientação e identidade sexual. A homofobia sofrida por Turing pelo estado ainda é sofrida por muitos Gays, Lésbicas, bissexuais e transgêneros, por omissão do próprio estado.

É a arte cinematográfica buscando levar às pessoas uma profunda reflexão. É importante acabar com a diferenciação: Todos somos humanos. Estes é um recado que muitos conservadores não querem ouvir e gritam aos quatro ventos para que esta mensagem não chegue aos ouvidos de gente de bem.