Na parada: o sexo

Continuemos nossa série de artigos sobre a parada gay, levando a debate o que caracteriza o homossexual: sua orientação sexual.

É tolice afirmar que a sexualidade apenas trata da orientação sexual do indivíduo. O comportamento e as preferências específicas de uma pessoa para ou durante o ato sexual também constituem sua sexualidade. Não se pode afirmar que exista um padrão sexual, pois cada indivíduo somente tem sua personalidade sexual mediante a experimentação e descoberta de sua sexualidade. É algo que é impossível aprender na teoria ou através de testemunhos alheios. Assim, qualquer classificação ou rótulo à sexualidade se torna um processo trabalhoso e às vezes inútil, pois cada indivíduo possui uma identidade sexual própria. E mesmo que exista uma classificação, esta pode ser distorcida e às vezes equivocada.

Entre os maiores equívocos em relação à sexualidade está o que aponta que todo homossexual é promíscuo e viciado em sexo. Não existe nenhum estudo que comprove este fato. Há entretanto uma cultura que acredita que este fato é verdadeiro, e muitas pessoas, incluindo alguns gays, lésbicas e bissexuais, acreditam que este fato é verídico. A promiscuidade não tem relação nenhuma com a orentação sexual, e sim com o comportamento do indivíduo, pois tanto existem homossexuais e bissexuais promíscuos como hererossexuais promíscuos, sendo que estes últimos são aceitos e os dois primeiros, não. Por termos uma cultura machista, a figura do homem viril, sexualmente ativo e promíscuo é aceita e até mesmo incentivada na puberdade pelos pais, inclusive.

Também acusam o homossexual de ser pedófilo. Há muitos casos de pedofilia envolvendo homossexuais, mas a maioria deles são de pessoas de idade e com a sua orientação sexual reprimida. Esses agressores também foram vítimas de uma sociedade que reprimiu sua sexualidade (não apenas no sentido de orientação sexual, mas também de comportamento sexual) e para ser aceitos, teve que bloquear seus desejos sexuais, mas provocando em si um efeito patológico de impulso sexual agressivo contra crianças. Claro que as origens da pedofilia se dão em um disturbios psicológicos, muitas vezes relacionados a possíveis abusos sofridos na infância. Mas este não tem origem na sexualidade do indivíduo, pois a maioria dos abusos comentidos contra crianças, as vítimas são meninas e os agressores, homens. Novamente o machismo entra nesta tônica por considerar um agravante o agressor e a vítima serem do mesmo sexo, enquanto praticamente banalizam quando são de sexo diferentes, até mesmo acusando a vítima de se “oferecer” ao agressor.

Outra questão a ser discutida é quanto a relação existente entre orientação sexual e identidade de gênero, que na prática, não existe. Apenas uma parte dos homossexuais não se identifica com seu gênero de nascimento (masculino ou feminino). Ainda existe uma crença de que todo homossexual masculino é efeminado e toda a lésbica é masculinizada o que é falso. Ainda existem pessoas com questões de identidade de gênero, mas que não se iniciaram sexualmente, o que comprova que inexiste relação entre identidade de gênero e sexualidade. Este é um dos tabus a respeito da homossexualidade que precisam ser quebrados.

O comportamento sexual aparentemente mais ativo entre a comunidade LGBT ocorre muito em virtude de uma cultura mais aberta e menos ligada a moralismos do que os grupos heterossexuais. Observa-se claramente uma maior dificuldade de grupos heterossexuais em conquistar pessoas para o sexo, frente a grupos homossexuais. No entanto, os relacionamentos estáveis tendem a ser mais duradouros e menos sujeitos a crises do que os relacionamentos heterossexuais, pois há um grau de conhecimento e cumplicidade maior entre as partes.

Em suma, somente observa-se os aspectos negativos da sexualidade para caracterizar o homossexual, porém observa-se que patologias sexuais não são exclusivas de uma orientação sexual, em maior ou menor grau. O que vemos é que relaciona-se o gay e a lésbica apenas ao comportamento sexual de forma deturpada e ofensiva, sem entender claramente que a pessoa homossexual é um ser humano igual às outras, com mesmos sentimentos e necessidades afetivas como qualquer outra. E por isso, não devemos rotular ou qualificar a sexualidade de uma pessoa apenas considerando sua orientação sexual.

PS: Importante salientar que relaciona-se a homossexualidade com as DST’s. O fato é que vemos aqui no Brasil uma queda entre homossexuais de incidência de DST’s, com destaque para a AIDS. Por outro lado, houve um aumento na incidência de DST’s entre heterossexuais. Ou seja, esta relação existente entre homossexualidade e DST’s é uma grande falácia.

Na parada: A igreja

Hoje iniciaremos uma série de artigos sobre a parada gay de São Paulo que ocorrerá no dia 26 de junho. E o primeiro artigo convida o leitor a debater sobre homossexualidade e religião.

Os grupos religiosos mais conservadores contestam a PLC 122 que criminaliza a homofobia no país. Segundo estes, a lei seria contra a liberdade de expressão religiosa, já que a doutrina religiosa prega a homossexualidade como um pecado e o homossexual um herege. De fato, há passagens da bíblia que atestam esta afirmação e que condenam o homossexual a ser tido como persona non-grata da sociedade cristã ideal. Entretanto, a própria Bíblia se for contextualizada e adaptada para os dias de hoje, nos mostra que a visão homofóbica de muitas entidades religiosas é distorcida e facilmente contestável.

O homossexual, o viciado, o mendigo e todos os marginalizados são hoje o que eram naquela época o leproso, o cego, a adúltera que também eram marginalizados e perseguidos pela sociedade. Agindo assim, os líderes religiosos que pregam a homofobia estão contradizendo os próprios princípios cristãos que defendem. Pois Jesus Cristo mostrou que todas as pessoas, sem distinção, podem ser cristãs aceitas e são dignas de compaixão e misericórdia.

Assim sendo, os conceitos cristãos elementares são a síntese dos conceitos humanos universais e ideais. Mas a distorção desses conceitos é o que faz com que muitas igrejas tenham esse papel segregatório. Observa-se uma leitura literal e não contextualizada das escrituras, e isto somado a termos líderes religiosos sem formação litúrgica adequada, os chamados obreiros e “Pastores de fundo de quintal”, que pregam a palavra de Deus sem conhecê-la plenamente. Também não há em muitos cursos litúrgicos um conhecimento apurado das escrituras e uma contextualização que promova um caráter inclusivo à religião. Sem dúvida, parte da distorção que equivocadamente relaciona homofobia e religião tem esse fato como uma das causas.

A história do cristianismo também ajuda a explicar a origem da homofobia em seu contexto filosófico. Quando o cristianismo surgiu, os cristãos pioneiros eram oprimidos pelos romanos que possuíam uma vida de orgias e o comportamento casto dos cristãos procurava se opor aos dos romanos. Além disso, havia uma necessidade de combater a superioridade numérica de outros povos por meio da procriação, que é a constituição de uma unidade familiar com numerosos descendentes. Esta política procriatória fez com que a população cristã crescesse em progressão geométrica e se tornasse a mais populosa do mundo antigo. Assim sendo, todo ato que não colaborasse com essa doutrina (a homossexualidade) era tido como transgressor e patológico. Hoje não existe a necessidade de procriação para o estabelecimento de uma doutrina religiosa, então por que a homossexualidade ainda é banida das igrejas? Por questão de controle. As igrejas mais homofóbicas são as que mais detém o controle e alienação sobre seus fieis. Um grupo se torna mais unido e disciplinado quando encontram um denominador comum, e a motivação é maior quando este denominador provém de uma possível ameaça. Isso alimenta o ódio como uma forma de auto-defesa e assim, os homossexuais passaram a ser tidos como inimigos da doutrina cristã, como método disciplinar de controle. Outra justificativa plenamente observável é de que a comunidade LGBT por ser marginalizada se torna vulnerável e frágil, e seria tecnicamente uma demonstração de força aniquilá-la.

Contudo, nota-se claramente um paradoxal comportamento que é cego e alienado. O comportamento nazi-facista destas organizações religiosas, as quais ferem até mesmo seus próprios princípios fundamentais em nome de poder e influência, disfarçados de moralismo, devem ser reprimidos com sabedoria e conhecimento. Se há em outras passagens das escrituras outros tipos de restrições que foram abandonadas pela comunidade cristã por não ser compatíveis com nosso modo atual de viver, por que então abandonar a homofobia e considerar a todos como filhos de Deus?