2020: o ano em que vidas importam

2020 está para chegar à seu final. Isso certamente com tudo que aconteceu, uma importante lição temos que tirar desse ano que foi muito triste, muito trágico, muito desolador. 2020 foi o ano em que aprendemos sobre a importância da vida. Não apenas a nossa vida, mas a vida dos outros que estão à nossa volta.

Começamos falando sobre os incêndios florestais. Primeiro na Austrália, depois na Amazônia e no Pantanal. A vida selvagem importa. Plantas e animais sucumbiram ao fogo causado direta ou indiretamente pela ação do homem: diretamente pelas queimadas e indiretamente pelo aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa lançados na atmosfera em meio a uma ganância industrial, cada vez mais impiedosa e feroz.

Depois veio a pandemia que paralisou o mundo e fez tombar pela moléstia milhões de pessoas em todo mundo. Dezenas de páginas diárias de obituários na Itália. Dezenas de covas abertas em Nova York, Rio de Janeiro, Manaus e São Paulo. Pessoas morrendo nas calçadas no Equador. Lockdown, distanciamento social, uso de máscaras, colapso no sistema de saúde ruas desertas, economias paralisadas, desemprego em massa, fome e miséria. Desde março, a pandemia nos impôs uma rotina macabra, onde tememos perder silenciosamente nossos entes queridos, pois a maioria das pessoas que sucumbiram tinham comorbidades ou estavam em idade avançada. Vidas frágeis importam.

Eu não consigo respirar. Foram as últimas palavras de George Floyd, um homem preto estadunidense que morreu estrangulado por um policial branco. A rotina da pandemia foi interrompida por uma série de protestos nos Estados Unidos com adesão maciça de grandes personalidades do entretenimento e do esporte, com destaque aos atletas de basquete da NBA. Em novembro, na véspera do dia da consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O debate da questão racial no Brasil ganhou força, pois sabemos que por mais que tentem provar o contrário, o Brasil possui embutido em sua cultura o racismo estrutural. No Rio de Janeiro, uma família inteira foi metralhada por ser confundida com traficantes apenas por serem negros. Uma mulher em São Paulo teve a cabeça presa ao chão com os joelhos de um policial. É corriqueiro um caso ou outro de racismo no Brasil e no Mundo, que inclusive fez com que o jogo de futebol na França fosse paralisado. Vidas negras importam.

Morta a facadas na frente dos filhos na véspera do Natal. A violência doméstica e o feminicídio também estiveram presentes esse ano. Também completou-se mil dias sem a resposta para uma pergunta inquietante: quem mandou matar Marielle Franco e Anderson, e por quê? Nessas eleições mulheres sofreram ofensas e injúrias apenas por serem mulheres e pleitear em um espaço que é legitimamente delas: o espaço onde elas quiserem ocupar. Mulheres assediadas e violentadas sexualmente, sem direito de defesa. Seja empresário, artista, políticos. Não importa a idade, nem menores de idade estão respeitando. Mais do que nunca, vidas femininas importam.

Cada vez mais LGBTs são agredidos. E as mulheres trans são as maiores vítimas. Os casos de transfobia cresceram esse ano e com a pandemia ficou ainda pior. Marginalizadas, e muitas tendo como a prostituição um meio de sobrevivência. Um grito de basta foi a eleição da mulher mais votada para vereadora no Brasil: Erika Hilton, uma mulher trans preta em São Paulo. Em Belo Horizonte, Duda Salabert, outra mulher trans, foi uma das mais votadas. Para vencer a opressão, é preciso ocupar espaços e denunciar as agressões. Vidas Trans importam, vidas LGBTQIA+ importam.

A tirania foi a tônica de governos de alguns países do mundo, que usaram a pandemia como álibi para impor ainda mais restrições as pessoas. A regra é simples: obrigações e negações de direitos para muitos e privilégios para poucos. A pandemia revelou a miséria e o desastre dessa política de exclusão e morte. Da negação da pandemia e a inação governamental, vemos um poder cada vez mais distante de quem mais precisa de sua ação. A democracia enfim, saiu do coma, impôs algumas derrotas aos tiranos. Caiu Macri, a proibição do aborto e a isenção de impostos para grandes fortunas na Argentina, caiu o golpe na Bolívia, caiu a constituição do Pinochet no Chile, e caiu Donald Trump nos Estados Unidos. A democracia no mundo respira. Vidas democráticas importam.

Este ano foi um ano em que nunca se viu antes o papel individual das pessoas no seu cotidiano. Com a pandemia, quase toda a população mundial teve que mudar o modo de vida e passou a ver o outro de uma forma diferente, mesmo que à distância. O isolamento social nos fez notar o quão estamos distantes uns dos outros, e o quão empáticos deixamos de ser. Vivemos sob um modo de vida em que somente aquilo que nos rodeia era tido como importante. Hoje vemos que aquilo que o outro faz pode sim nos afetar. Que uma irresponsabilidade alheia pode nos trazer sofrimento e morte. Que exemplos vindos de outras pessoas que até então idolatrávamos, podem nos dar um bom ou um mal caminho. Tudo ficou mais próximo, mais visível. O fogo que ardia na Amazônia trouxe chuvas de cinzas em São Paulo. O doente assintomático de covid, que pegou a doença em uma festa clandestina, passou a doença para seus pais e avós que não resistiram. 2020 nos impôs a necessidade de sermos protagonistas e corresponsáveis por um mundo que nos ensina a sermos mais empáticos e mais humanos. Vidas além das nossas importam.

O confinamento, o bombardeio de notícias negativas, o escárnio e o desdém de outras pessoas, a guerra digital nas redes e as perspectivas cada vez mais sombrias de um futuro próximo, testaram nossos nervos e nossas emoções. Nunca ficamos tão distantes e tão desolados, nunca choramos tanto, nunca fomos tão flagelados pelo isolamento social e pela distância que tivemos que nos impor para salvar as nossas vidas e as vidas de quem amamos. Nunca precisou-se tanto de motivos para sorrir. Nunca precisamos tanto de um cafuné, de um ombro amigo e de um colo para chorar. Nunca nos sentimos tão frágeis, tão indefesos diante de uma situação de calamidade. Nunca estivemos tão cansados, tão atordoados, tão insanos e desesperados diante de um cenário tão adverso. Quem passou por esse momento tão difícil, jamais irá esquecer a agonia dos dias de 2020. Quem perdeu entes queridos e amigos na batalha contra a pandemia jamais irá esquecer o quão doloroso é a vida se esvaindo pelos dedos. Neste fim de ano, as vidas que se foram se tornaram um tributo para continuar lutando e valorizando cada vez mais a vida. Pois hoje e sempre: a vida importa.

O babaca do ano

Está chegando ao fim o famigerado ano de 2020. O ano em que muitos de nós, seres viventes homo sapiens deste planeta Terra, não guardamos em nossas lembranças com muito carinho. Um ano em que fomos rasgados por uma pandemia, que adiou planos, que destruiu famílias, que trouxe dor, medo e incerteza.

E todo final de ano nós reunimos os cacos para saber o que é o joio e o que é o trigo nessa imensa balbúrdia. E simbolicamente destacamos e enaltecemos o que foi bom e o que foi ruim no decorrer desses 366 longos dias de 2020. Sim, amigos, este foi um ano bissexto, um dia a mais de um ano que se tornou torturante a partir de março.

Então é hora de prestarmos as nossas homenagens e para um ano tão estranho para os “padrões normais”, que instituimos a excêntrica honraria de eleger o babaca do ano.

Não faltaram concorrentes, porém nós temos que puxar o fio da meada pois os personagens, que figuram nas mídias e redes, mais babacas e infames de sempre, fizeram de tudo para conquistar tal honraria este ano, porém já são al concours. São pessoas que com a sua opinião fétida, seu discurso tóxico e suas ações absurdas tornaram esse ano ainda mais difícil para grande maioria desses seres humanos. mas esses personagens folclóricos do que há de mais perverso no âmago da humanidade não existiriam se não houvesse quem batesse palma para esses loucos dançarem.

Por essa razão tal honraria não pode ser oferecida a uma liderança dessa insana idiotice. Esse líder só existe porque há alguém que acredite nele. Por isso o prêmio de babaca do ano vai para você.

Você que não suporta o que é diferente, que não aceita o mundo com mais cores, com mais amores, com mais diversidade. Você que se agarra mais a crença do que aos fatos. Você que dá carteirada, que pergunta “sabe com quem está falando?”, O que usa seu poder para humilhar os outros, e que abdica do seu poder para se safar. Você que prefere filmar com o celular a tragédia do que tomar partido dela. Você que deseja fazer justiça com as próprias mãos, por acreditar que a sua “justiça” é mais justa do que a justiça das leis e dos homens. Você que não admite o erro, a falha, o defeito e some como se nada fosse contigo. Você que desconfia apenas por desconfiar, que olha o preto como animal, a mulher como lixo e o LGBT como piada. Você que vive pondo a culpa nos outros. Você quer um filho que foge à luta. Você que quer medir os outros usando a sua régua. Você que acha que o outro tem que morrer. Que todos têm que ser iguais a você. Que farinha pouca é meu pirão primeiro. Que tem que levar vantagem em tudo. Que segue a cartilha do ódio, usando a falsa e hipócrita fé como álibi.

Aqueles trastes que tanto tu críticas na verdade espelham daquilo que tu és. Se hoje nós vivemos envoltos a tamanha idiotice e insanidade, é porque muitos de nós procuramos nos espelhar naquilo que há de mais torpe e cruel, quando deveríamos nos espelhar naquilo que nos engrandece e nos torna humildes.

Todos nós assim acabamos por ser babacas. De um jeito ou de outro, pois olhamos cada vez mais para nós mesmos e esquecemos que existe uma palavra que precisamos praticar todos os dias para vivermos melhor com os outros: a empatia.

Rejeite o título de babaca do ano, mas dizer não, não basta. Precisamos repensar as nossas atitudes. Precisamos nos por no lugar do outro. Precisamos ser melhores sempre. Para que o prêmio de babaca do ano deixe de fazer sentido.

Nada mais além

Nada além de uma ilusão. Mas esta é uma ilusão real. Pois é uma realidade muito cruel para vê-la sem filtros. Nos arrastamos ainda mais fundo na alucinógena convicção, de que a verdade é algo que se apropria, de que deve ser confrontado com as “verdades” alheias, de modo que possamos triunfar sobre os outros através das crenças delas em nossas crenças.

Cada vez mais estamos isolados, sozinhos. Distantes, desnorteados, sem futuro, sem rumo, sem identidade, sem rosto, sem sentimento. Sem nada.

Somos migalhas amassadas pela dura realidade que nos destrói ainda mais. Somos miseráveis, compartilhando nossa própria miséria travestida de riqueza. Somos tolos, ostentando vantagens que não existem. Somos cópias inexatas e defeituosas de Dom Quixote, que veem gigantes em qualquer coisa, não apenas em moinhos de vento.

Enclausurados em nossas casas, o desespero é visto pelas janelas. Não pelo horizonte acinzentado de ruas cada vez mais fúnebres, mas pelo reflexo de nossas almas que vemos pelo vidro.

Nas ruas, o desatino de uma tragédia anunciada. Mais pessoas nas ruas, por necessidade ou descrença, contagiam não apenas o vírus, mas também a certeza de que dias de dor e sofrimento se avizinham.

São situações-limite. Se há um momento para aprender e amadurecer, que seja esse. Que possamos, com a ausência, a carência e o desatino, olhar o outro com mais empatia.

Que praças, parques e campos sejam novamente repletos de pessoas que se respeitem e se tolerem.

Que o vazio dos lugares também esvazie, em nós, o rancor.

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Confira esta postagem… “Cultura e entretenimento no Brasil sob risco por Covid-19”.

Em meu blog de opinião, abordei sobre como a Covid-19 está afetando a indústria cultural e de entretenimento no Brasil.

Confira em: http://kazzttor.blogspot.com/2020/04/cultura-e-entretenimento-no-brasil-sob.html

Vencer é se tornar indestrutível

Sempre tenho algumas músicas que me fazem chorar. Recentemente adicionei três músicas a esta playlist: Wild wild son de Armin Van Buuren, AmarElo de Emicida, e Indestrutível de Pabllo Vittar. E falar sobre resistência é falar sobre sua hipérbole, ou seja, sua indestrutibilidade.

Nunca uma agressão, seja ela moral, física, social ou outra, é desferida a esmo. Por mais torpe a razão em agredir, sempre há uma razão. E hoje, com uma sociedade ultra competitiva, com também um excessivo número de nivelamentos, certamente para manter uma condição de desigualdade, a gente vê, sobretudo em zonas de competição mais acentuadas, as feridas deixadas por grupos que usam de rasteiros e ardilosos procedimentos para tentar tirar do páreo pessoas. E o alvo sempre são aqueles aos quais são estigmatizados, os que não pertencem a um padrão moral culturalmente imposto, de acordo com a cor, credo, posição política, gênero e identidade de gênero, origem geográfica, sexualidade, presença de deficiência, idade, fisionomia, e outros, e sempre serão de uma forma ou de outra, vistos como estranhos para aqueles que se ‘enquadram’ nesse padrão, discriminados, marginalizados agredidos e excluídos.

Quem é alvo do ódio alheio, sabe o quanto é doloroso sofrer com a exclusão, a ofensa, a agressão e o desrespeito sofridos. Mas o intuito de agredir, nesses casos em sua maioria, é esse: engrandecer moralmente o agressor e diminuir o agredido. Isso é muito comum e não é e ontem, e vivi isso em meu início de vivência escolar. E isso na época em que bullying não era tratado como tal, mas sempre esteve presente no ambiente escolar. E pensando bem nas pessoas que praticavam o bullying contra os colegas, inclusive contra mim, uma característica tinha em comum neles: a convicção de sua superioridade e a sensação de onipotência, ou seja, crêem que pode tudo e que são melhores que os outros. Mas como essas características estariam presentes em garotos e garotas de 8, 10, 12 anos? A resposta? Podem ter sofrido influência familiar, seja por omissão, ou por incentivo direto. Nas reuniões de pais, o perfil de alguns pais desses alunos era parecido no tocante a superioridade, e grande protecionismo. Não impunham limites. E este tipo de comportamento é o que se vê hoje, em muitos adultos que usam a rede social para impor seu ponto de vista: com ar de superioridade e sensação de onipotência, usam desse modus operandi para tentar forjar uma superioridade moral a quem oprime. Mas isso só funciona se a pessoa agredida acusar o golpe. Só dá certo se a pessoa sai da sala, se capitaliza e sucumbe a agressão sofrida. Pois a intenção do agressor é essa: expulsar os dissidentes para legitimar seu ponto de vista. O processo de bolha que a rede social se tornou potencializou pontos de vista, e até vejo um processo de impulsionamento pago para promovê-los, abrindo uma temível caixa de Pandora de preconceito e ódio. Antes isolados, pessoas com pontos de vista racistas, fascistas, machistas, lgbtfóbicos e outros, ganharam voz, espaço e meios de se organizar. E episódios de agressão, com grande quantidade de ataques nas redes sociais, se tornaram mais frequentes.

Aprendi que a piada perde a graça quando ninguém ri. Assim como a agressão se torna inócua, quando o agressor não consegue oprimir o agredido. A isto, a palavra resistir é a palavra de ordem para combater o ódio. Quando se leva um golpe e resiste, o agressor pensa que não foi forte o suficiente. Mesmo tentando agredir mais e mais, se houver resistência, o agressor se sentirá agredido, pois vê que quem está agredindo não se deixa abater pelos golpes. Ou desiste, ou tenta agir covardemente. Mas de qualquer forma o agressor fica exposto, fica em evidência seu ódio, sua conduta que é a exata antítese do que se espera de uma pessoa sociável. Já aconteceu comigo, e o fator resistência foi importante para adquirir o respeito e aqueles que me desrespeitavam e tiveram que a contragosto me respeitar. Os haters ainda existem, mas se resistirmos, eles enfraquecem. E não devemos aguentar o ódio calados, nem sozinhos. Precisamos fazer cumprir o pacto que fizemos no fim do ano passado: “Ninguém larga a mão de ninguém.” E nos fortaleceremos. E os haters que lutem! Mas saibam que irão perder.

Segredos que não contamos aos nossos pais

Quando a gente é criança, nosso universo sempre é restrito por nossos pais. Sempre curiosos, temos nossos anseios de curiosidade do universo adulto frustrados pelas negativas de nossos pais, que sempre alegam que era cedo demais para sabermos ou conhecermos aquilo que despertava nossa curiosidade e eles consideravam imprório.
Quando crescemos, a lógica pode se inverter. Os pais, preocupados com o futuro de seus filhos, muitas vezes querem saber um pouco do universo que eles vivem e o qual não tem o pleno acesso. É pouco ou nenhum diálogo, quando segredos são escondidos.
Quando criança, eu tinha muita curiosidade sobre as coisas. O universo que víamos na televisão era quase sempre adulto e isto nos impunha uma exposição precoce a temas adultos como sexo, violência, e política, e por sermos pobres, livros e brinquedos não tínhamos, fazendo com que a televisão e às vezes, o rádio, monopolizassem nossas fontes de entretenimento.
Isto, evidentemente, nos colocou em uma precocidade, coisas de adulto presenciamos e até mesmo fizemos, como, por exemplo, beber cerveja. Crescemos e aprendemos a tornar adultos mais pela prática dos erros do que pelas teorias transmitidas por testemunhos alheios ou pela educação formal.
E diante dessas experiências, nosso universo social vai além da estrutura familiar, até mesmo formando uma espécie de universo paralelo, onde a família não faz parte.
E é neste universo, onde se guardam segredos que dificilmente revelamos aos nossos pais.
E é aí, que começa as histórias de dois de muitos segredos, os quais irei revelar nessa publicação. O primeiro segredo é que quase morri afogado em 2008, em uma confraternização em um hotel-fazenda.
Era a comemoração do dia do professor e o primeiro salto meu na piscina foi no lugar errado, onde era mais fundo. Desesperado, debati na água e em seguida apaguei embaixo d’água. Acordei minutos depois à beira da piscina, grogue. Falaram para mim que por muito pouco não tinha morrido. Menti para meus pais, ao dizer que tinha passado mal. Fiquei internado no hospital, tendo alta no dia seguinte.
O segundo segredo aconteceu ontem. Uma pessoa com quem tive relação revelou para mim que estava com sífilis. Ao fazer o teste rápido o resultado para sífilis foi positivo. Fiquei por cerca de um mês no aguardo da contraprova que pode confirmar a doença, ou até mesmo identificar que meus anticorpos eliminaram a bactéria da sífilis no organismo. Ao conversar com outras pessoas que me relacionei após essa pessoa infectada, me disseram que fizeram exames recentemente e que estão sem a doença. Pode ser um sinal de que apenas tive e meu corpo se encarregou de resolver a questão. Mas tenho que aguardar a confirmação. A confirmação veio e confirmou-se que apenas era uma cicatriz imunológica. Fiquei aliviado. Foi apenas um erro. Um vacilo que não revelei a meus pais.

Isso já fez um ano.

Mas quando não aprendemos com os erros as circunstâncias da vida nos fazem aprender. É como se fosse a fase de um jogo: você não passa se não superar, e se insistir no erro, perde o jogo. No jogo da vida, perder o jogo é morrer. E diferentemente do videogame, se perder, não tem volta.

Pois a história se repetiu. Um ano depois, uma outra pessoa com quem tive relação disse que estaria com sífilis e HIV. O desespero me abateu quando notei manchas no corpo. Fui no médico e ele suspeitou de sífilis, no mínimo. O medo do pior era real. Consegui uma consulta com uma infectologista. Fui sincero, ela compreensiva e tranquilizadora. Fiz novamente os exames de sangue. Não era HIV, mas era sífilis. E antes mesmo do resultado dos exames já comecei a ser medicado. As picadas das doses de Benzetacil só não eram mais dolorosas do meu arrependimento por não ter aprendido com meus próprios erros. E hoje, ainda em tratamento, tenho uma dívida com aqueles a quem agi irresponsavelmente, mas com aqueles quem me tem por exemplo. Muito aconselhei e pouco agi a contento.

É o momento de agir com mais responsabilidade. É tempo de crescer e amadurecer. E isso todos precisam saber, não se deve guardar mais segredo.

Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Homem não faz milagre

Eu já vi propaganda a beça. Há muita oferta de soluções milagrosas para males possíveis e impossíveis de solução. Sempre vem um e se ilude. Acredita no milagre que é oferecido, mas mesmo que se obtém um resultado prometido, ele vem com um preço, uma conseqüência, ou uma perda.

Se prometem o corpo sonhado, a beleza plena, mas ou você tem que prejudicar sua saúde, ou colocá-la em risco, ou gastar rios de dinheiro, ou se tornar escravo de seu próprio desejo.

Prometem-se potência sexual, mas ao custo de se envergonhar por ela, ou arruiná-la de vez.

Vende-se diplomas, ao custo da estupidez e do erro.

Vende-se riqueza ao custo da honradez, da honestidade e da própria liberdade.

Vende-se a verdade, que não passa de mentira.

Vende-se a palavra, para se obter a injustiça.

Vende-se antidepressivos que podem levar ao suicídio.

Vende-se a sensação perene de felicidade, em troca do vício.

Vende-se o erro, para forjar o certo.

Vende-se a informação, para produzir desinformação.

Vende-se o conhecimento para produzir ignorância.

Vende-se a fé, para gerar a descrença.

Vende-se um padrão, para produzir discórdia e desigualdade.

Vende-se honestidade para travestir o desonesto.

O fato é que tudo o que se vende como solução definitiva e imediata não passa de farsa.

Aprendi com as idas e vindas da vida que tudo se resolve com tempo e esforço. Não é de uma hora para outra que se encontra o final feliz de nossos dramas. Vi muitas mudanças radicais, advindas do tempo, senhor da razão, ou da ação, do sacrifício e da intensa luta. E quando há luta intensa, sempre traz consigo perdas significativas, que só se curam com o tempo. O tempo é o principal ator, mas não pode ficar sozinho.

Aquele que manipula o tempo, sofre, cedo ou tarde com as consequências de sua manipulação. O tempo cobra o preço do atraso ou do indevido adiantar.

Quando vejo pessoas dizendo que tudo vai mudar com Bolsonaro, eu não sei se rio, se tento convencer, se tento dissuadir ou se simplesmente ignoro.

Mas entendo que se iludir com a solução imediata pode parecer incrível, mas é muito comum. Somos bombardeados por propaganda todos os dias, prometendo tudo. Até mesmo o que não parece propaganda, é de fato, e um dos elementos da velha propaganda é a manipulação das informações, a mudança do viés, e até mesmo a mentira, e a omissão da verdade.

Ele promete uma solução imediata para todos os problemas, com palavras voluntariosas e palatáveis aos ouvidos leigos.

Mas os problemas que afligem os milhões de brasileiros, não surgiram ontem, como se fosse um surto endêmico. Foram anos e anos de desigualdade, séculos e séculos de questões mal-resolvidas, que impedem de nós enxergarmos o Brasil como uma nação fraterna de irmãos e iguais. Questões que ele ignora, que trata com descaso, e somente aborda termos vendidos nos jornais, revistas, rádios e televisões, cujos donos são aqueles que querem, coincidentemente, monopolizar a opinião pública com as questões que ele defende resolver.

Ele fala o que as pessoas ouviram na mídia e propaganda como verdades absolutas, mas não são tão verdadeiras e ocultam as verdadeiras lacunas que precisamos resolver.

A verdade é que entendo a verdade que me cerca e também a concretização da barbárie quando ele se eleger.

14 anos de governos petistas criaram uma nova percepção de Brasil. Tanto que durante o curto governo Temer, foi evidente o contraste e o quão necessária a consciência e participação política das pessoas, não apenas no período eleitoral.

A eleição de amanhã será, na prática, um plebiscito: se abdica da democracia, ou entra nela de vez.

A publicidade clássica de Bolsonaro, amplificada pelas mídias sociais e WhatsApp, pode coagir o povo brasileiro a abdicar de seu direito democrático. É o apelo e o alerta daqueles que não foram hipnotizados por sua propaganda. É o apelo de muitos que ignoraram o risco que Bolsonaro representa, mas que acordaram a tempo. Mas também é o apelo daqueles que sempre estiveram atentos e lutaram contra a artimanha opressora do midiático.

Esta eleição configura o maior movimento pela democracia desde 1984. E esperamos que o desfecho seja diferente, daquela ocasião, onde o desejo se viu frustrado por uma manipulação política. Da mesma forma que o povo ansiou naquela época, hoje possa, ao exercê-la, manter seu anseio democrático.

Arma

A arma estará na mão do motorista. Que fechou o seu carro na grande avenida.

A arma vai estar na cintura do homem. Que assedia a mulher na festa, mulher que pode ser sua amiga, sua filha, sua namorada, sua esposa.

A arma pode estar na casa do homem de bem. Cujo filho sofreu bullying na escola. Cuja filha está deprimida. Ou do desesperado porque perdeu o emprego. E também estará em casa quando o bandido do mal for rouba-la.

A arma pode estar no porta-luvas. Do carro do homem que não admite o fim do relacionamento.

A arma pode estar na fazenda. Improdutiva, cujo fazendeiro usará para se “defender” dos camponeses, que não concordam com o jeito com que o fazendeiro distrata a terra.

A arma pode estar com o grileiro. Que vai atirar em tudo o quanto for bicho vivo. Até gente. Até índio. Até satisfazer sua cobiça por terra. Que nunca acaba.

A arma vai estar com o rico. Só estará na mão do pobre honesto, quando desfalecido, para justificar o erro da abordagem policial.

A arma sempre estará na mão de quem quer impor respeito. Sempre estará na mão de quem oprime. Sempre estará na mão de quem não quer de verdade se defender. Pois nem sempre a melhor defesa é o ataque.

A arma é o poder através da violência. A arma nunca será o objeto da paz. E aquele que quer a paz, não se arma de armas, e sim de ideias, de soluções e de diálogo.

Aqueles que tolamente crêem na arma como objeto de pacificação um aviso.

Também morre quem atira.

Sozinhos não estamos

Eu hoje em minhas andanças, no vagão do metrô, uma senhora que estava à minha frente elogiou a minha camiseta. Estava estampada uma charge da personagem Mafalda de Quino. Nela estava escrito “Sim às democracia! Sim à justiça! Sim à liberdade! Sim à vida!” Ela elogiou minha coragem por conta do momento tão nebuloso que atravessamos. E se emocionou. Também fiquei comovido, não apenas com a nossa conversa, mas porque por tudo o que passamos e tememos, vemos que não estamos sozinhos.

Ela me falou sobre um movimento de meditação em busca da paz. Precisamos de paz e também de coragem para continuarmos resistindo ao mal que sufoca a razão e a solidariedade que deveríamos ter.

Nesses oásis de humanidade em um deserto de ódio. Só o fato de não estarmos sozinhos nos fortalece. E nos traz um pouco de alento.

Sozinhos não estamos.

Temor e medo

Agora há pouco escrevi em meu outro blog sobre a eleição de 2018 (clique aqui para ler). E aproveito o ensejo aqui, que tenho um pouco mais de liberdade, para bancar o futurólogo. Tive um dia desses uma espécie de premonição e vou compartilhar com vocês a impressão que tive.

Caso Haddad vença a eleição, o seu mandato será muito similar ao segundo mandato de Dilma, com o agravante de que o congresso que irá enfrentar é muito mais reacionário que a atual magistratura. Será preciso uma grande articulação política e um poder de negociação bastante elevado para levar o mandato até o fim, inclusive tendo que permitir que uma parte da agenda imposta pelo atual congresso. Do contrário, a tensão se elevaria e um escândalo novo iria levar Haddad para um impeachment, ou mesmo uma cassação da chapa, já que sua vice é Manuela Dávila, e teria os mesmos problemas de Haddad para governar o país. Uma possibilidade de golpe militar não estaria descartada.

Já com a vitória de Bolsonaro a situação seria de sintonia boa entre ele e o congresso, mas não dele com o povo. Paulo Guedes é neo-liberal, e o neo-liberalismo para um país extremamente desigual como o Brasil é fatal. Empresas estatais seriam privatizadas, como a Petrobrás, os Correios, e o Banco do Brasil.

Desestatizar é reduzir as receitas do Estado e concentrá-las no recolhimento de impostos. Mesmo com uma receita extraordinária, as contas públicas tem crescimento, tanto pelo fator inflacionário, como pelas necessidades do Estado em se manter, o que consumiria esses ganhos. Isso fora o déficit público. Rio de Janeiro e Minas Gerais estão em uma situação de bancarrota, fora outros estados que não conseguem investir ou mesmo manter suas contas em dia. O governo federal precisa socorrer esses estados, e recursos vão ser utilizados. O Estado menor se endivida mais rapidamente e se torna dependente do mercado. O grande filão dos mercados são as dívidas soberanas nacionais. Quanto menor e menos transparente for o país, mais títulos precisa emitir para manter suas contas e quanto menos confiáveis, maior a taxa de juros. Estatais estratégicas são importantes fontes de receita. Com os royalities do pré-sal, por exemplo, o governo poderia ter receita suficiente para bancar um aparato social que reduziria basicamente a desigualdade social. Não a toa que o foco da operação lava-jato foi a Petrobras. O intuito não foi limpar a estatal, mas destruí-la para que o pré-sal fosse entregue quase de graça às empresas petrolíferas internacionais.

Com o recolhimento de impostos e a necessidade de manter o país atrativo ao investimento, a política tributária continuaria inalterada, com benefício aos ricos e prejuízo aos pobres. Na agenda do trabalho, a “solução” de Bolsonaro para o desemprego é a desregulação das relações trabalhistas, o que precarizaria o trabalho e diminuiria ainda mais a renda média do brasileiro. Com salários menores, o brasileiro irá consumir menos e o impacto que deveria ser positivo, se torna negativo, com recessão e volta do desemprego, pois com relações de trabalho mais fracas, fica fácil o desligamento. A economia informal cresceria, e a marginalidade também, aumentando a violência.

A política armamentista de Bolsonaro também torna-se um agravante, pois com a flexibilização do estatuto do desarmamanto, haveriam mais armas em circulação. Porém como há uma burocracia para o porte de armas, somente pessoas com maior poder aquisitivo teriam acesso a armas, tanto em ambiente urbano quanto rural. Isso aumentaria os conflitos no campo, voltando a ter risco de assassinatos de líderes rurais, e massacres. A atuação da polícia seria valorizada, mas a ausência de uma política de preparação de policiais aumentaria a violência policial. Pessoas pobres e negras da periferia tombariam com tiros disparados por armas de policiais. O clima de medo voltaria a reinar nas ruas, tanto pela violência da marginalização da população excluída pelo plano neoliberalista, como pela violência policial. O toque de recolher nas ruas voltaria.

O controle da mídia será com a priorização da Band e Record, grandes aliados dos evangélicos por ceder horários em sua programação para igrejas, e a Globo teria menos espaço na TV aberta, mas não seria incomodada, pois na TV Fechada ainda teria posição hegemônica.

Os direitos humanos seriam constantemente desrespeitados. Há uma grande quantidade de pessoas conservadoras na nova magistratura, o que seria um risco para a pauta progressista. Pode ocorrer a votação dos famigerados projetos de Estatuto da Família, que tornaria ilegal o casamento homoafetivo, e o Escola Sem Partido, que implantaria uma mordaça aos docentes das escolas do país, tanto na questão política, quanto no combate a homofobia, além de tornar o aborto proibido sem excessões. Aumentariam os casos de homofobia, feminicídio e racismo, pois além da legislação, o discurso das lideranças traria legitimidade aos atos de ódio. O Brasil também vai desrespeitar o meio-ambiente, com o afrouxamento de regras para uso das reservas naturais e enfraquecimento da fiscalização de crimes ambientais, por pressão da bancada ruralista.

A insatisfação se elevará, e muitos dos que votaram em Bolsonaro, deixariam de apoiá-lo. Mas com o apoio do congresso, não seria incomodado. Também poderão surgir casos de repressão a sindicatos e movimentos sociais. Poderão até ter vítimas.

Com a insatisfação, Bolsonaro irá tentar uma nova cartada: o conflito armado. Se estabeleceria um inimigo, interno ou externo. Se for interno, seria decretada uma guerra civil, e se externo, seria escolhido um país, como a Bolívia ou, o mais provável que seja a Venezuela. Um conflito armado é uma jogada de altíssimo risco, tanto na imagem externa, interna, perdas civis, perdas financeiras e instabilidade social e política. Haverá agitação popular e a popularidade pode se deteriorar rapidamente, pois o efeito é de bomba de fumaça, ao tentar criar um problema para resolver outros. E a miséria iria assolar o país de vez.

Um golpe para manter Bolsonaro no poder não seria descartado. A instabilidade social e política poderia gerar deserções na sua base, afinal, é preciso ter apoio popular para continuar deputado.

Se houver eleição em 2022, poderá ser a virada da esquerda, ou sua aniquilação total. Haverá campanha mais agressiva da extrema esquerda, pois se houver uma primavera esquerdista, tudo o que for feito seria desfeito, além de garantir um longo período de governos progressistas.

Eu, sinceramente, gostaria de estar errado. O terror e o medo estão cada vez mais presentes. Serão anos difíceis, e espero que sejam curtos, apenas 4 anos mais.

Pensamentos de minhas andanças

Uma das lembranças mais remotas de minha infância era quando minha mãe me incentivava a andar dizendo “Dandá pra ganhá tentém” que significa andar pra que nasçam os dentes. Talvez seja por essa razão que tenha o costume de realizar longas caminhadas ou de fazer boa parte de meus deslocamentos a pé.

Tanto que estabeleci um compromisso de caminhar diariamente no mínimo 12.000 passos, ou aproximadamente 8,5 km de andanças. Segundo a OMS, 10.000 passos diários são suficientes para dizer que essa pessoa é fisicamente ativa.

Eu desde adolescente costumo caminhar bastante. Eu fazia duas, três e até quatro voltas pelo bairro, que quando eu as refaço com o pedômetro do meu relógio, dão um percurso aproximado de 4 km. Entre minhas andanças, eu via a paisagem, os locais, e mesmo o abandono de locais públicos de esportes, que poderiam servir para manter pessoas de todas as idades em plena atividade física.

Nem vou citar os benefícios de um hábito de não ficar parado, pois são tantos estudos que comprovam isso, que uma rápida pesquisa no Google lhe dará a motivação necessária pra pular da cadeira.

Mas quero voltar a falar das minhas andanças. Eu quando pequeno, era chamado de Bubu. Mas não era um apelido tão carinhoso. Era uma redução da palavra “butijão“, pois quando era pequeno, era gordinho e parecia um botijão de gás. Naquele tempo, era comum esse tipo de ‘piada’, que hoje podemos ver como bullying, ou como algo ofensivo. Naquele tempo, você não poderia ser gordo pelos riscos a saúde, mas sim porque era feio e ridículo.

Hoje sabemos dos riscos da obesidade, mas da excessiva. Uma pessoa com obesidade leve pode viver uma vida normal, sem neuras. Pode praticar esportes, pode namorar, pode ser querido e amado por todos, e principalmente ser respeitado.

Podemos viver em plenitude, curtindo as andanças e gozando uma qualidade de vida melhor. Enquanto escrevia isso eu fiz mais uma caminhada, e hoje já fiz mais de 6.000 passos, percorrendo mais de 4 km. E ainda é meio-dia.

A realidade

Há certos momentos em que a realidade se mostra implacável.

Às vezes tenho o privilégio de poder pensar com meus botões, fechar os olhos e deixar certos aspectos da realidade de lado, pois são às vezes tristes e desanimadores. Mas os olhos precisam se abrir em um certo momento e a realidade está lá, tal qual o horizonte que vislumbra sua janela todas as manhãs.

Se o vermos essa realidade com olhos tristonhos, vamos ver uma paisagem triste. Mas, se ao menos um detalhe dessa paisagem for motivador, aí o dia já estará ganho. E ainda a gente pode limpar nossa vidraça, ou ajudar o vizinho a arrumar o jardim descuidado, embelezando assim, o nosso horizonte.

Isso pois vemos o nosso universo como algo imponderável, que não podemos mexer, e que fatalmente nos tornamos reféns do destino que nos reserva.

Quando na verdade é o contrário.

Somos todos agentes de mudança. Entendo a realidade sob um foco sistêmico, em que somos parte dele. Tudo o que fizermos, de bom, ruim, e até mesmo na inação, trará reflexos sobre o universo que nos rodeia. Isto implica no seguinte: se não estamos satisfeitos com a realidade, teremos que fazer por onde para mudá-la, sempre entendendo nos reflexos das ações praticadas por nós, para que as consequências de nossos atos não apenas propiciem benefícios para nós, como para o universo da qual fazemos parte.

Tendo essa consciência, passamos a ser agentes de mudança em vez de vítimas das mudanças ocorridas. E qualquer ação, como a minha de escrever ou a sua, de ler esse texto até o final, são parte desse processo.

Vamos mudar a realidade, generosamente, para melhor?

Fitas verde-amarelas

Ao voltar pra casa, me deparei com as ruas ainda enfeitadas de fitinhas verde-amarelas, mesmo após a triste despedida de nossa seleção brasileira desta copa do mundo.Os céticos ficariam perguntando qual a razão de tamanha perda de tempo e de recursos, sabendo que a chance de uma glória brasileira na copa do mundo é de cerca de 1/32 ou cerca de 3%, e que, psicologicamente tende a se esvair a cada fase, dada a dificuldade, ao contrário do que o avanço a cada fase se traduz, em termos matemáticos.Talvez estes céticos não entendem o poder que a esperança e a ilusão nos oferecem, em termos presentes e também futuros. Mesmo jogando com o aleatório e o incerto, ao nos iludir, vemos uma realidade mais próxima do que somos e do que desejamos para nós. Vemos o mundo sob outro prisma, mais colorido e entusiasmado, com mais vigor, com mais luz. E isso é contagiante. Parece estranho, mas aplicamos essa mesma visão esperançosa a nossos atos, acordamos mais dispostos, impomos a nossas ações a mesma energia a qual acreditamos e depositamos nossa torcida.Ao fantasiarmos nossa realidade, a testamos, e assim testamos nossos limites, testamos nossas possibilidades e, assim, evoluímos. O que seria do espetacular, se não imaginarmos o impossível?E até mesmo no desatino da derrota, a ilusão, sob a forma de desilusão, se faz presente, como forma de entendermos que vivemos em um universo com limites, e que estes nos balizam. A decepção do imponderável, pode se tornar a pedra angular da mudança, quando visto com olhos sábios.Sei que amanhã ou depois, as fitinhas não mais estarão nas ruas. Que as bandeiras do Brasil não mais irão enfeitar as janelas e varandas. Mas deste dia, eu vou continuar lembrando.Pois mesmo depois da noite triste, sempre haverá um amanhecer.

Não somatizarás teu sofrimento

Em minha franca vida já chorei muitas vezes. Incontáveis vezes. Já chorei sem motivo é também por motivos bobos. Já chorei escondido, já chorei na frente dos outros, mas nunca consegui me ver chorando, apesar de ter tentado algumas vezes.

Hoje não choro com tanta frequência. Pelo menos fisicamente. Um misto de resignação e tristeza costumam preencher o vão existente deixado pela impossibilidade de chorar. Ao não conseguir externalizar o que se sente, temos um sintoma de que esteja se habituando a somatizar seu sofrimento, a ponto de essa ação se tornar involuntária.

Ao meu ver, somatizar significa tentar absorver rapidamente uma situação traumática ou desfavorável. Porém isso implica em engolir o choro, e mesmo sofrendo, tentar seguir adiante. Uma das necessidades que construímos em um mundo de sociedade moderna é o da reputação social, e chorar, sofrer, acusar o golpe sofrido, é sinal de fraqueza. Mas em um mundo cada vez mais competitivo, é exigido de nós cada vez mais coisas a ponto de ser quase impossível darmos conta de tudo.

Nos deram os trabalhos de Hércules, mas não nos deram o dom de sermos semideuses.

E diante dessa impossibilidade, aparentar ser forte é uma saída para, pelo menos, se ver aceito por uma sociedade cada vez mais exigente. Se as mulheres de Atenas não precisam honestas, elas devem parecer honestas. E muitos de nós conseguimos ser amélias atenienses, porém somatizando, absorvendo toda a carga pesada e dolorosa que nos põem em nossas costas.

Somatizar é danoso. É um veneno que sufoca nosso corpo, nossa mente e nosso espírito. Torna o corpo tenso, faz com que apliquemos uma força descomunal contra nós mesmos, para que o desatino que recebemos simplesmente suma dentro de nós mesmos. E isso traz reflexos, estressa nosso corpo e mente, tira nossa sensibilidade, pois a mente transforma a somatização em um hábito. E por consequência, fragiliza o corpo, reduzindo nossas defesas naturais, nossa força, fazendo-nos cada vez mais sedentários e assim sujeitos a mais doenças, como ansiedade, depressão, problemas de hipertensão, coronários, AVC, diabetes, obesidade e por fim, a morte.

Não devemos somatizar nosso sofrimento!

É preciso fazer como os chineses, que quando notam algo de ruim no corpo, tem que expulsá-lo. Rancor não se guarda, ranço também, nem trauma, nem ódio, nem farpas, nada que te cause dor precisa ficar no seu corpo e na sua mente.

Grite! Chore! Meta o louco! Dê perdido! Respire fundo, deixe esse sangue ruim sair do corpo, para que o sangue novo preencha seu lugar. Não precisa fugir para um lugar distante, basta sintonizar-se consigo mesmo no seu quarto.

Só você e Deus, ou a divindade que põe sua fé.

Não devemos esquecer de nossas prioridades, que muitas vezes esquecemos. Muitas vezes damos valor a coisas sem importância e esquecemos de coisas realmente importantes como nós mesmos.

Nessas horas que nos sintonizamos, e que buscamos nos desintoxicar dos males que o mundo nos causam, é que devemos nos recordar das nossas prioridades, devemos resgatar nossa humildade, de que não somos heróis ou semideuses, de que somos seres humanos, que riem, choram, agem gozam e sofrem os momentos de nossas vidas.

Se eu quiser falar com Deus.

Toda vez que começa essa música de Gilberto Gil, mas com a interpretação emocionante de Elis Regina, sou tomado por uma emoção enorme. É sugestiva a letra, pois para entrarmos em sintonia com Deus (ou com nós mesmos) precisamos ser autocríticos e para isso, exige-se franqueza e humildade extremas.

E assim, poderemos chegar ao nada, como diria a letra da canção. Nada daquilo que esperávamos encontrar.

Palavras ao vento

Havia muito tempo que não passo por aqui para escrever alguma coisa. Parece que neste momento estou pagando uma dívida comigo.

Diferente de outros costumeiros escritores, a velocidade de meus dedos não é tão veloz quanto a de meu pensamento. Muitas palavras acabam passando desapercebidas por entre meus dedos e acabam ficando de fora da tela.

Mas hoje é um pouco diferente. A mente também está lenta, vazia de ideias. Minha inquietação e impaciência se dá pela inspiração que não vem, ou quando vem, não consigo captá-la para os meus textos. Isso me atormenta e me aturde.

Vivemos sobre tempos sombrios. Todo o cálice de dor temos a impressão de ter bebido. E tal sofrimento nos castiga, mas a cada golpe a nós imposto, acaba calejando nossos corpos mentes e almas. Nos tornamos cada vez mais insensíveis, menos empáticos e menos receptivos aos outros. Nos isolamos a ponto de nos ilharnos num oceano de incerteza, medo e ignorância.

Tento a todo custo resistir a todo o mal que me cerca, mas a esperança vai desvanecendo a cada revés. Com olhar resignado, sigo meu caminho, mesmo não sabendo qual o seu destino e a quantos estamos indo.

São palavras que o vento leva. Palavras que expressam a esperança de ter esperança. Tentar pintar uma cor onde houver uma paisagem cinzenta.

Marielle e Madalena

Uma notícia me pungiu de dor. Marielle foi morta. Uma mulher de fibra, de favela, do povo do Rio, uma lutadora guerreira. Isso me lembrou de Madalena.

Madalena, foi acusada de adultério. Estava prestes a ser condenada, mas um profeta de Nazaré, mostrou a aqueles que a perseguiam que todos somos iguais em virtudes em defeitos. E que o ódio os condenavam. Isso me relembrou Marielle.

Marielle ousou defender o povo humilde, criticou a intervenção de segurança do estado do Rio, denunciou a violência policial, foi a antítese do senso comum do povo da periferia e da favela: formada na universidade, não se dobrou ao crime organizado, nem se contentou em ser lacaia de uma sociedade brasileira patriarcal, elitista e excludente. Isso me fez lembrar novamente de Madalena.

Madalena teve sua história amputada pelo cristianismo. Sua história não se resumiu a apenas um episódio. Há evangelhos apócrifos que descrevem Madalena como apóstola. Uma liderança feminina e lutadora que não seria admitida em um universo em que o homem sempre foi líder. Isso me lembrou Marielle.

Pois querem covardemente amputar sua história, com omissões e mentiras. Omitem que ela tem uma companheira, e que é militante feminista e LGBT. E mentem quando dizem que ela tinha relação com o tráfico, que foi eleita pelo comando vermelho, que foi mãe adolescente.

As pedras de ódio que não atingiram Madalena foram os tiros que atingiram e mataram Marielle.

O ódio e a insanidade são as regras invisíveis que regem nossa sociedade. Atos covardes praticados de humanos contra humanos por egoísmo, vaidade e insensatez.

Madalena representava tudo que naquela época, era a mudança necessária que rejeitavam.

Marielle representa tudo o que hoje precisamos mudar para que possamos nos ver como iguais.

Poderíamos ser todos Madalenas e não fomos. A história nos deu outra oportunidade. Sejamos todas as pessoas Marielles.

Marielle vive!

Marielle, presente!

Hoje não é dia de parabéns

8 de março. Dia internacional da mulher. Parabéns???

Não. Dar parabéns a mulher por seu dia de luta contra a desigualdade de gênero é no mínimo, deboche. Afinal, ainda estamos muito longe de essa data marcante em nosso calendário deixar de fazer sentido.

Apesar de a maioria da população brasileira ser feminina, ganham menos, mesmo com média de escolaridade maior, sofrem mais com a crise, pois são as preferidas a ser dispensadas, possuem maior dificuldade em ascender na carreira profissional, e são preteridas para seleções em cargos de chefia.

Fora a jornada dupla que tem que enfrentar, já que em um país patriarcal, machista e misógino como o nosso, todos os afazeres domésticos são de sua incumbência. De fato é uma desigualdade injusta.

Hoje não é dia de parabéns, é dia de luta, é dia de desculpas, é dia de empatia. Não podemos achar que no dia 8 de março sejamos benevolentes com as mulheres, quando o resto do ano tratamos com desprezo e desrespeito.

Sobretudo às mulheres trans que são todos os dias assassinadas neste país e não tem espaço nenhum no mercado de trabalho, caindo muitas delas na prostituição para sobreviver.

Não podemos esquecer que este dia é um dia de lembrar que houve muitos avanços a começar pelos direitos do trabalho e o direito ao voto no início do século passado. A mulher vem ocupando seus espaços e a luta é para que não haja barreiras para que elas continuem exercendo sua liberdade e dignidade. Pois lugar de mulher é onde ela quiser.

Não diga parabéns para a mulher pelo seu dia. Diga obrigado, diga desculpe, diga estou contigo.

Brasil: futebol e carnaval, experiência pessoal

Sou Corinthians desde criança, pra ser mais exato desde 1988. Sofri em 1993 com a perda do título para o Palmeiras, mas pude ir a forra dois anos depois. Foi em 1999 meu primeiro jogo no estádio, jogo de libertadores, o único que eu fui. Foi contra um time argentino, passamos nos pênaltis. Vi marmanjo chorar que nem criança no tobogã do Pacaembu.

Os anos se seguiram e sempre que podia, ia aos jogos do Corinthians. Vi vitórias, derrotas e até comemorei um paulista no Morumbi. Tinha alguma coisa de mágico ao ver um jogo no estádio.
Fui voluntário na Copa das confederações em 2013, já conheceu os bastidores de um estádio? Ainda mais sendo este o Maracanã. Vi um jogo de seleção pela primeira vez e tive a oportunidade de ver o último treino da seleção brasileira antes daquela histórica final contra a Espanha. No ano seguinte fui voluntário na copa do mundo. Desta vez foi na arena do Corinthians. Tinha torcedores de tudo quanto era time entre voluntários, tinha estrangeiros, tinha palmeirenses, são-paulinos, santistas e pessoas de diversas partes ajudando na copa. Depois eu fui assistir muitos jogos na arena.
Também foi incrível minha segunda passagem pelo Rio de Janeiro como voluntário nos jogos olímpicos. Foi uma festa. Ainda mais quando o futebol masculino ganhou o ouro contra a Alemanha. Mas queria que as mulheres tivessem ganhado. Uma pena.

Quanto ao carnaval eu desde criança gostava. Claro que os moralismos de minha família me fizeram desanuviar um pouco meu amor por essa época. Mas a primeira escola de samba a qual torci foi a Rosas de Ouro. A Gaviões, por razões óbvias foi a segunda, mas me cativou mesmo da Gaviões foram os dois sambas-enredo memoráveis da década de 90. Depois eu pude ver de perto os carnavais de balada e depois os bloquinhos, já muitos anos depois. Mas eu tinha um desejo de desfilar por uma agremiação. Já tinha feito isso em Diadema, pela Raposa do Campanário. Hoje eu vejo com nostalgia e com bom humor as piadas sobre a Raposa, mas foi a primeira escola de samba que desfilei, inclusive sendo campeão do carnaval da cidade por esta escola. Foi uma experiência singela, mas trouxe pras experiências que tive o ano passado e este ano.

Aliás, o ano passado foi meu batismo de fogo no carnaval paulistano. Desfilei em três escolas entre elas, a Nenê de Vila Matilde e pela Barroca Zona Sul. Íamos todo o domingo na quadra da Barroca para cantar o samba. O samba na ponta da língua foi o que fez a Barroca sair do grupo 1 e chegar ao grupo de acesso. Já a Nenê, foi menos feliz e mais sacrificante. A fantasia era muito pesada para uma ala coreografada, além de ter um costeiro pesadíssimo, com suporte indo no pescoço. Chegamos exaustos e tristes, já temendo o pior, que se concretizou nas notas e com o rebaixamento da única escola de samba paulista que foi convidada a desfilar no carnaval do Rio de Janeiro.

Hoje estou aqui de novo em uma nova maratona carnavalesca. Exausto, pois estranhamente meu corpo custa a obedecer o que minha mente ordena às vezes, mas contente por estar no carnaval paulistano outra vez.

A lógica do árbitro ladrão

O ser humano sempre é capaz de criar lógicas a seu bel prazer. Não precisam que elas sejam verdadeiras, bastam que sejam verossímeis. Inclusive criam-se lógicas irreais, mas verossímeis para acobertar outras, reais, porém prejudiciais a dados interesses. O domínio da verdade angaria poder e isso faz com que mesmo que tal lógica exposta como verdadeira, não o seja de fato, quem a profere ganha poder se for aceita por outras pessoas. Poder, verdade e crença possuem laços íntimos que influenciam as ações humanas.

Falarei sobre a lógica do juiz de futebol ladrão. Se a arbitragem comete um erro que prejudica seu time, logo, esse árbitro favoreceu intencionalmente o adversário. Partindo dessa lógica, o juiz é ladrão. Houve um roubo, um acerto, uma corrupção, uma mala preta para que tal resultado se confirmasse à revelia de nossa vontade apaixonada e cega de torcedor de futebol. E pela cegueira histérica que a que cometemos diante da desilusão, a caixa de Pandora do ódio e da mentira se abre para tecer teorias que confirmem a incredulidade de que recusamos a aceitar. A cultura do Juiz Ladrão faz parte do mundo do futebol, mas acoberta algo mais sério. Centraliza a interpretação da regra em torno de uma, ou três pessoas (com os árbitros de linha de fundo, seriam 5, mas os resultados não tem sido tão efetivos), além de, no Brasil, a arbitragem esportiva não ser profissional. O árbitro profissional de futebol é uma das soluções que podem reduzir o erro, pois o árbitro é preparado e pago para isso. Mas está muito além da questão técnica ou simplista a solução para acabar com o “favorecimento da arbitragem”, pois sabemos que há quem se beneficie do erro.

Imagine quantos jornais deixarão de ser vendidos, quantos pontos de audiência deixarão de ser alcançados, quantos cliques não serão feitos e quanta repercussão deixará de existir sem a polêmica arbitragem das noites de quarta ou das tardes de domingo.

O mundo é movido por conflitos, e no futebol, como qualquer ação humana, não é diferente. O ponto de vista se aguça quando a dúvida, intencional ou não, se apresenta. A ausência de dúvidas elimina a subjetividade e com isso, o conflito se desfaz. Liderar uma posição de conflito é cômodo, pois é possível “inventar poder” influenciando pessoas a agirem de maneira. O homem é impelido pela ação e pela competição, e criar um ambiente de competição ou de conflito é garantir a quem criou esse ambiente poder e influência. Fica evidente que quem implanta polêmicas angaria poder, ou busca também o concentrar em um determinado ponto.

Clubes, federações e CBF, em troca de contratos de transmissão com a mídia, mantém um status quo no futebol brasileiro para que mantenha um nível de atratividade e influência, como parte de uma contemporânea política de pão e circo, porém sem o pão.

Enquanto isso, se inventa uma visão estereotipada do futebol brasileiro com heróis e vilãos. E na categoria de vilãos, está o Juiz Ladrão.

Conheci pessoalmente o árbitro tido como um dos árbitros mais envolvidos em polêmicas no futebol brasileiro. Thiago Peixoto era um jovem professor de academia, que, por acaso, descobri que também era árbitro de futebol. Um professor atencioso, muito focado no trabalho e muito boa pessoa. A última vez que ouvi falar dele, foi no último final de semana, quando, no clássico entre Náutico e Santa Cruz no Recife, se envolveu em outra polêmica e chegou a ser agredido por um jogador do Santa Cruz, que deu uma cabeçada(Fonte: https://m.futebolinterior.com.br/futebol/Brasileiro/Serie-B/2017/noticias/2017-11/arbitro-que-pegou-gancho-em-sp-leva-cabecada-no-classico-de-recife).

Aos olhos da imprensa que gosta de polemizar, Thiago é um Juiz Ladrão. Aos olhos éticos, pode ser tido como um árbitro instável e que comete erros. Erros como muitos árbitros cometem, como muitos jogadores cometem e como todos nós, seres humanos, cometemos.

O erro é algo inerente ao comportamento humano. Não tolerá-lo é uma atitude que pode fazer exatamente o oposto do que se propõe: eliminar ou anular os efeitos do erro. Thiago é uma vítima da estigma que o persegue: de que todo árbitro de futebol é ladrão.

O primeiro passo para começar a atacar a cultura do Juiz Ladrão é tratar o assunto como erro, e não como favorecimento, apesar de que o futebol faz parte de um torpe universo de casas de apostas (manipulação de resultados), lavagem de dinheiro (crime organizado investindo em futebol), fraude fiscal, evasão de divisas, sonegação fiscal (venda de atletas com ocultação de valores), corrupção (propinas e superfaturamento em obras esportivas, programas e eventos), uso político (alienação da população, favorecimento de clubes, renúncia fiscal e lobby), e muito mais em um verdadeiro jogo sujo.

Declarações como a do diretor do Palmeiras frente aos erros da arbitragem cometidos no clássico contra o Corinthians deveriam ser alvo de punição, pois inflamam a sua torcida a tensionar a rivalidade e desviar o foco dela contra as críticas contra os jogadores que falharam na partida e também foram responsáveis pela derrota do time do Palmeiras.

São os manipuladores e mafiosos do mundo da bola os verdadeiros ladrões e que fazem o futebol se tornar uma amostra de quão injusto é esse mundo. Mas para não ficar evidente, precisavam de um bode expiatório, um culpado.

Sobrou para o juiz.

Extraído de: https://kazzttor.blogspot.com.br/2017/11/a-logica-do-arbitro-ladrao.html