The Day After – Fim Do Sonho Do Hexa Em 2010

Cabeças frias, hora de escrever. Nunca é bom fazer uma reflexão sobre alguma coisa sob nervos exaltados. Ontem foi o fim de um sonho. A seleção brasileira de futebol foi eliminada da copa do mundo ao ser derrotada pela equipe holandesa pelo placar de 2 a 1. De fato, tenho a conclusão de que se tratava de uma tragédia anunciada a qual custávamos a acreditar, iludidos pela sensação, agora inexistente, de que o nosso futebol é o melhor do mundo. Houve erros, os quais a imprensa cansou de evidenciar, mas o principal deles foi o fato de a equipe que disputou este mundial não possuir as características que consagraram o nosso futebol. Mas derrotas acontecem, vida que segue, bastando apenas “sacudir, levantar a cabeça e dar a volta por cima”.

O que de fato me preocupa não é a copa em si, mas a hipocrisia que existe no Brasil em torno do futebol. Se tivermos nosso orgulho ferido por causa de uma eliminação de copa do mundo, então temos muito pouco orgulho de nós mesmos. O Brasil tem muitos atributos positivos, assim como muitas ações a serem feitas para corrigir nossas deficiências. Portanto dirigir todos os nossos esforços a uma partida de futebol se assemelha a um ópio viciante e venenoso, nos entorpecendo e matando nossa brasilidade aos poucos. Apesar de termos uma situação econômica favorável, temos problemas sociais crônicos, falta de conteúdo de nossa geração, além de um consumismo desenfreado com ausência de valores éticos, os quais são parte de problemáticas que envolvem e corrompem nossa sociedade como um todo.

Por toda essa hipocrisia e valores ruins, é inadmissível considerar a derrota brasileira na copa como uma tragédia. Enquanto o chorávamos a copa, milhares de pessoas em Alagoas e em Pernambuco estão sem ter onde morar, o que vestir e nem o que comer, devido à enchente que castigou a região. Enquanto chorávamos a copa, alguns políticos tentavam passar por cima, na justiça, da lei Ficha Limpa. Enquanto chorávamos a copa, famílias se despedaçam pelo drama da droga e da violência, que destrói vidas de muitos jovens. Prefiro chorar a dor da intolerância e da ignorância do que chorar um gol holandês. Prefiro chorar por aquilo que não queremos ser, por aquilo que deixamos de ser. Não devemos ser hipócritas. Temos uma realidade que 200 milhões podem mudar e não apenas 23. Vamos sair da TV e ir à luta, pois 2014 está logo ali e precisamos pelo menos deixar a casa limpa para o mundo entrar.

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