Protestos no Brasil: uso político?

No dia 12 de outubro ocorreram novas manifestações contra a corrupção no Brasil. As primeiras manifestações ocorreram em 7 de setembro e ocorrerão outras manifestações em 15 de outubro e 15 de novembro. As manifestações contam com pessoas de todas as idades, mas a maioria são de jovens, e segundo lideranças desses protestos, não possuem nenhum vínculo partidário. Esses eventos estão repercutindo fortemente na mídia.

Passeata na Paulista parte 1

 

Passeata na Paulista parte 2
 

Compareci a um desses eventos (confira os vídeos acima), e cheguei atrasado, assim como os manifestantes. A manifestação foi pequena, mas foi aparentemente mais inocente do que a marcha que ocorreu no mesmo local duas horas antes. É interessante ver o semblante do público. Haviam pessoas de todas as idades, mas sobretudo jovens. O grande problema, que há em toda ação em que jovens participam, é que está mais a atitude mais passional do que racional. E isto é um terreno fértil para alguns grupos políticos influenciarem esses jovens, cooptando-os para suas correntes partidárias.

Observei que haviam nestes protestos, muitas pessoas da classe média: profissionais liberais, universitários, pequenos e médios empresários, fazendo buzinaços em carros novos, ou seja, possuíam um poder aquisitivo relativamente bom. Isso não significa que estão satisfeitos com suas condições de vida, pois o custo-Brasil é muito alto, o que não os impedem e até justificam o seu protesto. Mas quando se fala de política, não existe inocência, pelo menos quando observamos as intenções políticas por trás de atos contra a corrupção.

Suspeita-se que grupos de centro-direita e direita se infiltraram nessas manifestações. A estratégia é simples: usar os protestos para desestabilizar o governo de centro-esquerda, no poder há quase nove anos. O mote de combate à corrupção seria destinado somente aos que estão no poder, o que é um ato falho, parcial e alienado. Sabemos que a bandalheira corrupta começa nas linhas partidárias, dentro dos gabinetes dos partidos, onde são escolhidos, às vezes de forma subornada, as candidaturas. Para ser candidato em uma eleição no Brasil é preciso ou ter dinheiro, ou pertencer a um grupo influente, ou ser um apadrinhado ou parente de político. A reforma política, que tanto se fala e se discute, não aborda a transparência no processo de escolha dos candidatos, tampouco consagra o voto como um direito de expressão política retirando a sua obrigatoriedade. Essas falhas, aliadas a um sistema eleitoral que você vota em um candidato e elege outro, aliados às propostas intoleráveis de financiamento público de campanha e lista fechada de candidatos para a reforma política, nos impelem a uma sensação permanente de insatisfação indignada, porém tolhida pelo individualismo, alienação e conformismo. O movimento pela ética na política é importante, mas deve ser bem encaminhado para que se torne legítimo. E a legitimidade passa pela imparcialidade e justiça no trato das ações. Percebi que a esquerda duramente criticou e se ausentou desses movimentos, mas deve fazer justamente o contrário. A participação das militâncias de ambos os lados equilibra o jogo político, diluindo os pontos de conflito e fortalecendo os pontos de consenso.

Ainda é possível que essas manifestações sejam feitas sem o apoio de nenhum partido, desde que os participantes não sejam coniventes com o uso indevido do movimento por nenhuma corrente política, denunciando essas práticas. Não se viu por parte de manifestantes nenhuma menção partidária, mas deve-se observar o discurso e o tom, para atacar somente o mal de nossa sociedade, a corrupção. Também deve ter um senso crítico às próprias críticas ao movimento. Algumas agremiações políticas de esquerda rechaçaram as manifestações pois rejeitaram seu apoio com a vinculação do movimento à sua imagem. Existem alguns partidos de esquerda que utilizam manifestações unicamente para fazer propaganda de suas ideologias políticas, o que é também, um tipo de alienação.

Sei que dentre muitos cordeiros há algumas raposas, mas cuidemos de proteger nossas ovelhas inocentes. Participei das manifestações, conversando com muitas pessoas, discursando sem me identificar politicamente, e acima de tudo, contrapondo a aqueles que fazem uso político das manifestações. Pois em certas situações devemos combater fogo com fogo.

Marcha contra a corrupção em 07/09/2011 em SP

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