As “cracolândias” de nosso cotidiano

Desde o final do ano passado, a polícia militar paulista vem empreendendo uma operação permanente na região central da capital paulista, em um local conhecido como Cracolândia, onde o consumo de crack se dava livremente. Centenas de pessoas foram abordadas, traficantes presos, prédios abandonados desocupados, num processo tido como higienista por muitos especialistas. A forte presença policial no local visa reprimir e erradicar o tráfico e consumo de drogas e conduzir os dependentes químicos para tratamento, porém o trabalho ostensivo e até agressivo por parte das incursões policiais está mostrando resultados pouco desejados ao que a sociedade almeja.

O primeiro efeito observado foi a dispersão das pessoas dependentes e traficantes para outras regiões do centro de São Paulo. Antes, essas pessoas ficavam concentradas na região da Praça Júlio Prestes, e com a operação policial se dirigiram a outras regiões. Outro efeito observado foi o aumento da busca por tratamento aos dependentes químicos, porém a estrutura para acolher essas pessoas na região da Cracolândia é insipiente para atendê-los. A operação foi alvo de críticas às autoridades policiais. Ficou evidente que o Governo do Estado de São Paulo ainda considera a questão da droga como caso de polícia, em vez de ser considerado um caso grave de saúde pública. A narcodependência é uma epidemia mundial que não pode ser resolvida apenas com a repressão ao tráfico e ao consumo. É preciso tratar o dependente e também conscientizar as pessoas do risco que os narcóticos trazem às suas vidas.

É importante realizar ações para conter o tráfico de drogas, porém é preciso saber e entender como as pessoas são conduzidas ao vício. O tráfico de drogas só existe pois existem pessoas que tem necessidade de consumir drogas, o que parece óbvio, porém não perfeitamente compreendido pelas autoridades políticas que preferem trabalhar com a repressão do que com prevenção.

A questão da droga não está apenas na Cracolândia. É apenas a ponta do iceberg de um abismo social formado por lacunas que a droga preenche pela ausência do Estado na formação do cidadão. A educação é o primeiro e importante passo para que o cidadão tenha consciência de seus valores e também dos males que todo e qualquer vício podem ocasionar. A formação do cidadão, não apenas cultural, mas social e pessoal, garantem às pessoas estímulos à sua auto-estima e os protegem de ser susceptíveis a qualquer tipo de ato danoso a si ou a sociedade.

O trabalho de comunicação e conscientização permitem a todos o conhecimento pleno do universo da dependência química tratando o dependente como um doente e não como bandido. O trabalho deve ter foco na família tanto dos que estariam expostos ao tráfico como os que já fazem uso de drogas.

Devemos também desmistificar a questão da droga, sem eufemismos. Todos nós, em maior ou menor grau, sofremos a consequência do mal da droga e não podemos nos isentar de responsabilidade em lutar contra esse mal.

Aos dependentes devemos mostrar-lhes alternativas. O universo da droga é paranoico. A pessoa, aos poucos, passa a viver em função do vício, chegando-o a estar totalmente alheio à realidade. O processo de recuperação deve ser inverso, porém é tortuoso pois muitos dependentes acabam vendo qualquer alternativa à droga como um retorno à vida sofrida. O processo de recuperação começa pela análise da vida do dependente químico.

A contribuição da sociedade deve ser coordenada e sinérgica. Todos devem contribuir para acabar com a epidemia da narcodependência.

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