Vai com medo, mesmo!

Hoje tenho o primeiro passo para o início de uma jornada. Estou a caminho do Rio do Janeiro pois em breve estarei atuando como voluntário nos Jogos Olímpicos.

Já é o terceiro grande evento no país que atuo voluntariando. Já participei da Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo, no ano seguinte. E ao rememorar essas experiências fui tomado de súbita emoção. Isto pois lembrei de alguns momentos em que lágrimas caíram de meus olhos.

Era dia 20 de junho de 2013. Uma onda de protestos varria o país no meio da Copa das Confederações. Naquele dia estava de folga, e mesmo sendo voluntário em um evento FIFA, eu fui a um dos protestos. Fui pois eu entendi que mais do que a insatisfação com a copa, havia uma enorme insatisfação com o poder público do Brasil, que exige muito (impostos, leis, burocracia) e oferecia pouco (serviços públicos de qualidade e garantias individuais). Ao chegar no centro do Rio, vendo aquela multidão de jovens que pacificamente protestavam, entoavam palavras de ordem e cantavam, eu me emocionei. Ao cantar o hino nacional junto com aquela multidão, lágrimas caíram de meu rosto. Me sentia parte daquilo. Me sentia protagonista da história do Brasil naquele momento.

Naquele dia 12 de junho de 2014 foi diferente. A emoção era outra. Era a de um amante do esporte bretão. Eu até então não estava escalado para atuar na abertura da Copa. Na última hora fui escalado para atuar. Foi um dia inteiro de trabalho e no final, consegui uma permissão para ir à tribuna de imprensa, onde tive experiência de ver pela primeira vez (mesmo que seja por alguns minutos) uma partida da seleção brasileira no estádio. E pude ver o gol do Oscar, do mesmo ponto de vista de jornalistas e torcedores presentes. Ao terminar o jogo, a sensação do dever cumprido. A abertura da Copa foi um espetáculo, e ajudei a fazer isso possível, juntamente com todos os outros voluntários e profissionais. Saí da tribuna com os olhos marejados. Também me senti parte daquilo.

Identidade e pertencimento é algo que nos dignifica, quando os percebemos. Talvez seja por isso que tanto se coloca nas pessoas uma cultura individualista. Pois uma cultura coletivista é perigosa para quem oprime e quem almeja privilégios. Por isso a enganação da força do herói solitário. Mas como diria a música de Baiano e Os Novos Caetanos (Parceria de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues), o herói é o caba que não teve tempo de correr.

Talvez seja essa a lição que tiro dessas experiências. E isso se traduz na reação das pessoas ao dizer que vou aos jogos olímpicos, voluntariar. Elas me perguntam se eu não tenho medo de ir. Eu respondo com uma frase que li em algum lugar que diz:

Se tiver que ir, vá! Mas se estiver com medo, vá com medo mesmo!

Já vivi algumas experiências que me assustaram, que me deixaram com medo, mas entendo que o medo, não deve te travar, você tem que enfrentar. É um desafio. Apesar de outros medos que tenho, eu levo adiante a vida com eles, enganando-os ou buscando alternativas. Mas é preciso encarar o medo de frente, em alguns momentos. É o seu karma, faz parte do seu desafio vital.

Mas, pensando bem, ao rememorar minhas lembranças, minha resposta seria outra. Ao me perguntarem se eu não estaria com medo eu responderia:

Eu não estarei sozinho.

Nada tão abrangente, tão singular e tão controverso.

É preciso

É preciso resistir ao egoismo
Resistir ao escárnio, ao fascismo
É preciso resistir a oferta
À propaganda, a porta aberta
É preciso resistir a ganância
A carteirada, a arrogância
É preciso resistir ao preconceito
A intolerância, a negação de direito
É preciso resistir a corrupção
Ao descalabro, ao dano à nação
É preciso resistir à violência
Ao ódio, à vida sem essência
É preciso resistir ao desrespeito
À intimidação, ao golpe aceito
É preciso resistir ao fisiologismo
Aos interesses próprios, ao machismo
É preciso resistir à tradição,
Ao conservadorismo, à inação
É preciso resistir ao tédio
À apatia, ao fim do colégio
É preciso resistir
Ocupar espaços, insistir
Ao acusar o golpe, reagir
Sair de cima do muro
Tomar partido
Fincar as bandeiras de seus ideais e agir

Mas antes de tudo
Resistir é preciso

Poema em homenagem aos estudantes que ocuparam a ALESP e o Centro Paula Souza pela abertura da CPI da Merenda.

17 de abril de 2016, 23:07: um atentado contra a democracia brasileira

A verdade é que o jogo sujo da política brasileira tem muitos nomes, CPF’s, CNPJ’s e Offshores fora do Brasil, cujo líder é Eduardo Cunha.

Hoje presenciamos uma página da história política do Brasil. Uma página triste, com mazelas e enganações que fez uma parte do povo brasileiro a crer que o jogo sujo do poder tinha nome e sobrenome: Dilma Rouseff.

A verdade é que o jogo sujo da política brasileira tem muitos nomes, CPF’s, CNPJ’s e Offshores fora do Brasil, cujo líder é Eduardo Cunha. Ele capitaneou o impeachment, colocando todo o PMDB e arregimentando outras agremiações pela sua votação, jogando ao mar a capitã do navio, antes que todos os tripulantes piratas fossem descobertos.

O que se viu hoje foi um motim e uma revelação dantesca, que apenas pessoas politizadas e inteligentes podem compreender. A de que os fins justificam os meios, mesmo que estes fins sejam ilegítimos.A de que no jogo do poder, vale tudo, pois o PMDB, há muito tempo almeja a presidência do país, mas curiosamente, todas as vezes que assumiu, não foi pelo voto direto (Sarney em 1985, Itamar Franco em 1992 e agora, Michel Temer).Viu-se revelar a magistratura mais conservadora, reacionária e defensora de interesses da elite dos últimos anos. Seria evidente que uma presidência com filosofia progressista fosse vista pelos congressistas conservadores como um empecilho a seus interesses.

A partir daí a situação piorou. Começou com um racha na eleição para a presidência da Câmara, com a vitória de Cunha. Depois diversas imposições de derrotas ao governo, juntamente com a aprovação de um arremedo de reforma política, que, na prática, não mudava em nada, principalmente no tocante ao financiamento de campanhas e partidos. Em seguida, as pautas-bomba, ataques a direitos, como a liberação total da terceirização, a mudança na demarcação de terras indígenas, a flexibilização (!) do trabalho escravo, o estatuto da família e do nascituro, pautas que agridem os trabalhadores, os direitos humanos e as minorias. Por fim o impeachment, por conta das pedaladas fiscais praticadas no mandato anterior, inclusive com assinatura de ordens de manejo pelo Temer, sem contar que é prática usual em estados e municípios, o que poderia impor um risco jurídico enorme a diversas cidades e estados, se a coerência fosse a tônica na política brasileira, mas como não é…

A maioria dos deputados que disseram sim ao impedimento de Dilma tem nomes e partidos envolvidos na operação Lava Jato.

O alvo dos deputados é outro para forçar a queda da Dilma. É ela quem deu carta branca para a PF e a justiça federal para investigar livremente, e a bomba caiu no colo dos políticos. A maioria dos deputados que disseram sim ao impedimento de Dilma tem nomes e partidos envolvidos na operação Lava Jato. O juiz Sérgio Moro, não sabemos qual a dele, mas o que vejo agora é que ele se enveredou pela vaidade de ser um juiz que liderou a maior operação de investigação contra a corrupção da história do país. Imaginando ser igual a operação Mãos Limpas na Itália, optou por divulgar para a imprensa os resultados das investigações, para que a o Brasil fosse tomado de comoção popular e pressionasse as autoridades a punir e apurar com rigor a roubalheira. Mas a mídia brasileira é enviesada. A própria mídia fez filtragens para destacar os pontos que comprometessem o executivo e faria uma “cobertura soft*” de pontos que poderiam comprometer parlamentares e partidos de oposição. A explicação para isso é que a maioria das emissoras de rádio e televisão possuem controle direto ou indireto de políticos, muitos deles envolvidos nos escândalos.

A mídia mostrou uma cara deturpada do escândalo. Martelavam-se diuturnamente notícias da Lava Jato, relacionando ministros, estatais e deputados com pagamento de propina. A comoção para clamar a queda de Dilma logrou êxito por três fatores:

  • O trato da mídia em tratar a questão da corrupção como problema de governo, e não como um problema de Estado, visto que depois, revelou-se que os esquemas de propina já existiam desde 1986.
  • O preconceito que há sobre a corrupção, por entender que a revelação dos atos ilícitos recai a culpa sobre o governo que está aí, ou seja, que a população pensa que só existe a corrupção quando um escândalo aparece, o que não é verdade, pois falcatruas ocorrem em diversos cantos do país e são poucos os que acabam tornando-se públicos.
  • O anti-esquerdismo, manifestado pelo anti-petismo e o anti-lulismo, onde uma parte da população de classe média alta, passou a hostilizar os partidos de esquerda por conta de sua pauta social de busca de corrigir as desigualdades sociais e políticas do país. Por ser sempre tidos como privilegiados, ao perder o foco governamental, e assim o privilégio de outrora, passou a hostilizar os favoráveis à pauta de esquerda.

Basta observar o perfil dos manifestantes dos protestos pró-impeachment. Eu tive que olhar as pesquisas e fazer algumas especulações a respeito. Pra começar, a faixa etária, muitas pessoas de meia idade e com idade mais avançada. Passa pela classe social, muitos ganham acima de 4000 reais mensais, e passa pela escolaridade, muitos possuem ensino superior completo. Nas áreas de atuação, temos empresários, profissionais liberais e funcionários públicos.

Do outro lado temos os manifestantes contrários ao impeachment. Muitos de classe mais baixa, camponeses, com escolaridade variada entre analfabetos e também graduados. Temos muitos jovens, pessoas de raças negra ou parda, trabalhadores da indústria comércio e serviços, assalariados, com renda bastante variável também.

Isto levou a uma polarização política que pode resultar em um jogo perigoso, em que o congresso nacional com o impeachment, decidiu pagar pra ver.

Os primeiros, chamados de coxinhas, os segundos, de mortadelas (por achar que estão nas manifestações em troca de dinheiro e comida). Isto levou a uma polarização política que pode resultar em um jogo perigoso, em que o congresso nacional com o impeachment, decidiu pagar pra ver.

O futuro

Após a aprovação na câmara, o julgamento do impeachment vai para o senado. Aprovado, a presidente Dilma é afastada por 180 dias e assume o Vice, Michel Temer. Eduardo Cunha assumiria o posto de Temer na linha sucessória. O problema é que Temer, Cunha, seus asseclas do PMDB, PP e outros partidos, estão envolvidos em escândalos de corrupção. E um alerta de um magistrado do Conselho Nacional de Justiça revela a verdade: nos últimos 14 anos, não sofremos nenhuma interferência governamental nas investigações que realizamos. Pode não ser crível, mas uma das consequências de um governo Temer é a interferência nas investigações para abreviar e inocentar os políticos corruptos. Seria igual a anistia de 1979, mas só os militares seriam liberados de todas as culpas. Já se cogita anistiar Cunha de sua cassação por fazer com que o Impeachment fosse aprovado. O que seria de fato, a desmoralização política do Brasil.

(…) empresa não doa, investe, para depois ver seus interesses políticos defendidos pelos políticos que ajudou a eleger.

O aparelhamento político de estatais e ministérios não é apenas moeda de troca para apoio político, mas sim importantes tentáculos de partidos e políticos sem escrúpulos para obtenção de dinheiro ilícito oriundo de propinas, para abastecer candidatos e campanhas eleitorais. A não mudança da forma de financiamento de partidos e campanhas não foi a toa, é pra permitir que empresas continuem investindo em seus candidatos, pois empresa não doa, investe, para depois ver seus interesses políticos defendidos pelos políticos que ajudou a eleger.

Por ter encontrado o bode expiatório, no caso a presidente Dilma, todo noticiário sobre corrupção magicamente cessaria, pois o objetivo dos políticos que controlam a mídia foi alcançado, de manter a corrupção praticada por eles longe dos holofotes da opinião pública.

E para o povo brasileiro, lamentavelmente, nada mudaria, a carga tributária elevada com retorno cada vez mais pífio na qualidade de serviços públicos e acesso a estes. A situação crítica, no entanto, é proposital. Nossa cultura cristã, fatalisticamente, vai querer rogar por heróis, e estes, os políticos, na maior cara de pau, vão se apresentar a nós como exemplos de moralidade e bem comum, prometendo como sempre, mas nunca cumprindo e enriquecendo às nossas custas.

É este o futuro que queremos?

Em tempo: há uma ação nos bastidores para que Dilma reduza seu próprio mandato e convoque eleições para presidente ainda este ano. Seria uma saída honrosa para uma presidente que foi queimada na fogueira política pela corrupta inquisição cristã de Cunha. Mas só considero de valia se deputados e senadores também pudessem ser novamente escolhidos.

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*Cobertura Soft: termo cunhado pelo então diretor de jornalismo da Rede Globo de Televisão, Armando Nogueira, para explicar como foi feita a cobertura jornalística das greves do ABC no final da década de 1970, onde se havia apenas a captura de imagens, sem som ambiente, e com a declaração de vozes patronais e não sindicais. Esta declaração está no documentário “Muito Além do Cidadão Kane (Beyond The Citizen Kane)”produzido pelo Channel 4 da Inglaterra, em 1993.

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Pra você entender o pato plagiado da FIE$P!

Gente burra é foda. Pergunto ao tiozinho do começo do debate como foram as aulas de OSPB que tiveram no segundo grau, porque ô burrice!

Crianças coxinhas, de inteligência limitada pela veja, globo, jovem pan e assemelhados: quando vão usar o cérebro de vocês e estudar política?

Vamos aos fatos:
Como é a composição da câmara e do Senado? Não do ponto de vista partidário, pois é ilusório, mas do sócio-econômico? A maioria são empresários, líderes do agronegócio, não são gente como a gente, são quase tudo elite!
Mesmo sendo membros da base aliada eles iriam votar a favor de uma lei que “prejudicaria seus parceiros”? Ou até eles mesmos, pois estes parlamentares recebem mais de 28 mil reais por mês, ou
seja, pagariam 30% de imposto! Se eles votam o aumento do próprio salário, eles vão votar pra diminuir o salário deles, e ainda por cima com impostos? 

Deixem de ser toupeiras! Todo mundo quer uma aplicação de impostos mais justa! Pois quem ganha pouco paga muito imposto, e quem ganha muito paga quase nada! A Europa descobriu essa lógica, por isso tem muito francês rico fazendo uso de offshore para fugir do fisco!

Esse foi um comentário que fiz no Facebook contra opiniões contrárias neste post que vou  colocar aqui abaixo, para leitura e entendimento. 

  
Não seja feito de pato pela FIESP. Ela só se interessa pelos interesses dos ricos

(Carlos Milhomem) Vou explicar o que é aquele Pato-com-cara-de-morto da Av. Paulista, pra ninguém passar vergonha:

Existe uma proposta para abaixar E aumentar os impostos, ao mesmo tempo, no Congresso.

Isso mesmo, abaixa o IRPF de quem ganha menos e aumenta o IRPF de quem ganha mais.

A FIESP, dona do Pato, chama isso de “aumento de imposto”, mesmo que o imposto abaixe (ou isente) para mais de 80% da população.

“Oras, chega de aumentar os impostos, povo!”

Mas o que eles não dizem é que só aumenta o imposto pra quem ganha ACIMA de R$27mil por mês.

Para quem ganha ABAIXO de 27mil, o “aumento” iria ABAIXAR o imposto.

Pra você visualizar:

HOJE, quem ganha

Até 1.903,98 – é isento

1.903,99 até 2.826,65 – paga 7,5% de IRPF

2.826,66 até 3751,05 – paga 15%

3.751,06 até 4.66,68 – 22,5%

A partir de 4.664,68 – 27,5%

Como ficaria com a proposta aceita:

Quem ganha até

Até 3.390,00 – é isento

3.390,01 até 6.780 – paga 5% de IRPF

6.780.01 até 10.170 – paga 10%

10.170,01 até 13.560 – 15%

13.560,01 até 27.120 -20%

27.120,01 até 108.480 – 30%

A partir de 108.480,01 – 40%

E é por isso que tem gente CONTRA o Pato morto. Não é questão de pagar mais imposto, é questão de não ser enganado, de novo, pelos milionários.

Porque eu quero é que os ricos paguem o Pato, como em toda nação desenvolvida.

Agora, se for entrar na discussão de que a gente já paga muito imposto em produtos e serviços (como na maioria dos países pobres ou em desenvolvimento) em vez de taxar a renda, isso é mais um motivo para defender essa proposta. Porque assim podemos desonerar os produtos e, quem sabe, abaixar os preços finais de tudo, deixando tudo mais justo.

“Ahhh, mas nos EUA a taxa de IRPF é por volta de 8%.”

É, mas lá a gente não tem o déficit social que temos aqui. Se a gente estivesse taxando de forma justa os ricos há 50 anos, provavelmente poderíamos ter taxas mais baixas aqui.

Se a reclamação é de que a CPMF é um aumento de imposto, se lembre que ele foi criado no governo FHC e praticamente só pesa em quem tem muita transferência bancária. Nem pra mim e nem pra você.

E a CPMF permite aos bancos repassarem informações ao fisco e aumenta assim a transparência, evitando remessas ilegais.

Ou seja, imposto que abaixa pra pobre e aumenta pra rico é bom, Pato morto é ruim.

http://www.revistaforum.com.br/2016/01/05/bancada-do-pt-na-camara-defende-isencao-de-ir-para-salarios-ate-r-3-390/

A regra é clara

Prestenção, pois a regra é clara: não se pode colocar uma prova obtida sem autorização em um processo judicial, por mais evidente que seja. O pessoal do Fla (Lulistas, petistas em geral), está achando que é golpe. O pessoal do Flu (anti-petistas, direitistas em geral) estão achando que agora o governo da Dirma cai.

O que acho? Que não importa o que resulte, quem ganhar não vai levar.

Quanto a questão da camiseta CBF, eu boto na crítica não pelas relações escusas da CBF. Mas porque essa camisa é erroneamente tida como um sinal de patriotismo. O Brasil é um país que o patriotismo é visto como algo que se usa e se guarda de acordo com a conveniência. Quando é Copa do mundo, todo mundo é patriota. Quando se tem crise também (apesar de aparecer alguns nacionalistas também no meio dessas pessoas). Patriotismo não é conveniência, tem que estar dentro do âmago de identidade nacional, entende? Quando esse patriotismo o prejudica, é facilmente abdicado, tipo, que se foda o Brasil!

Patriotismo não é camiseta, é atitude!

Quando se cola na prova, deixamos de ser patriotas, pois a pátria nos espera que tenhamos conhecimento suficiente para sermos profissionais de excelência que ajudam-na a desenvolvê-la. Quando dirigimos embriagados, ou burlamos blitzes, ou avançamos o sinal, também deixamos de ser patriotas, pois desrespeitamos as regras que nossa pátria fez para todos. Quando furamos fila, estamos deixando de ser patriotas, pois estamos desrespeitando outros cidadãos de nossa pátria.

Sabemos que a situação está difícil e muito acontece por ingerência política. Isto é fato e temos acordo nisso! Mas não podemos agir com hipocrisia, colocando nossas atitudes em coletivo, e nos contradizendo, quando é em particular.

Acho que é isso! Chega de Fla-Flu político! Vamos empurrar esse país e pedir que essas investigações punam a todos, sem exceção!

Invertendo a lógica

Vamos inverter a lógica. Concordo que a Dirma pode ter usado um recurso desesperado pra salvar o governo chamando o Lula pra ser ministro.
Realmente é um ato que gera controvérsias de todos os lados. Só que no mesmo dia, veio o Moro e divulgou um grampo dela com o Lula. 

Não se faz gol chutando a cara do goleiro, gente! É falta!

Da mesma forma, não se pode vazar um telefonema confidencial do presidente da república. A não ser em clara conotação de crime, o que, pelo seu teor, nada é possível afirmar. 

Há semanas dizia que Dirma chamaria Lula pra ser ministro, isto é sabido de todos. O que Moro fez foi abuso de poder e pode até ser considerado crime o que ele fez. 

Agora está rolando no congresso o trâmite do impeachment, que o STF mandou voltar. É coincidência demais o Moro mandar soltar a gravação, para que haja agitação e pressão no congresso pra que o impeachment saia de qualquer jeito. 

Não estou aqui pra defender o governo! Estou aqui pra defender a legitimidade. Não importa de que lado esteja neste Fla-Flu político, mas não se pode fazer justiça sem ser justo. De nada adianta satisfazer o desejo de ver um governante destituído se esta destituição foi feita de forma ilegal. 

Pensem no amanhã. Se essa porra estoura, quem vai assumir? Os fascistas? A velha política bandida? Espero que não.

Música para vocês

Rio de lama: a amarga tragédia em nome do lucro

Ao falar dos atentados ocorridos em Paris, muito se questionou da comoção ocorrida em contraste com o quase desprezo diante de um desastre ecológico e humanitário ocorrido em terras brasileiras, há cerca de uma semana.

Desde que foram publicadas as primeiras notícias do rompimento da barragem da mineradora Samarco, que é do grupo da Vale, eu pude acompanhar um drama, e também uma enorme distorção dos fatos.

A imprensa tida como oficial, sequer cita a Vale, como responsável pela tragédia. Também as autoridades preferem atribuir ao desastre a uma fatalidade. 

É notório e descarado a tentativa de encobrir a verdade por trás do mar de lama que soterrou distritos da cidade de Mariana, em Minas Gerais, e tal como um tsunami, vem aniquilando o Rio Doce, deixando sem água populações inteiras de Minas Gerais e do Espírito Santo, tornando-o vermelho de barro contaminado com chumbo e outros minerais nocivos à saúde.

Pra começar, a área da barragem e das comunidades inicialmente devastadas estão isoladas, e o acesso está restrito a boa parte da imprensa, fazendo com que se saiba muito pouco sobre as dimensões do desastre e o real número de vítimas fatais. A imprensa tida como oficial, está tratando de apasiguar os ânimos, dando um tratamento subestimado aos fatos e evitando ao máximo citar os responsáveis. Sequer a Vale, holding da qual a Samarco faz parte, foi mencionada em nenhuma das reportagens televisivas e da grande imprensa escrita.

As autoridades, pressionadas pela opinião pública, somente começaram a cobrar a Samarco responsabilidade e esboçaram punir a empresa só agora, mantendo a Vale incólume. A explicação é simples: a Vale doou cerca de 22 milhões de reais para partidos e candidatos nas últimas eleições. Num universo capitalista como o nosso do Brasil, doações são formas sutis e eufemistas de investir no poder público para garantir o retorno do estado sobre seus interesses.

A Vale é uma força onipresente no Brasil por ostentar uma imagem ilibada, por nada de falho constar na mídia. É o maior exportador mundial de minérios, e grande fonte de divisas para o país. Porém o desastre de Mariana evidencia claramente um processo de maquiagem da sua imagem pública.

O que a Vale, os políticos e a mídia não contavam é que a internet, as redes sociais e a imprensa independente trataram de desmascarar a farsa que está por trás da fatalidade.

Foi divulgado um vídeo denunciando essa fraude midiática. Uma repórter da Rede Globo de Minas Gerais, entrevistava um morador de Mariana, sobre o desastre. Quando o entrevistado começou a denunciar em seu relato o descaso da mineradora e da Vale, a repórter interrompeu a entrevista e o cinegrafista parou de gravar.

Relatos e mais relatos mostram a relação promíscua entre a mídia, a Vale e os políticos nessa história. E enquanto isso, cidades inteiras ao longo do Rio Doce, assistem atônitos e desesperados a agonia do rio que dava a vida e que agora morre, pela ganância de uma grande corporação.

Pergunta-se: havia um plano de emergência? Sistemas de alerta? Formas de impedir que a lama contaminasse o Rio Doce? Pela dimensão do desastre a resposta é negativa para todos os questionamentos. Não se pensou no pior, pois isto gera custos. E para uma empresa que almeja o lucro, qualquer custo é algo dispensável.

Tão dispensável, que hoje vemos o mal da ganância. O maior desastre ambiental e humanitário da história do Brasil não é tratado como tal pela imprensa do próprio país, pois o verdadeiro responsável tratou de corromper estado e mídia de antemão.

Um verdadeiro atentado coletivo contra o país.

Não foi Deus o culpado

Noite sangrenta em Paris. Terroristas transformaram a cidade-luz em um território negro e sombrio. Corpos inocentes tombavam na noite parisiense para saciar a sede de ódio, travestida de vingança e desagravo a uma religião. Mentira! Não é a religião a culpada, é a estupidez.

Noites turbulentas no Brasil. Pseudo-líderes religiosos demonizam pessoas. Seus ‘crimes’? Aceitarem-se como tais, viverem sua diversidade sexual, e assumir sua identidade de gênero, pedindo ao estado “apenas” o que é de direito: dignidade. E motivados por essa demonização, pessoas que seguem esses “líderes” matam, estupram, desrespeitam, agridem e lutam para que os LGBT’s não tenham direito a nada.

Separemos o joio do trigo. As divindades foram concebidas como norte espiritual, como meio de as pessoas buscarem plenitude de vida. O que vemos quando um homem pratica o mal contra seu semelhante motivado pela crença doentia por uma divindade, é buscar na fé um álibi para sua perversidade.

Pois o mal advém de quem o atua, e retrata claramente como sua crença se distorceu e se desvirtuou da convivência pacífica e harmoniosa com seus pares.
Pois o que todas as crenças tem em comum são valores, e muitos desses valores podem ser cultivados até mesmo sem a crença.

Mas a fé busca trazer a nós uma motivação que nos põe além de nossos limites auto-conhecidos. E ao usarmos esta motivação como razão de dolo a outrem, simplesmente contradizemos a estes valores.

Todas as divindades carregam valores, e são valores aceitos por todos. Não devemos desvirtuar a crença para que esta crie monstros que destroem vidas em nome da fé.

Um dia de domingo

FOLHA São Paulo, domingo, 25 de outubro de 1981

Era um domingo em São Paulo, quando nasceu à luz do meio-dia, um menino branco, filho de uma mulher pernambucana e pai mineiro, ambos operários e colegas de trabalho de uma fábrica de eletrodomésticos.

Difícil imaginar como seriam os dias seguintes: o primeiro choro, as primeiras fotos, o batizado, os primeiros passos, a primeira palavra, os brinquedos, as brincadeiras e os primeiros amigos, o primeiro dia de escola com as primeiras palavras lidas e escritas.

Nascer é uma dádiva. E viver é o seu prosseguimento e justificativa. Por vezes, os dilemas e desatinos nos questionam se viver é de valia, muitas vezes nos colocando em rota de colisão com nós mesmos. Mas basta olharmos para o momento em que a dádiva da existência nos fez surgir, para termos a certeza de que nada ocorreu a esmo em nossas experiências vividas, e que não devemos desperdiçar cada minuto em lamentações pelos desatinos que sofremos.

Pois o tempo é um bem precioso, finito e não-renovável.

Sempre lembramos disso quando relembramos o dia que nascemos, data essa chamada de aniversário, estando acompanhados dos melhores amigos, ou abraçado à fria solidão.

Até hoje, se passaram trinta e quatro anos. E, coincidentemente, é domingo, o mesmo dia da semana em que nasci.

Pode significar nada, absolutamente, mas é um dia inteiro em que podemos memorar, refletir, rir e chorar.

Enfim, um dia de domingo.

Crise é um momento oportuno

Muito se fala hoje em crise e a crise pode ser interpretada como uma pedra no meio do caminho, fazendo uma licença poética ao saudoso Carlos Drummond de Andrade. Porém a pedra é um elemento bastante versátil, pois pode ser usada para construir um castelo, atirar em alguém ou tropeçar e cair. Depende de como essa pedra é vista.

É necessário entender a crise como um momento bastante oportuno. Crise é uma situação em que uma determinada conjuntura se encontra saturada ou estagnada e demanda mudanças urgentes. Crise implica em mudanças de visões, de paradigmas; como se diz no jargão corporativo, é pensar fora da caixa. É em alguns casos abandonar o óbvio e buscar novas alternativas, novos caminhos.

E quem tem esse entendimento, essa visão, acaba saindo na frente. Lembra da crise de 2008? Ela gerou diversas oportunidades e proporcionou grandes mudanças nas finanças e na governança em geral. Viu-se que apenas o lucro sobre o lucro deixou de ser apenas dispensável, para se tornar nocivo às relações comerciais, empresariais e sociais. E dessa lógica surgiram novas alternativas econômicas. O Crowdfunding, a economia solidária, a economia colaborativa, as startups e as novas relações comerciais e financeiras estão surgindo e proliferando da crise. São possibilidades que as pessoas poderiam enxergar, mas não enxergam, e por quê?

Pois é da natureza humana o desejo de auto-preservação, e com isso, em momentos de indefinição, a postura que temos, é geralmente de defesa e retração. Esta postura costuma descartar, quase que automaticamente, todas as possibilidades que podem nos colocar em risco, ou as quais os riscos não conhecemos. Mas tirando um pouco da passionalidade, e sendo um pouco racionais, deixamos os nossos preconceitos de lado, passamos a conhecer essas alternativas de mudança, nossa visão em relação a essa indefinição muda e passamos a enveredar por alternativas, onde antes não víamos.

Essa visão empreendedora e desapegada de paradigmas é a visão que pode ser encontrada em muitos jovens e também por pessoas experientes e conhecedoras de momentos críticos. A crença que a crise é uma oportunidade única de empreender inovação, e também uma possibilidade de assumir uma posição de vanguarda frente a uma situação onde se impera o conservadorismo, devem ser os combustíveis necessários para quem almeja uma posição de liderança. Pois o líder é o primeiro que faz o caminho onde muitos irão trilhar.

Está na hora de ver a crise com outros olhos.

Artigo publicado originalmente em minha página no LinkedIn em https://www.linkedin.com/pulse/crise-%C3%A9-um-momento-oportuno-andre-arruda-dos-santos-silva 

A auditoria das dívidas soberanas

Uma das bandeiras que se levantam em diversos países é o da auditoria da dívida soberana. Ou seja, a realização de um balanço amplo para detectar e mensurar o tamanho da dívida pública de um país.

Depois das crises nacionais da Argentina, Grécia, Itália, Espanha e outros países, a necessidade de se auditar a dívida para que se limpe a dívida de agiotagem e capital especulativo se faz urgente.

Os países, assim como pessoas e empresas, captam recursos para financiar seus custos e prover melhorias. E também, de acordo com seu histórico de dívidas e pagamentos, apresentam uma reputação perante o mercado. Porém o capital especulativo pode corromper e manipular os mercados visando maiores lucros. Foi assim com o escândalo de manipulação cambial ocorrido em 2009 e no qual o Real foi envolvido, e a batalha nos tribunais que o governo argentino trava contra os credores que não aceitaram o acordo de parcelamento da dívida em 2001.

As dívidas soberanas precisam de regras claras para não serem alvo do capital especulativo. A especulação da dívida pode ser proporcionada pela manipulação de mercados onde os países atuam, ou ainda, pela especulação de papeis, forçando países a aceitar condições de crédito abusivas.

Mas antes de definir as regras, é preciso saber exatamente o tamanho da dívida. E é aí que a auditoria entra. A auditoria vai definir quais os papéis estão válidos, quais estão com credores sérios e quais estão no jugo da especulação financeira. Pois ainda há a possibilidade de países ter cobrança de dívidas já caducas, ou inválidas. A auditoria da dívida visa separar o joio do trigo e leva aos países uma maior segurança e responsabilidade sobre o déficit público, assim como busca dar maior credibilidade aos papéis públicos, protegendo-os do capital especulativo. 

Após a auditoria da dívida, a gestão da dívida fica mais simples e mais segura, podendo inclusive, criar mecanismos para que boa parte da dívida fique a salvo do capital especulativo. Por exemplo, tornar boa parte dos títulos nominais, de modo que apenas o credor que tem posse sobre o título, tenha direitos sobre ele. Assim, a dívida pública, manteria-se sob controle, e possibilitaria que países possam se proteger de juros agiotas, manipulação de papéis e evasão de divisas, sem contar no incentivo ao investimento direto, que é um portante gerador de riquezas.

A auditoria da dívida pode ser o primeiro passo para que países possam estar a salvo de crises, onde para honrar seus compromissos, acabam aumentando os ônus financeiros sobre o cidadão. Este é o que mais sofre com as crises financeiras, pois o dinheiro que paga em tributos, acaba no bolso do desonesto especulador. 

Sou a favor

Imagine a seguinte situação.

Uma pessoa jovem e homossexual, que tem uma família muito conservadora. Acontece que esta família descobre sua sexualidade e, impiedosa, expulsa essa pessoa de casa. Com ajuda de amigos, vai a luta, estuda, se forma e conhece o amor de sua vida, que teve a mesma história: foi expulsa de casa pelos pais, que não aceitavam sua homossexualidade. Juntas estas duas pessoas, compartilham vidas, além de compartilhar um patrimônio juntas.

Porém um dos pares vem a falecer.

Como o patrimônio produzido pelo casal é relevante, a família da pessoa falecida vem, judicialmente requerer parte dos bens, pois infelizmente, o casal não estava amparado por um testamento, e as leis não ofereciam garantias de que essa união fosse legal. 

A família da pessoa falecida ganha a ação. Judicialmente a questão pode ser correta, mas justiça não se fez ali.

No Brasil, milhões de crianças estão à espera de adoção. E milhões de pais querem adotar. Porém a conta não bate, e por quê? Pois os pais que procuram adoção querem escolher os filhos que querem adotar.

O que houve nos Estados Unidos hoje foi um marco histórico. O reconhecimento em âmbito nacional do casamento gay é um divisor de águas na história da luta LGBT por respeito, dignidade e cidadania.

Porém, ao contrário dos EUA, o Brasil pode dar um passo para trás com o estatuto da família. Casais homoafetivos não teriam mais o direito de adotar, pois este estatuto propõe um modelo excludente de família, que é o liderado por um casal heterossexual.

Não concordo com esse tipo de lei, que marginaliza pessoas. A legislação que se propõe justa, deve ter caráter inclusivo.

Ao contrário do que se pensa, pois a tola alegação dos contrários ao direito de casamento e adoção aos casais homoafetivos, leva a crer que o comportamento sexual poderia “contaminar” a educação e à formação moral das crianças. A opinião é preconceituosa e sem nenhuma base teórica.

Estamos muito próximo de atestar que boa parte do comportamento sexual humano é algo inato. E que o comportamento sexual é restrito a sua afetividade, sem afetar suas atividades profissionais, intelectuais, culturais, familiares e sociais.

Por tudo isso, só resto dizer:

Tenho muito orgulho de ser a favor do casamento gay, pois o amor sempre há de vencer. 

Nosso universo

Quando nascemos, temos um contato com um universo bastante restrito. Nossa família, nosso berço, nosso quarto, nossa casa. Mas aos poucos, enquanto crescemos vemos que o nosso universo conhecido aumenta de tamanho. Conhecemos outras pessoas, outros familiares, fazemos amizades e conhecemos pessoas de outros lugares, conhecemos as ruas, os condomínios, a escola, a praça. E sem perceber, vemos naturalmente esse universo conhecido se expandir mais e mais.

Através da educação escolar, leitura e meios de comunicação de massa nosso universo passa a ter conexões com o mundo a ponto que este faça se inclua, tornando-nos apenas uma parte bastante diminuta dele. Este contato com o conhecimento pode nos chocar, mas também pode nos impelir a conhecê-lo, dependendo da forma como este mundo é apresentado para nós.

O papel da escola neste processo é vital para prover as pessoas um entendimento desse universo, de modo que a pessoa se sinta parte dele e que possa assumir que também é seu agente de transformação.

Crescemos e boa parte de nossos conhecimentos são consolidados. Mas os filtros que recebemos nos geram distorções, todas elas calçadas no princípio fatalista do inevitável, do imponderável, do imutável, de um universo perene e estático. Muitas das teorias que vemos na sociedade, religião, administração e política advém desse princípio de estabilidade. E este é o grande erro. Esse geocentrismo social é a causa-mor da maioria dos conflitos humanos, pois na maioria das vezes, quer se substituir uma cultura estática por outra, em alguns casos antagônica, porém também estática. O homem teme a mudança, ainda mais quando esta é sutil. A lógica imposta ao homem é de um dualismo perverso: ou a estagnação plena, ou a mudança radical.

A sabedoria de entender a natureza, e entender que as mudanças não são pontuais, e sim constantes, é um dos mais duros ensinamentos que a humanidade precisa (e teme) aprender. Pois ao aceitar o dinamismo de seu universo, onde este continuamente se expande e muda, o homem, plenamente integrado à seu meio, passa a ter um comportamento mais inclusivo, admitindo com naturalidade a diferença e agindo de forma a incluir esta diferença em seu universo. 

O temor do Homem em admitir a mudança como um processo contínuo se dá por auto-defesa. Observe os grupos políticos e religiosos mais fervorosos. São aqueles em que seus conceitos são os mais rígidos e onde sua doutrina é embasada no imperativo de fidelidade e coerência a esses conceitos. Existe uma ligação íntima entre identidade e postura, como se a postura adotada pelas pessoas, indicassem a que grupo pertencem. O auto-conceito e a identidade agem como um catalisador, pois o anseio das pessoas em ter uma identidade pré-estreia seus pares, se ver incluso em uma coletividade induz as pessoas a fazer parte de grupos e agir de forma igual. E agindo igual, plenamente identificados em seus grupos, tendem a sentir-se fortes, pois não se sentem mais frágeis e sozinhos. E o isolamento social com a solidão são sinônimos de morte para o homem, já que seu legado biológico e social é marcado para descarte. E a cultura social que comemos tornou-se quase instintiva pela evolução das organizações coletivas humanas, dos bandos, para tribos, destes, para aldeias, cidades, concentrações urbanas, países até chegarmos a atual situação de aldeia global.

O que vemos hoje é o desgaste deste modelo geocêntrico. A ideia de que vivemos sob um universo estático e imutável coloca a humanidade em conflito com a própria natureza que o cerca e com ela mesma. Haverá um tempo que haveremos um Coppernico que possa mostrar a humanidade que não apenas a Terra, mas tudo o que há nela não são estáticos. Mas muitas pessoas ainda preferem a cômoda situação de se iludir e se defender da mudança a enfim, aceitá-lá, libertando-se de seus paradigmas. 

Panelas

Ontem ouvi panelas batendo. Era o pronunciamento do partido dos trabalhadores na televisão. Estava saindo do trabalho. Era uma região onde podiam se avistar condomínios de alto padrão. Comecei a pensar.

É na panela onde a comida que comemos é preparada.

Se batemos panelas, essas panelas estão vazias.

Panela vazia é um símbolo muito forte, pois representa a vontade de comer, frustrada pela ausência de alimento, que deveria ser preparada na panela.

Mas quem bateu panela ontem, na sua maioria, não eram pessoas em boas condições sociais, que de seus condomínios, produziam um barulhento protesto?

Então, qual a fome que eles sentiam?

Fome de quê?

Lembrei agora da música Comida, cantada pelos Titãs.

Pois fome, representa também uma necessidade profunda que demanda saciedade imediata.

Mas estes que batucavam panelas protestavam contra a Dilma e contra o PT. Não defendo o governo, mas também não dou o menor apoio a esse tipo de manifestação, que, por ser balizada em condenar um acusado pela identidade e não pelo crime, faz com que o Trensalão seja apenas um equivoco e o Petrolão um crime de lesa-pátria, mesmo que ambos sejam falhas gravíssimas.

A ausência de critério deslegitima e torna o panelaço um espetáculo dantesco de desinteligência, ignorância política e hipocrisia.

Seria menos hipócrita, se estes que batem panelas também protestassem contra as ações trogloditas no congresso, contra a ocultação por parte do congresso e da mídia do SwissLeaks, contra o massacre contra os professores do Paraná, e o descaso do governo de São Paulo em relação aos seus professores, contra a falta de água, os escândalos dos trens, operação Zelotes, e por aí vai…

Mas infelizmente, essas pessoas preferem acreditar somente nos fatos que são convenientes, então… Continuem batendo enlouquecidamente suas panelas até que alguém os ouça, ou os cale…

A “heterofobia”

Vi estampada na capa de uma revista voltada para o público cristão a matéria destacada sobre o que eles chamam de “heterofobia”, ou o movimento dos ativistas LGBT contra os cristãos e contra a defesa da heterossexualidade.

Ao ver destacada na capa da revista tal matéria, a qual confesso que não li o seu teor, fiquei pensando o que seria a realidade heterofóbica, em comparação a outra realidade, a da homofobia.

Nunca ouvi falar em casais heterossexuais sendo reprimidos por demonstrar carinho em público, sequer sofreram agressão física ou verbal por se beijarem, ou andar de mãos dadas. Também não conheço nenhum caso de uma pessoa ser impedida de frequentar um local gay por ser hetero, ou ser preterido em um processo seletivo por preferir sexualmente pessoas do sexo oposto. Também nunca ouvi falar de pessoas estupradas por gays e lésbicas (exceto quando estas pessoas têm transtornos psicológicos severos) para “correção de sexualidade”. Tampouco vi homens e mulheres mortas por gays pelo simples fato de ser heterossexuais. 

Daí concluí: a homofobia é uma triste realidade, já a heterofobia, é uma farsa.

A defesa desses cristãos em vilanizar a comunidade LGBT e forjar uma verdade como farsa e uma farsa como verdade é simples. Os paradigmas que os sustentam como poder e influência sobre as pessoas. O poder dessas igrejas está calcado nestes paradigmas (sexo apenas para reprodução, e obediência severa aos dogmas cristãos entre outros).  Porém vemos que a realidade não é estática tal qual prega a Bíblia, mas dinâmica, pois o tempo, as circunstâncias e a sociedade mudam. A diversidade sexual é para os líderes cristãos uma severa ameaça a seus fundamentos pois mostra ao homem, através de sua mais primitiva fonte de prazer, que sendo esta livre, esta liberdade se expande para o pensamento a atitude e o livre arbítrio.

Vai ter quem discorde comigo, contra-argumentando que a heterofobia é sim uma ameaça, que está no início e que deve ser extirpada o quanto antes, para que não se expanda e saia do controle. Mas ao nobre incauto, lhe questiono, para que possa refletir: por qual razão a homofobia, quando começou a ser levantada como ideias nas mentes e conversas não teve a mesma oposição e combate?

Portanto não devemos cair na tolice de defender uma ameaça que na prática, não existe, e que serve apenas para alimentar outra, real, aniquiladora e covarde. 

O conto de 20 de abril

Já no ônibus, a caminho do trabalho faltando dez pras uma da tarde, dou de cara com um outdoor de uma academia, a qual já sou cliente e me fez lembrar que não fui malhar hoje, e nem ontem. Eu não consegui acordar hoje, estava num desânimo só.

Ontem foi a razão do desânimo da manhã seguinte: por um erro alheio e por um erro próprio. O erro alheio se deu a um time de futebol que assinou um sádico regulamento de um campeonato, em que se deveria jogar 5 partidas em um pouco mais de uma semana, e ainda assim, ter que decidir nos pênaltis mesmo tendo a melhor campanha. Endividado e cansado, pressionado por uma emissora de TV, com início de temporada precoce, maratona de jogos, enfim… Sempre gostei do esporte bretão, e inclusive durante a peleja que parou São Paulo pra ver, eu estava praticando em um parque quase vazio, mas com alguns praticantes honrando a tradição brasileira de pátria de chuteiras, embora a maioria deles jogassem descalços.

O segundo erro foi meu. Embora o prejuízo financeiro foi pequeno, o prejuízo moral foi enorme, a ponto de me colar ao colchão a manhã inteira. Não foi algo que me levasse às lágrimas, mas a uma profunda reflexão. As epifanias deveriam ser eventos corriqueiros em vez de raros. O nosso ego e autoestima muitas vezes nos cegam e cerceiam o direito de aprender com nossos próprios erros. Concluí que apesar de ter tido algumas evoluções nestas últimas semanas, após períodos de reflexões e epifanias, ainda há um longínquo caminho a seguir. E ao descobrir meu calcanhar de Aquiles, vi que é preciso uma vigilância maior de modo a reforçar meus pontos fracos. Pensei em me afastar de tudo aquilo que poderia me por em risco, mas entendo que a melhor forma de vencer seus medos é em vez de fugir, conviver com eles, de modo que estes deixem de o afligir. Foi assim que parei de fumar.

Pois é. A sabedoria advém de todos os lugares. Basta ler.

Famílias de comercial de margarina

Dia 31 de março de 2015 marcou um triste episódio da defesa dos direitos humanos e do combate racional à violência. Foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça por 43 votos contra 21, a proposta de emenda constitucional que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

Mais uma vez, os políticos do Brasil não entendem e não usam o poder que tem nas mãos com sabedoria. Mais uma vez se atacam os efeitos em vez das causas. Mais uma vez os congressistas brasileiros atuam de forma passional, irracional e irresponsável quanto ao futuro do país e quanto à questão da violência e da questão do menor em situação de conflito com a lei.

O cerne da questão está num dos pontos ao qual os senhores parlamentares, sobretudo a bancada religiosa, não quer mexer, por contrariar seus interesses: a família. É na família onde são cultivados os valores que conduzem a sociedade a uma situação de paz social, ordem e respeito mútuo. Outro ponto importante que também é relegado, por contrariar os interesses dos donos do poder é a educação.

A melhor forma de combater a violência e resolver a questão do menor em conflito com a lei, não é com punição e sim com prevenção. E a prevenção vai muito além da educação familiar, passa pelo planejamento familiar, e até do conceito de família.

O conceito de família é uma questão que a bancada religiosa quer intervir, para impedir o reconhecimento do Estado de casais LGBT com filhos, sejam estes naturais, ou por meio de adoção, como sendo uma unidade familiar, por meio do nefasto estatuto da família.

Esta mesma bancada evita ao máximo tocar em questões delicadas como o aborto ou programas públicos de contracepção. O objetivo é claro: o controle das pessoas através de uma “padronização” e “normatização” do comportamento sexual, como ferramenta de controle, pois diz-se que quem controla o sexo, controla o homem.

Retirar o controle do comportamento sexual da igreja e dar às pessoas o direito de livre arbítrio, seria a abolição do poder e influência desses grupos sobre a sociedade, o que também representaria a perda de seu poder político e social.

Tanto é que o moralismo e ações de cunho excludente e corretivo são a tônica desses grupos. Seria perfeitamente compreensível, porém bastante reprovável, o apoio destes à redução da maioridade penal.

A família é o mote de defesa destes grupos. Porém o modelo de família que estes defendem é um modelo deturpado, excludente e leviano, um modelo aparentemente perfeito aos olhos das divindades que acreditam, que é muito parecido com a família apresentada nos comerciais de margarina. Este tipo de família, não existe: é um modelo utópico, que não deve ser imposto à sociedade, pois é um modelo excludente. Tão excludente quanto milhares e milhares de jovens, que por estar em conflito com a lei, serão afetados por uma solução burra em reduzir a maioridade penal.

Acabar com a impunidade não é jogar o jovem no lixo, como propõe a redução da maioridade penal. A educação do jovem tem que vir desde o começo, com a concepção da família. Pais e sociedade são corresponsáveis pela criação de nossos filhos. Não podemos permitir que a questão sexual e familiar seja banalizada e desmoralizada desta forma. O planejamento familiar, o incentivo a contracepção, a educação familiar e escolar, com a difusão de valores, como o respeito ao próximo, a valorização da vida e o desapego aos valores materiais. Devemos também ter o entendimento de que a mídia, a cultura e a propaganda devem estar em consonância com estes valores, com o combate à propaganda infantil, a democratização da mídia, a regulamentação e fomento à cultura, com o incentivo a movimentos culturais e socieis que privilegiem as raízes brasileiras e os valores humanos.

Por outro lado, devemos punir, sim, aqueles que colocam nossos adolescentes no crime. Temos que também repensar o modelo penal em que vivemos, pois este apenas agrada os aristocratas, que preferem fugir e esconder os problemas, ao invés de enfrentar e solucioná-los. O modelo de prisão como depósito de gente, com superlotação, sem atividades de trabalho e educação, além da reintegração do indivíduo à sociedade, não é a solução efetiva para o problema da violência e da criminalidade, além de ser um ônus para a sociedade, que tem que arcar, além dos custos de operação dos presídios, com o fato de estas pessoas detidas deixarem de contribuir para a sociedade. Temos também que tornar a punição aos aliciadores de menores para o crime e para a prostituição mais rígida. Também temos que observar os pais que não arcam com a educação dos filhos, seja pela questão de formação inadequada para compor uma família, seja pelas ações que os direcionam para valores incompatíveis com o que se espera de um convívio social.

Para resolver a questão do menor, devemos abolir a família do comercial de margarina. Devemos admitir que o modelo familiar é diverso, porém focado em desenvolver crianças e jovens, preparando-as para o convívio em sociedade de forma harmônica e progressista.

O heroísmo de Cid Gomes

Não vim aqui para falar da figura de Cid Gomes, mas do ato de ontem que culminou em sua demissão do cargo de ministro da Educação. Talvez tenha sido o fato mais emblemático de uma turbulenta semana que se iniciou com as passeatas e protestos contra o governo no domingo. Cid foi chamado ao congresso e não se conteve às acusações que recebeu do presidente da casa, Frank Underwood, ops, Eduardo Cunha, partindo para o ataque, ao dizer que prefere ser tido como mal-educado a ser acusado de achaque, além de dizer que além de Cunha, há cerca de 400 achacadores no congresso.

Palavras duras a ponto de Cunha pedir a cabeça do ministro em uma bandeja para Dilma, o que foi prontamente atendido, a ponto de o mesmo fazer o primeiro anúncio da queda do ministro.

Palavras duras, mas ilustram bem o desprestígio que a casa tem em sua atual magistratura. Atolado em escândalos, corrupção, desmandos em viagens, chantagens ao executivo, o congresso nacional brasileiro se encaminha para uma espiral paralisante.

O ato de coragem de Cid, embora fatal para sua carreira de ministro da educação, representou um desejo, que embora resignado, de muitos brasileiros, indignados, de fazê-lo contra um congresso, que arrogantemente dá de ombros quanto a situação do país, fingindo que o problema da corrupção não é com ele.

O ato de Cid lembrou um trecho de uma música de Arnaud Rodrigues e Chico Anysio, quando interpretavam Baiano e os Novos Caetanos, chamada Cidadão da Mata em que dizia: “Quem morre por último é o heroi, e o heroi é o caba que não teve tempo de correr”.

Por que “Orgulho Hétero”?

Qual o oposto de orgulho? Vergonha.

Orgulho é um sentimento de quem sente satisfação por ser de uma determinada maneira, ou pertencer a uma determinada classe.
Vergonha, por sua vez é a insatisfação ou constrangimento de ser ou pertencer a uma classe.

Orgulho e vergonha estão relacionados, muitas vezes a condições naturais e permanentes, que tem uma origem natural, inata, em alguns casos tão profundos, que podem ser imutáveis.

Por que existe o orgulho gay, o orgulho negro, o orgulho feminino? Pois estas classes de pessoas eram discriminadas por sua condição, muitas vezes marginalizadas e impedidas de exercer sua cidadania e seus direitos por suas antíteses tidas como dominantes: homens, brancos e heterossexuais (esse não é o padrão na política, na cultura, desporto, mídia e propaganda?)

E este tipo de “norma” não é por acaso. Serve para manter um controle, uma situação de domínio de uma minoria (um grupo que exerce posição de liderança), contra uma maioria (dominada, obediente, subserviente). E essas normas são estabelecidas para, primeiro, gerar pontos de conflito internos, que desestruturem a maioria, mantendo uma condição estabelecida, e segundo, para gerar uma falsa sensação de hierarquia social, colocando aqueles que estão obedecendo a este padrão como privilegiados e os que estão fora dele, como marginalizados.

Quem está fora da “norma”, e observa atentamente a esse jogo percebe este panorama de Discriminar para controlar, e se tornam alvo dos defensores da norma. Algumas igrejas, partidos políticos e grupos como a Ku-klux-clan ou nazi-fascistas adotam a estratégia de eleger um “inimigo” para motivar e unir seus seguidores. Eles claramente reafirmam seu orgulho, em troca do constrangimento e aniquilação de seus alvos.

Será que o orgulho hétero é um contraponto de quem quer manter o ódio e o preconceito contra a comunidade LGBT?
Será que o orgulho hétero é um contraponto de quem quer manter o ódio e o preconceito contra a comunidade LGBT?

Taí o temor de assumir uma posição de orgulho de pertencer a uma situação dominante e de maioria, pois esta posição pode desencadear um sentimento de rivalidade, ódio e desejo de aniquilar um grupo que não esteja alinhada a esta posição dominante. Foi assim que o holocausto surgiu.

Somente deixará de fazer sentido a questão de ostentar um orgulho de pertencer a uma classe, quando diferenciar deixar de ser uma questão relevante, ou seja, quando todas as pessoas de grupos heterogêneos estejam sob um mesmo patamar de direitos e deveres, e determinada característica inerente a pessoa deixe de ser condição para conceder direito, ou outorgar dever.

Se há o orgulho gay, negro, ou feminino, é porque estes grupos querem reverter uma condição de desigualdade imposta a eles. Uma condição que muitas vezes os põem em condição de desvantagem.

Por que ainda há diferença de remuneração entre homens e mulheres, em trabalhos iguais? Por que pessoas negras, tem em média uma escolaridade pior do que brancos, e por que a maioria das vítimas da violência policial são negros e pardos? Por quê um casal homoafetivo não tem naturalmente direito a herança, pensão, adoção?

Agora entendeu porque não faz o menor sentido ter orgulho em ser privilegiado?

(adaptado de um comentário meu no facebook em resposta a um “amigo” que defende o dia do orgulho hetero, por considerar “igualdade de direitos”)