Até quando, liberdade?

Era um domingo de sol, não tão calorento quanto nos verões, porque estamos no outono, mas era um domingo agradável, com sol bonito e caloroso. Eu precisava sair para respirar um ar fresco. Até porque o ar confinado, mesmo que seja só o seu, costuma ser tóxico e ficar enfurnado em casa não é saudável nem para o corpo, nem para a mente. Minha cabeça estava a mil, mil pensamentos, mil coisas a fazer, sonhos estranhos, muita raiva acumulada. Talvez uma visão mais ama do céu fosse ajudar. Calcei um tênis, pus minha máscara e fui.

Tentei correr, mas as pernas não suportaram o primeiro quilômetro. Encerrei a corrida e fui caminhar. Minhas caminhadas são longas, no mínimo de uma hora, e durante a caminhada procuro não pensar em muita coisa, bastando observar o movimento: as crianças brincando, homens e mulheres com seus cachorros, algumas outras, como eu, fazendo algum exercício. A minha caminhada costuma ser feita em uma praça um pouco distante, não apenas por ser tranquila, mas por ser um estranho alí, dificilmente seria incomodado.

Voltei e fui pra uma praça mais próxima de casa. E aí olhar para o céu, azul, vi uma batalha de pipas, que se degladiavam, comandadas por crianças, adolescentes, jovens e alguns adultos, quase todos homens. A disputa era acirrada, grupos empinavam pipas, tentando com linha cortante, derrubar do céu outros pipas. Quando um pipa era derrubado, ouve-se gritos de ‘mandado’ e há uma correria de crianças e jovens para apanhar o pipa que caía do céu.

É uma cena surreal em plena pandemia, mas é uma cena real. Crianças e jovens não vinham sendo afetados pela doença do COVID. Tanto que a quantidade de crianças e jovens usando máscara era muito pequena. Eu era um dos poucos mascarados em dezenas de pessoas na praça.

É um momento de crença e descrença. Onde escolhemos o que é a verdade como quem muda um canal de TV. O doloroso é saber, que para muitos desses, que agarram falsas verdades, a verdadeira verdade irá lhe impor uma dolorosa lição. E a verdade somente triunfará quando todos acreditarem nela.

É como diz na bíblia: Conheça a verdade e ela vai te libertar. Somente iremos alcançar a verdadeira liberdade quando os mentirosos perderem todo seu poder. A liberdade será a pomba branca que irá nos avisar que a verdade venceu. Até quando, liberdade? Até quando iremos te esperar? Ainda tenho esperança.

Não faça a cama na varanda

Essa situação toda de pandemia me fez lembrar um trecho de uma música do pai do rock brasileiro, Raul Seixas, que dizia:

Enquanto todos fraquejavam contra o frio

Eu fiz a cama na varanda

Raul Seixas

Eu me lembrei dessa música pois todo final de semana eu vejo festa e aglomeração nas ruas do meu bairro. Agora de noite eu estou ouvindo música alta, e pessoas cantando, como se não existisse nenhuma pandemia, como se não tivesse morrido nesse país mais de 350 mil pessoas por conta da covid-19.

Sem referências a memes, eu não gostaria que essa festa virasse um enterro. Mas as pessoas parecem fazer de tudo para que isso aconteça. Ao passar pela rua, por conta de algumas necessidades que tenho que fazer, como comprar alimentos, ou mesmo fazer uma caminhada para manter o corpo em movimento, eu vejo pessoas ou sem máscara, ou usando no queixo ou com o nariz de fora ou segurando na mão em vez de no rosto.

Comecei a pensar: tento manter a minha lucidez, mas a vontade de me desesperar é enorme. Tal como no filme de terror que a gente sabe muito bem que o personagem não deveria ir por aquele caminho e vai, nós vemos dezenas milhares milhões de brasileiros marchando para uma roleta russa que pode ser extremamente dolorosa.

No meu bairro tem um jovem rapaz que está na UTI. Covid. Respirando por aparelhos. Pode demorar para se recuperar, ou ter sequelas que podem inclusive impossibilitar de trabalhar, de estudar, de ter uma vida normal.

Me preocupo muito com a situação de muitas pessoas. Porque elas precisam trabalhar e sair de suas casas para trazer o sustento para suas famílias. Essas pessoas não possuem outras alternativas, não podem ficar em isolamento social, não podem trabalhar em home Office, não podem aderir a um Lockdown. Não possuem nenhum tipo de suporte, como uma renda mínima, uma bolsa aluguel, uma cesta básica. Do contrário, entraram para estatística de desempregados, de pessoas individados, de pessoas em situação de miséria, de pessoas com fome.

Muitas dessas pessoas descobriram, às duras penas, que o Messias não existe, e o que se apresenta como Messias, quer apenas ser eleito em 2022.

Muitos fraquejam contra o frio, pois este é um inverno rigoroso que infelizmente vai continuar ceifando vidas. Não é hora de pôr a cama na varanda, pois é capaz de não mais acordarmos. Temos que evitar as farras, as visitas, os cultos, as aglomerações. Temos que ficar o máximo de tempo possível em casa. Temos que lutar usando a nossa voz nas redes, por um auxílio emergencial que de fato contemple as necessidades das famílias brasileiras que estão em risco neste momento. Temos que desmentir os mentirosos. Temos que combater o mal que nos avizinha. Temos que ser solidários, que apesar da carestia, nós podemos ajudar com um pouquinho para as pessoas necessitadas. A campanha de arrecadação de alimentos e dinheiro para a distribuição de cestas básicas as pessoas que estão na mais absoluta miséria. Procure saber sobre essas campanhas, e participe. E por fim, tenhamos mais empatia e consciência. Pois tudo que nós fizermos nesta pandemia não será apenas por nós mesmos, e sim por todos.

A humanidade nunca foi provada dessa forma. Há quem diga que seria esta a nova era de aquário. Uma era de consciência e de construção de uma nova sociedade. Sabemos que nossa cultura e valores eram baseados em conceitos que se desvaneceram. E que já está na hora de novos conceitos assumirem seu lugar. A pandemia nunca nos forçou há termos que aprender tão rápido para que nós possamos sobreviver, seja de corpo, mente ou espírito. E a esse aprendizado que devemos tomar para nós, pois nessa pandemia, a humanidade só se salvar, se de fato se unir.

O babaca do ano

Está chegando ao fim o famigerado ano de 2020. O ano em que muitos de nós, seres viventes homo sapiens deste planeta Terra, não guardamos em nossas lembranças com muito carinho. Um ano em que fomos rasgados por uma pandemia, que adiou planos, que destruiu famílias, que trouxe dor, medo e incerteza.

E todo final de ano nós reunimos os cacos para saber o que é o joio e o que é o trigo nessa imensa balbúrdia. E simbolicamente destacamos e enaltecemos o que foi bom e o que foi ruim no decorrer desses 366 longos dias de 2020. Sim, amigos, este foi um ano bissexto, um dia a mais de um ano que se tornou torturante a partir de março.

Então é hora de prestarmos as nossas homenagens e para um ano tão estranho para os “padrões normais”, que instituimos a excêntrica honraria de eleger o babaca do ano.

Não faltaram concorrentes, porém nós temos que puxar o fio da meada pois os personagens, que figuram nas mídias e redes, mais babacas e infames de sempre, fizeram de tudo para conquistar tal honraria este ano, porém já são al concours. São pessoas que com a sua opinião fétida, seu discurso tóxico e suas ações absurdas tornaram esse ano ainda mais difícil para grande maioria desses seres humanos. mas esses personagens folclóricos do que há de mais perverso no âmago da humanidade não existiriam se não houvesse quem batesse palma para esses loucos dançarem.

Por essa razão tal honraria não pode ser oferecida a uma liderança dessa insana idiotice. Esse líder só existe porque há alguém que acredite nele. Por isso o prêmio de babaca do ano vai para você.

Você que não suporta o que é diferente, que não aceita o mundo com mais cores, com mais amores, com mais diversidade. Você que se agarra mais a crença do que aos fatos. Você que dá carteirada, que pergunta “sabe com quem está falando?”, O que usa seu poder para humilhar os outros, e que abdica do seu poder para se safar. Você que prefere filmar com o celular a tragédia do que tomar partido dela. Você que deseja fazer justiça com as próprias mãos, por acreditar que a sua “justiça” é mais justa do que a justiça das leis e dos homens. Você que não admite o erro, a falha, o defeito e some como se nada fosse contigo. Você que desconfia apenas por desconfiar, que olha o preto como animal, a mulher como lixo e o LGBT como piada. Você que vive pondo a culpa nos outros. Você quer um filho que foge à luta. Você que quer medir os outros usando a sua régua. Você que acha que o outro tem que morrer. Que todos têm que ser iguais a você. Que farinha pouca é meu pirão primeiro. Que tem que levar vantagem em tudo. Que segue a cartilha do ódio, usando a falsa e hipócrita fé como álibi.

Aqueles trastes que tanto tu críticas na verdade espelham daquilo que tu és. Se hoje nós vivemos envoltos a tamanha idiotice e insanidade, é porque muitos de nós procuramos nos espelhar naquilo que há de mais torpe e cruel, quando deveríamos nos espelhar naquilo que nos engrandece e nos torna humildes.

Todos nós assim acabamos por ser babacas. De um jeito ou de outro, pois olhamos cada vez mais para nós mesmos e esquecemos que existe uma palavra que precisamos praticar todos os dias para vivermos melhor com os outros: a empatia.

Rejeite o título de babaca do ano, mas dizer não, não basta. Precisamos repensar as nossas atitudes. Precisamos nos por no lugar do outro. Precisamos ser melhores sempre. Para que o prêmio de babaca do ano deixe de fazer sentido.

Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Homem não faz milagre

Eu já vi propaganda a beça. Há muita oferta de soluções milagrosas para males possíveis e impossíveis de solução. Sempre vem um e se ilude. Acredita no milagre que é oferecido, mas mesmo que se obtém um resultado prometido, ele vem com um preço, uma conseqüência, ou uma perda.

Se prometem o corpo sonhado, a beleza plena, mas ou você tem que prejudicar sua saúde, ou colocá-la em risco, ou gastar rios de dinheiro, ou se tornar escravo de seu próprio desejo.

Prometem-se potência sexual, mas ao custo de se envergonhar por ela, ou arruiná-la de vez.

Vende-se diplomas, ao custo da estupidez e do erro.

Vende-se riqueza ao custo da honradez, da honestidade e da própria liberdade.

Vende-se a verdade, que não passa de mentira.

Vende-se a palavra, para se obter a injustiça.

Vende-se antidepressivos que podem levar ao suicídio.

Vende-se a sensação perene de felicidade, em troca do vício.

Vende-se o erro, para forjar o certo.

Vende-se a informação, para produzir desinformação.

Vende-se o conhecimento para produzir ignorância.

Vende-se a fé, para gerar a descrença.

Vende-se um padrão, para produzir discórdia e desigualdade.

Vende-se honestidade para travestir o desonesto.

O fato é que tudo o que se vende como solução definitiva e imediata não passa de farsa.

Aprendi com as idas e vindas da vida que tudo se resolve com tempo e esforço. Não é de uma hora para outra que se encontra o final feliz de nossos dramas. Vi muitas mudanças radicais, advindas do tempo, senhor da razão, ou da ação, do sacrifício e da intensa luta. E quando há luta intensa, sempre traz consigo perdas significativas, que só se curam com o tempo. O tempo é o principal ator, mas não pode ficar sozinho.

Aquele que manipula o tempo, sofre, cedo ou tarde com as consequências de sua manipulação. O tempo cobra o preço do atraso ou do indevido adiantar.

Quando vejo pessoas dizendo que tudo vai mudar com Bolsonaro, eu não sei se rio, se tento convencer, se tento dissuadir ou se simplesmente ignoro.

Mas entendo que se iludir com a solução imediata pode parecer incrível, mas é muito comum. Somos bombardeados por propaganda todos os dias, prometendo tudo. Até mesmo o que não parece propaganda, é de fato, e um dos elementos da velha propaganda é a manipulação das informações, a mudança do viés, e até mesmo a mentira, e a omissão da verdade.

Ele promete uma solução imediata para todos os problemas, com palavras voluntariosas e palatáveis aos ouvidos leigos.

Mas os problemas que afligem os milhões de brasileiros, não surgiram ontem, como se fosse um surto endêmico. Foram anos e anos de desigualdade, séculos e séculos de questões mal-resolvidas, que impedem de nós enxergarmos o Brasil como uma nação fraterna de irmãos e iguais. Questões que ele ignora, que trata com descaso, e somente aborda termos vendidos nos jornais, revistas, rádios e televisões, cujos donos são aqueles que querem, coincidentemente, monopolizar a opinião pública com as questões que ele defende resolver.

Ele fala o que as pessoas ouviram na mídia e propaganda como verdades absolutas, mas não são tão verdadeiras e ocultam as verdadeiras lacunas que precisamos resolver.

A verdade é que entendo a verdade que me cerca e também a concretização da barbárie quando ele se eleger.

14 anos de governos petistas criaram uma nova percepção de Brasil. Tanto que durante o curto governo Temer, foi evidente o contraste e o quão necessária a consciência e participação política das pessoas, não apenas no período eleitoral.

A eleição de amanhã será, na prática, um plebiscito: se abdica da democracia, ou entra nela de vez.

A publicidade clássica de Bolsonaro, amplificada pelas mídias sociais e WhatsApp, pode coagir o povo brasileiro a abdicar de seu direito democrático. É o apelo e o alerta daqueles que não foram hipnotizados por sua propaganda. É o apelo de muitos que ignoraram o risco que Bolsonaro representa, mas que acordaram a tempo. Mas também é o apelo daqueles que sempre estiveram atentos e lutaram contra a artimanha opressora do midiático.

Esta eleição configura o maior movimento pela democracia desde 1984. E esperamos que o desfecho seja diferente, daquela ocasião, onde o desejo se viu frustrado por uma manipulação política. Da mesma forma que o povo ansiou naquela época, hoje possa, ao exercê-la, manter seu anseio democrático.

Sozinhos não estamos

Eu hoje em minhas andanças, no vagão do metrô, uma senhora que estava à minha frente elogiou a minha camiseta. Estava estampada uma charge da personagem Mafalda de Quino. Nela estava escrito “Sim às democracia! Sim à justiça! Sim à liberdade! Sim à vida!” Ela elogiou minha coragem por conta do momento tão nebuloso que atravessamos. E se emocionou. Também fiquei comovido, não apenas com a nossa conversa, mas porque por tudo o que passamos e tememos, vemos que não estamos sozinhos.

Ela me falou sobre um movimento de meditação em busca da paz. Precisamos de paz e também de coragem para continuarmos resistindo ao mal que sufoca a razão e a solidariedade que deveríamos ter.

Nesses oásis de humanidade em um deserto de ódio. Só o fato de não estarmos sozinhos nos fortalece. E nos traz um pouco de alento.

Sozinhos não estamos.

Síndrome de Borba Gato

Você conhece Borba Gato?

Borba Gato era um bandeirante. Desbravou São Paulo, mas às custas da morte de milhares de índios. Mesmo com este viés tirano e genocida, a história, por muito tempo, o aclamou como heroi. Esse personagem ilustra bem o sentimento que algumas pessoas, ao verem a vitória eleitoral de Dilma Rousseff, expressaram naquele momento.

São Paulo ainda guarda o berço de um narcisismo político oriundo da política café-com-leite. Muitos paulistas acreditam ainda que o estado é o carro-chefe do Brasil. O pensamento conservador do paulista, sobretudo nas urnas, pode ser considerado como consequência desta crença na liderança. São Paulo vê a posição hegemônica desvanecer e tenta, com todas as forças, defender essa posição. Este paradigma é observável pela postura arrogante de seus governantes. Age com truculência contra posições contrárias, mantém velhas práticas políticas reprováveis, busca a resolução dos problemas agindo sobre os efeitos, e não as causas, mantém uma conduta hipócrita quanto a corrupção, alimentam uma cultura nacionalista paulista, além de intervir no processo educacional, de modo que a educação seja apenas funcional e voltada para o mercado de trabalho. Por conta dessas práticas, não seria de se admirar o tamanho do apoio dado pelo estado a Aécio Neves, e a reação de muitos destes, de forma desrespeitosa e truculenta, ao resultado desta eleição. Ao apontar vergonha em relação ao resultado do pleito e ao hostilizar nordestinos e beneficiários do programa bolsa-família, evidencia-se a ignorância e o desrespeito ao próprio país.

Como o estado de São Paulo sempre ostentou ser um estado rico, a tola crença em creditar a derrota de seu candidato favorito às classes pobres beira a um fanático devaneio. Até porque muitos dos que hoje estes trucidam, ajudaram-os a construir a riqueza deste estado, sem contar que poderão ter o sangue nordestino correndo em suas veias, dada a  miscigenação. A mudança é que até a década de 1990, todas as políticas nacionais de desenvolvimento eram voltadas apenas para o centro-sul do país. Às regiões norte e nordeste, apenas programas assistencialistas, exceção à Zona Franca de Manaus. A visão de alguns especialistas é que, para que o Brasil tenha um ritmo de crescimento e desenvolvimento sustentável, seria preciso um projeto de âmbito nacional, e que contemplasse todas as localidades do país, concentrando ações em locais onde este desenvolvimento estivesse em condições de crítica carência. A balança regional brasileira precisava ser equilibrada. Após a estabilidade econômica, em 1994, já era possível buscar o equilíbrio regional, que ganhou um impulso maior com as últimas administrações. Daí o apoio à continuidade do governo, por parte das regiões que mais foram beneficiadas com estes programas. As regiões do centro-sul do país, que já possuíam um grau de desenvolvimento, viram esta busca pelo equilíbrio regional, como uma ameaça. Primeiro, porque aumenta a concorrência econômica, tanto na disputa por instalação de empresas, quanto na questão tributária. Depois porque a pujança de arrecadação tributária se reduziu sensivelmente, dada a concorrência interna com outras regiões quanto pela redução dos repasses de arrecadação de tributos federais para estes locais. Isto forçou estes estados a caminharem por dois viéses: ou o viés nacionalista e defensor do paradigma, ou o viés de busca de uma melhor eficiência gestora, com melhor organização dos recursos e desenvolvimento de uma gestão mais ágil, menos burocrática e mais efetiva. Ficou claro qual dos viéses foi escolhido. A estagnação dos estados do centro-sul não se deu pelo desenvolvimento dos estados do norte-nordeste, e sim, pela ausência de capacidade e competência de seus governantes em se adaptar a uma nova realidade integrada ao contexto nacional atual.

Tanto que alguns exaltados até defendem o separatismo: a separação das regiões do sul, com o norte-nordeste. Desde muito tempo, o Brasil vem sendo governado de forma segregada, com privilégios às regiões sul e sudeste do país. É perfeitamente compreensível, porém inaceitável, que quando se ensaia uma política integradora do país, quem sempre era privilegiado passe a agir com rancor, e desejar o retorno da velha norma.

Nas redes sociais, viram-se manifestações bastante condizentes com manifestações fascistas, onde a xenofobia, o nacionalismo regional e nacional, a defesa de paradigmas, a fé e o manifestações de ódio, com perseguição a grupos políticos e de origem regional ganham tônica. O que se viu a seguir foi uma reação a este pensamento, com a repreensão e condenação destes atos. O momento é delicado e exige-se razão, além de serenidade. Pois este processo eleitoral foi o mais intenso e acirrado da história da República Brasileira, e pode ser considerado um teste de estresse da atual democracia do Brasil.

Agora, devemos nos questionar: estamos sendo o melhor de José de Anchieta, ou o pior de Borba Gato? Sejamos, não importa se paulistas, sulistas ou nordestinos todos brasileiros.

Internet: Um porto seguro

Hoje, o senado federal aprovou o marco civil da internet, e entrará em vigor após sanção presidencial. Esta lei provocou muita discussão e polêmica, pois havia interesses de muitos setores da sociedade e da mídia neste marco regulatório.

De fato, o controle de um meio de comunicação tão plural e livre como a internet (ainda que não plenamente democrático no Brasil), nos leva a uma reflexão bastante ampla sobre o papel da mídia em nossa sociedade. Neste artigo quero destacar dois pontos que são chave de uma disputa de interesses: a neutralidade da rede e os direitos autorais na rede.

A neutralidade da rede é um tema que encontra bastante oposição por parte das operadoras de telefonia e provedores de serviços de internet. Há alguns especialistas como Ethevaldo Siqueira, que defendem que algumas aplicações como a tele-medicina tenham prioridade de tráfego. Mas, infelizmente, é sabido de todos que o intuito de estabelecer prioridades no tráfego por parte dos provedores de acesso à internet é meramente financeiro. Quem paga mais, tem maior prioridade de acesso à rede. Um exemplo é a estrutura de internet via cabo. Pergunta-se o porquê de haver diferentes velocidades (e preços), se a estrutura física de uma rede internet via cabo é a mesma, inclusive compartilhada com outros serviços como TV e telefonia. Por isso a neutralidade da rede se faz necessária, para trazer dois efeitos: inibir as operadoras a sucatear serviços de planos de acesso mais baratos e forçar os usuários a migrarem para planos mais caros, e exigir dessas operadoras, por não poder priorizar tráfego de dados, a trabalhar de forma séria na acessibilidade e qualidade dos serviços prestados.

A questão do direito autoral na rede é um embate entre o velho modelo de mídia e um rompimento de paradigma que este velho modelo representa. Desde o início do século XX, quando boa parte da produção cultural se profissionalizou, pelo advento dos meios de comunicação de massa e mídias, como a fotografia, o rádio, o cinema, o fonógrafo, e seus sucessores, vê-se a produção cultural como um produto com valor agregado. Este produto tem um valor tangível, que é a mídia na qual este produto é veiculado, e outro intangível, porém valorado, que é o direito de uso e reprodução. As empresas de mídia, imprensa, empresas de telecomunicação, produtoras de cinema e gravadoras, viram como bastante rentável a monetização plena da produção cultural. Porém, a cultura é uma manifestação social, e ao tratá-la como um produto, seu sentido muitas vezes se perde. Cria-se filtros, ditam-se tendências, e assim, viu-se a mídia como uma importante ferramenta de controle da sociedade por meio da opinião, da monopolização do comportamento e senso comum.

A internet é um meio de comunicação que não precisa de formalismos para se estabelecer a comunicação. Não precisa de alvará de funcionamento como jornais e editoras, não requer concessão pública como as TV’s e rádios. É própria do ideal de Glauber Rocha: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, expressão essa que pode ser modernizada, como “um dispositivo na mão, capaz de espalhar ideias guardadas em nossas cabeças para um mundo conectado”. E esse modelo livre é uma ameaça ao modelo antigo do “produto cultural”, pois é uma concorrência forte e sem controle, sem liderança, sem acumulo de riqueza, de capital.

Claro que, a pretexto de defesa de direitos de execução e difusão, estas empresas de mídia querem restringir o acesso à informação. Um exemplo é a concessão de direitos de transmissão e cobertura jornalística de eventos de interesse público, como a Copa do Mundo, Olimpíadas, Shows, e até eventos políticos. Uma visão padronizada muitas vezes é formada por filtros que buscam omitir detalhes que possam comprometer a imagem desses eventos, por exemplo. Portanto, esse valor intangível da produção cultural e humana é a criação de um produto que não deveria existir, um golpe contra a livre manifestação artística e cultural em benefício de conglomerados de mídia. Os artistas ganham migalhas de direitos autorais. São as empresas que retém a maioria dos recursos de copyright arrecadados.

Este modelo está sucumbindo, mas estes conglomerados tentam a todo custo manter-se incólumes, com o uso de lobby político. Porém observa-se que existe um movimento de contraposição a este velho modelo. Com adventos tecnológicos cada vez mais acessíveis, é possível produzir cultura de qualidade a baixo custo, e a internet é o grande motor da difusão cultural. Inclusive há casos de sucesso em que a internet se tornou um meio de propagação para as mídias tradicionais. O filme “Tropa de Elite” é um exemplo. Uma versão inacabada vazou na rede, e o filme se tornou um sucesso de público, inclusive fazendo com que sua sequência se tornasse o filme de maior bilheteria da história do Brasil. Diversos novos artistas surgiram na rede. A internet tornou-se uma possibilidade de oportunidades iguais a todos. É um campo neutro em que todos jogam em igualdade de condições. Novas formas de financiamento como o Croudfounding, e novas formas de monetização sem custos elevados e sem intermediadores, mudaram o modelo de atuação e manutenção de um novo modelo cultural, independente e promissor. Este modelo descentralizado é temerário para os grandes conglomerados de mídia, pois reduzem o poder de influência que até então acreditavam possuir. E o uso do direito autoral é a arma que estas organizações tem para limitar a manifestação artística, pois muitas destas definições de direitos são baseadas em critérios subjetivos e muitas vezes vagos, apresentadas de forma astutamente jurídica, para que em caso de dissídio, sejam sempre de julgamento favorável a tais instituições.

Garantir que a internet continue sendo um campo livre, porém com normas que garantam o respeito a todos sem nenhum efeito danoso é fundamental para um marco civil perfeito. Mesmo com o projeto pronto e aprovado, a própria natureza dinâmica da internet nos impõe um debate permanente e que deve impor atualizações a este marco civil. Esta conexão não deve cair.

Meu Partido é um Coração Partido

Tem gente que pensa que os partidos políticos não servem para nada. Alguns os hostilizam pois esperam que eles nos representem, e no entanto acreditam que estes representam interesses privados e não públicos.

Se é ruim com eles, pior sem eles, e isso tem nome: DITADURA!

Para quem não estudou, nosso país é uma República Federativa, cuja política é organizada por meio de uma Democracia Representativa. Se o sistema não está funcionando, é porque quem está nos representando, não está agindo de acordo com as vontades do povo.

Por isso é importante entender e fortalecer a figura de partido político, mas que tenha compromisso com o povo, e não com seus próprios interesses.

Ano que vem, tem eleições gerais no Brasil. Vamos continuar os protestos nas ruas, mas também nas urnas não devemos esquecer. Devemos escolher grupos políticos que de fato nos representam, priorizando não as personalidades que se candidatam, mas todo o contexto que os envolvem.

Se o povo soubesse que votando no Tiririca, iria eleger o Mensaleiro Valdemar da Costa Neto, jamais o povo votaria no pobre palhaço, que por sinal, surpreende no congresso com atuação destacada.

O momento é de ir às ruas para que os políticos saibam que eles são nossos representantes e devem governar este país em consonância com nossos interesses, sem hostilizar os partidos, mas aqueles que não representam o povo.

Pois quem odeia partido, rejeita o modelo democrático, e é contra a mudança por vias legais e éticas. Precisamos conter o extremismo e a ignorância pela deturpação dos fatos.

Em tempo: há pessoas que não estão entendendo o que acontecem e confusas, acabam defendendo o fascismo. Armamentismo, redução da maioridade penal, militarismo, defesa da família tradicional são pautas fascistas. Tomem muito cuidado, pois podem estar parafraseando Mussolini sem perceber.