2020: o ano em que vidas importam

2020 está para chegar à seu final. Isso certamente com tudo que aconteceu, uma importante lição temos que tirar desse ano que foi muito triste, muito trágico, muito desolador. 2020 foi o ano em que aprendemos sobre a importância da vida. Não apenas a nossa vida, mas a vida dos outros que estão à nossa volta.

Começamos falando sobre os incêndios florestais. Primeiro na Austrália, depois na Amazônia e no Pantanal. A vida selvagem importa. Plantas e animais sucumbiram ao fogo causado direta ou indiretamente pela ação do homem: diretamente pelas queimadas e indiretamente pelo aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa lançados na atmosfera em meio a uma ganância industrial, cada vez mais impiedosa e feroz.

Depois veio a pandemia que paralisou o mundo e fez tombar pela moléstia milhões de pessoas em todo mundo. Dezenas de páginas diárias de obituários na Itália. Dezenas de covas abertas em Nova York, Rio de Janeiro, Manaus e São Paulo. Pessoas morrendo nas calçadas no Equador. Lockdown, distanciamento social, uso de máscaras, colapso no sistema de saúde ruas desertas, economias paralisadas, desemprego em massa, fome e miséria. Desde março, a pandemia nos impôs uma rotina macabra, onde tememos perder silenciosamente nossos entes queridos, pois a maioria das pessoas que sucumbiram tinham comorbidades ou estavam em idade avançada. Vidas frágeis importam.

Eu não consigo respirar. Foram as últimas palavras de George Floyd, um homem preto estadunidense que morreu estrangulado por um policial branco. A rotina da pandemia foi interrompida por uma série de protestos nos Estados Unidos com adesão maciça de grandes personalidades do entretenimento e do esporte, com destaque aos atletas de basquete da NBA. Em novembro, na véspera do dia da consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por seguranças do supermercado Carrefour de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O debate da questão racial no Brasil ganhou força, pois sabemos que por mais que tentem provar o contrário, o Brasil possui embutido em sua cultura o racismo estrutural. No Rio de Janeiro, uma família inteira foi metralhada por ser confundida com traficantes apenas por serem negros. Uma mulher em São Paulo teve a cabeça presa ao chão com os joelhos de um policial. É corriqueiro um caso ou outro de racismo no Brasil e no Mundo, que inclusive fez com que o jogo de futebol na França fosse paralisado. Vidas negras importam.

Morta a facadas na frente dos filhos na véspera do Natal. A violência doméstica e o feminicídio também estiveram presentes esse ano. Também completou-se mil dias sem a resposta para uma pergunta inquietante: quem mandou matar Marielle Franco e Anderson, e por quê? Nessas eleições mulheres sofreram ofensas e injúrias apenas por serem mulheres e pleitear em um espaço que é legitimamente delas: o espaço onde elas quiserem ocupar. Mulheres assediadas e violentadas sexualmente, sem direito de defesa. Seja empresário, artista, políticos. Não importa a idade, nem menores de idade estão respeitando. Mais do que nunca, vidas femininas importam.

Cada vez mais LGBTs são agredidos. E as mulheres trans são as maiores vítimas. Os casos de transfobia cresceram esse ano e com a pandemia ficou ainda pior. Marginalizadas, e muitas tendo como a prostituição um meio de sobrevivência. Um grito de basta foi a eleição da mulher mais votada para vereadora no Brasil: Erika Hilton, uma mulher trans preta em São Paulo. Em Belo Horizonte, Duda Salabert, outra mulher trans, foi uma das mais votadas. Para vencer a opressão, é preciso ocupar espaços e denunciar as agressões. Vidas Trans importam, vidas LGBTQIA+ importam.

A tirania foi a tônica de governos de alguns países do mundo, que usaram a pandemia como álibi para impor ainda mais restrições as pessoas. A regra é simples: obrigações e negações de direitos para muitos e privilégios para poucos. A pandemia revelou a miséria e o desastre dessa política de exclusão e morte. Da negação da pandemia e a inação governamental, vemos um poder cada vez mais distante de quem mais precisa de sua ação. A democracia enfim, saiu do coma, impôs algumas derrotas aos tiranos. Caiu Macri, a proibição do aborto e a isenção de impostos para grandes fortunas na Argentina, caiu o golpe na Bolívia, caiu a constituição do Pinochet no Chile, e caiu Donald Trump nos Estados Unidos. A democracia no mundo respira. Vidas democráticas importam.

Este ano foi um ano em que nunca se viu antes o papel individual das pessoas no seu cotidiano. Com a pandemia, quase toda a população mundial teve que mudar o modo de vida e passou a ver o outro de uma forma diferente, mesmo que à distância. O isolamento social nos fez notar o quão estamos distantes uns dos outros, e o quão empáticos deixamos de ser. Vivemos sob um modo de vida em que somente aquilo que nos rodeia era tido como importante. Hoje vemos que aquilo que o outro faz pode sim nos afetar. Que uma irresponsabilidade alheia pode nos trazer sofrimento e morte. Que exemplos vindos de outras pessoas que até então idolatrávamos, podem nos dar um bom ou um mal caminho. Tudo ficou mais próximo, mais visível. O fogo que ardia na Amazônia trouxe chuvas de cinzas em São Paulo. O doente assintomático de covid, que pegou a doença em uma festa clandestina, passou a doença para seus pais e avós que não resistiram. 2020 nos impôs a necessidade de sermos protagonistas e corresponsáveis por um mundo que nos ensina a sermos mais empáticos e mais humanos. Vidas além das nossas importam.

O confinamento, o bombardeio de notícias negativas, o escárnio e o desdém de outras pessoas, a guerra digital nas redes e as perspectivas cada vez mais sombrias de um futuro próximo, testaram nossos nervos e nossas emoções. Nunca ficamos tão distantes e tão desolados, nunca choramos tanto, nunca fomos tão flagelados pelo isolamento social e pela distância que tivemos que nos impor para salvar as nossas vidas e as vidas de quem amamos. Nunca precisou-se tanto de motivos para sorrir. Nunca precisamos tanto de um cafuné, de um ombro amigo e de um colo para chorar. Nunca nos sentimos tão frágeis, tão indefesos diante de uma situação de calamidade. Nunca estivemos tão cansados, tão atordoados, tão insanos e desesperados diante de um cenário tão adverso. Quem passou por esse momento tão difícil, jamais irá esquecer a agonia dos dias de 2020. Quem perdeu entes queridos e amigos na batalha contra a pandemia jamais irá esquecer o quão doloroso é a vida se esvaindo pelos dedos. Neste fim de ano, as vidas que se foram se tornaram um tributo para continuar lutando e valorizando cada vez mais a vida. Pois hoje e sempre: a vida importa.

O babaca do ano

Está chegando ao fim o famigerado ano de 2020. O ano em que muitos de nós, seres viventes homo sapiens deste planeta Terra, não guardamos em nossas lembranças com muito carinho. Um ano em que fomos rasgados por uma pandemia, que adiou planos, que destruiu famílias, que trouxe dor, medo e incerteza.

E todo final de ano nós reunimos os cacos para saber o que é o joio e o que é o trigo nessa imensa balbúrdia. E simbolicamente destacamos e enaltecemos o que foi bom e o que foi ruim no decorrer desses 366 longos dias de 2020. Sim, amigos, este foi um ano bissexto, um dia a mais de um ano que se tornou torturante a partir de março.

Então é hora de prestarmos as nossas homenagens e para um ano tão estranho para os “padrões normais”, que instituimos a excêntrica honraria de eleger o babaca do ano.

Não faltaram concorrentes, porém nós temos que puxar o fio da meada pois os personagens, que figuram nas mídias e redes, mais babacas e infames de sempre, fizeram de tudo para conquistar tal honraria este ano, porém já são al concours. São pessoas que com a sua opinião fétida, seu discurso tóxico e suas ações absurdas tornaram esse ano ainda mais difícil para grande maioria desses seres humanos. mas esses personagens folclóricos do que há de mais perverso no âmago da humanidade não existiriam se não houvesse quem batesse palma para esses loucos dançarem.

Por essa razão tal honraria não pode ser oferecida a uma liderança dessa insana idiotice. Esse líder só existe porque há alguém que acredite nele. Por isso o prêmio de babaca do ano vai para você.

Você que não suporta o que é diferente, que não aceita o mundo com mais cores, com mais amores, com mais diversidade. Você que se agarra mais a crença do que aos fatos. Você que dá carteirada, que pergunta “sabe com quem está falando?”, O que usa seu poder para humilhar os outros, e que abdica do seu poder para se safar. Você que prefere filmar com o celular a tragédia do que tomar partido dela. Você que deseja fazer justiça com as próprias mãos, por acreditar que a sua “justiça” é mais justa do que a justiça das leis e dos homens. Você que não admite o erro, a falha, o defeito e some como se nada fosse contigo. Você que desconfia apenas por desconfiar, que olha o preto como animal, a mulher como lixo e o LGBT como piada. Você que vive pondo a culpa nos outros. Você quer um filho que foge à luta. Você que quer medir os outros usando a sua régua. Você que acha que o outro tem que morrer. Que todos têm que ser iguais a você. Que farinha pouca é meu pirão primeiro. Que tem que levar vantagem em tudo. Que segue a cartilha do ódio, usando a falsa e hipócrita fé como álibi.

Aqueles trastes que tanto tu críticas na verdade espelham daquilo que tu és. Se hoje nós vivemos envoltos a tamanha idiotice e insanidade, é porque muitos de nós procuramos nos espelhar naquilo que há de mais torpe e cruel, quando deveríamos nos espelhar naquilo que nos engrandece e nos torna humildes.

Todos nós assim acabamos por ser babacas. De um jeito ou de outro, pois olhamos cada vez mais para nós mesmos e esquecemos que existe uma palavra que precisamos praticar todos os dias para vivermos melhor com os outros: a empatia.

Rejeite o título de babaca do ano, mas dizer não, não basta. Precisamos repensar as nossas atitudes. Precisamos nos por no lugar do outro. Precisamos ser melhores sempre. Para que o prêmio de babaca do ano deixe de fazer sentido.

Somos todos miseráveis

Desde domingo assumimos nossa condição de miseráveis.

Nossa miséria é política. Nossa miséria é ideológica. Somos miseráveis em valores. Somos miseráveis em verdades.

Nossa miséria é egoísta. É paranóica. É mentirosa, desonesta. Nossa miséria atua em interesse próprio. Nossa miséria é hipócrita. Nossa miséria é a mais miserável das misérias.

Todos os dias a vemos. Reclamamos dela, mas dela somos cúmplices. Como um amor escondido, onde a maldizemos em público, mas nos encontramos com ela secretamente.

Acusamos a miséria alheia e não admitimos a nossa. Vivemos nosso jogo tolo de acusações para mostrar ao mundo que o outro é o retrato da miséria. Mas a miséria somos todos nós.

A miséria difama. A miséria agride. A miséria bate. A miséria silencia. A miséria sentencia. A miséria proíbe. A miséria assedia. A miséria humilha. A miséria ordena. A miséria mata. E nos torna cada vez mais miseráveis.

Hoje temos edificado o espelho de nossa miséria. O ódio é a miséria. A tirania é a miséria. O charlatanismo é a miséria. E logo veremos a pobreza, a morte, a perseguição e o arbitrário revelarem a face mais sombria de nossa miséria.

Devemos admitir que somos miseráveis. A humildade em assumir as falhas é o prenúncio de nossa redenção.

Só deixaremos de ser miseráveis quando combater a nossa miséria e não crer que ela está no outro.

Hoje não é dia de parabéns

8 de março. Dia internacional da mulher. Parabéns???

Não. Dar parabéns a mulher por seu dia de luta contra a desigualdade de gênero é no mínimo, deboche. Afinal, ainda estamos muito longe de essa data marcante em nosso calendário deixar de fazer sentido.

Apesar de a maioria da população brasileira ser feminina, ganham menos, mesmo com média de escolaridade maior, sofrem mais com a crise, pois são as preferidas a ser dispensadas, possuem maior dificuldade em ascender na carreira profissional, e são preteridas para seleções em cargos de chefia.

Fora a jornada dupla que tem que enfrentar, já que em um país patriarcal, machista e misógino como o nosso, todos os afazeres domésticos são de sua incumbência. De fato é uma desigualdade injusta.

Hoje não é dia de parabéns, é dia de luta, é dia de desculpas, é dia de empatia. Não podemos achar que no dia 8 de março sejamos benevolentes com as mulheres, quando o resto do ano tratamos com desprezo e desrespeito.

Sobretudo às mulheres trans que são todos os dias assassinadas neste país e não tem espaço nenhum no mercado de trabalho, caindo muitas delas na prostituição para sobreviver.

Não podemos esquecer que este dia é um dia de lembrar que houve muitos avanços a começar pelos direitos do trabalho e o direito ao voto no início do século passado. A mulher vem ocupando seus espaços e a luta é para que não haja barreiras para que elas continuem exercendo sua liberdade e dignidade. Pois lugar de mulher é onde ela quiser.

Não diga parabéns para a mulher pelo seu dia. Diga obrigado, diga desculpe, diga estou contigo.

Síndrome de Borba Gato

Você conhece Borba Gato?

Borba Gato era um bandeirante. Desbravou São Paulo, mas às custas da morte de milhares de índios. Mesmo com este viés tirano e genocida, a história, por muito tempo, o aclamou como heroi. Esse personagem ilustra bem o sentimento que algumas pessoas, ao verem a vitória eleitoral de Dilma Rousseff, expressaram naquele momento.

São Paulo ainda guarda o berço de um narcisismo político oriundo da política café-com-leite. Muitos paulistas acreditam ainda que o estado é o carro-chefe do Brasil. O pensamento conservador do paulista, sobretudo nas urnas, pode ser considerado como consequência desta crença na liderança. São Paulo vê a posição hegemônica desvanecer e tenta, com todas as forças, defender essa posição. Este paradigma é observável pela postura arrogante de seus governantes. Age com truculência contra posições contrárias, mantém velhas práticas políticas reprováveis, busca a resolução dos problemas agindo sobre os efeitos, e não as causas, mantém uma conduta hipócrita quanto a corrupção, alimentam uma cultura nacionalista paulista, além de intervir no processo educacional, de modo que a educação seja apenas funcional e voltada para o mercado de trabalho. Por conta dessas práticas, não seria de se admirar o tamanho do apoio dado pelo estado a Aécio Neves, e a reação de muitos destes, de forma desrespeitosa e truculenta, ao resultado desta eleição. Ao apontar vergonha em relação ao resultado do pleito e ao hostilizar nordestinos e beneficiários do programa bolsa-família, evidencia-se a ignorância e o desrespeito ao próprio país.

Como o estado de São Paulo sempre ostentou ser um estado rico, a tola crença em creditar a derrota de seu candidato favorito às classes pobres beira a um fanático devaneio. Até porque muitos dos que hoje estes trucidam, ajudaram-os a construir a riqueza deste estado, sem contar que poderão ter o sangue nordestino correndo em suas veias, dada a  miscigenação. A mudança é que até a década de 1990, todas as políticas nacionais de desenvolvimento eram voltadas apenas para o centro-sul do país. Às regiões norte e nordeste, apenas programas assistencialistas, exceção à Zona Franca de Manaus. A visão de alguns especialistas é que, para que o Brasil tenha um ritmo de crescimento e desenvolvimento sustentável, seria preciso um projeto de âmbito nacional, e que contemplasse todas as localidades do país, concentrando ações em locais onde este desenvolvimento estivesse em condições de crítica carência. A balança regional brasileira precisava ser equilibrada. Após a estabilidade econômica, em 1994, já era possível buscar o equilíbrio regional, que ganhou um impulso maior com as últimas administrações. Daí o apoio à continuidade do governo, por parte das regiões que mais foram beneficiadas com estes programas. As regiões do centro-sul do país, que já possuíam um grau de desenvolvimento, viram esta busca pelo equilíbrio regional, como uma ameaça. Primeiro, porque aumenta a concorrência econômica, tanto na disputa por instalação de empresas, quanto na questão tributária. Depois porque a pujança de arrecadação tributária se reduziu sensivelmente, dada a concorrência interna com outras regiões quanto pela redução dos repasses de arrecadação de tributos federais para estes locais. Isto forçou estes estados a caminharem por dois viéses: ou o viés nacionalista e defensor do paradigma, ou o viés de busca de uma melhor eficiência gestora, com melhor organização dos recursos e desenvolvimento de uma gestão mais ágil, menos burocrática e mais efetiva. Ficou claro qual dos viéses foi escolhido. A estagnação dos estados do centro-sul não se deu pelo desenvolvimento dos estados do norte-nordeste, e sim, pela ausência de capacidade e competência de seus governantes em se adaptar a uma nova realidade integrada ao contexto nacional atual.

Tanto que alguns exaltados até defendem o separatismo: a separação das regiões do sul, com o norte-nordeste. Desde muito tempo, o Brasil vem sendo governado de forma segregada, com privilégios às regiões sul e sudeste do país. É perfeitamente compreensível, porém inaceitável, que quando se ensaia uma política integradora do país, quem sempre era privilegiado passe a agir com rancor, e desejar o retorno da velha norma.

Nas redes sociais, viram-se manifestações bastante condizentes com manifestações fascistas, onde a xenofobia, o nacionalismo regional e nacional, a defesa de paradigmas, a fé e o manifestações de ódio, com perseguição a grupos políticos e de origem regional ganham tônica. O que se viu a seguir foi uma reação a este pensamento, com a repreensão e condenação destes atos. O momento é delicado e exige-se razão, além de serenidade. Pois este processo eleitoral foi o mais intenso e acirrado da história da República Brasileira, e pode ser considerado um teste de estresse da atual democracia do Brasil.

Agora, devemos nos questionar: estamos sendo o melhor de José de Anchieta, ou o pior de Borba Gato? Sejamos, não importa se paulistas, sulistas ou nordestinos todos brasileiros.

A mãe, a amiga e a p*ta

Em uma sociedade machista e conservadora como a nossa, espera-se de uma esposa três comportamentos distintos: a mãe, a amiga e a prostituta. É triste ver que a mulher valha para o homem tão pouco. A mulher não deve ser a sombra do homem atendendo somente a suas necessidades afetivas, domésticas e sexuais. A mulher precisa também ter suas necessidades plenamente satisfeitas de modo que possam buscar sua satisfação de maneira livre e independente.

A cultura machista, sexista e patriarcal a qual estamos submetidos, coloca a mulher em um estágio bem abaixo do digno. Os salários são menores, sofrem com o desrespeito, subestimam sua capacidade intelectual e de habilidades e são constantemente vistas mais pelo aspecto sexual. Nunca vi de tamanha insensatez homens jovens referindo às mulheres pela genitália feminina, como se estas somente servissem para isso.

Ainda busca-se a famosa “Amélia”. Aquela que era mulher de verdade, que não tinha a menor vaidade… Esse conceito de mulher Amélia é o da mulher submissa e doméstica que somente cuidava dos afazeres domésticos e conjugais. A mulher Amélia não existe mais, mas insistem em achar que a mulher deve ficar em casa, rebaixando sua dignidade quando realiza atividades tipicamente masculinas como trabalhar ou dirigir. Todo homem tem necessidade de afeto materno. Este afeto é censurado pela cultura machista pois tornaria o filho efeminado. Quando o homem se casa, essa necessidade de afeto pode ser enfim, preenchida, mas não de forma idêntica à forma que havia na infância, pois quem estaria no comando agora seria o “filho”. E assim, este “filho” crescido buscaria na esposa os cuidados que recebia quando era criança pela mãe, mas sem as obrigações que a mãe impunha ao filho para educá-lo. Este saudosismo maternal pode ser observado em alguns relacionamentos através do comportamento infantil dos homens, e pelo desleixo que eles fazem em suas ações cotidianas como o uso de ambientes, utensílios e pela recusa e sensação de incapacidade frente a atividades domésticas.

É curioso que a amizade da esposa, ao modo machista de ver, nada mais é do que uma concordância cega e aceitação de opinião de forma incontestável. O homem é quem manda e a mulher deve apenas aceitar a opinião do marido, mesmo que não concorde. Duas mentes trabalham melhor e é da divergência é que surge o consenso e com isso, melhores alternativas para questões pontuais ou para planos futuros.

Em suma, homens e mulheres podem conviver em um mesmo espaço de forças em um relacionamento. Não é por questões culturais que um deve se sobressair ao outro. É necessário um diálogo e um entendimento entre as partes para que um relacionamento se torne algo benéfico para ambos em um par. E para isso deve deixar de existir que uma mulher somente serve para ser a mãe, a amiga e a prostituta.