Carnaval Em Diadema

Segunda-feira, sete de fevereiro de 2005, onze horas da noite. Avenida Brasília, congestionada; pessoas nas calçadas, acompanhando a algazarra que se formara no bairro do Campanário em Diadema-SP. Um verdadeiro desfile se formava em plena segunda-feira de carnaval, sem arquibancadas, sem hora marcada. A escola de samba Raposa do Campanário havia vencido o carnaval deste ano na cidade. Passistas, integrantes, bateria e os intérpretes num carro de som animavam a multidão que se formava no bairro para acompanhar. Alegria era o sentimento ali presente e o sorriso era presença constante nos semblantes dos componentes da escola que cantavam animadamente os sambas-enredo que os intérpretes puxavam.O resultado da apuração do desfile saiu um pouco antes, à tarde. Ao término da apuração, a escola terminou empatada com a campeã do ano passado, mas como foi melhor no quesito da Ala das baianas, sagrou-se campeã. Mais do que nunca, orgulhosamente eu pude narrar esses fatos, não apenas como mera testemunha, mas como um de seus personagens. Tudo foi muito rápido. A escola desfilou na madrugada de domingo para segunda, soube do resultado à tarde e desde então, já comemorava o título; em menos de 24 horas. A escola entraria na avenida às 00:15. O enredo falava sobre a influência da mitologia no cotidiano da comunidade. Fui convidado por um amigo a ser destaque em um dos carros alegóricos. O problema é que eu havia chegado ao local do desfile, mas a minha fantasia, não. Seria frustrante demais se eu não desfilasse, pois já estava empolgadíssimo com a idéia. Procurei por diretores de harmonia, pessoas responsáveis pela escola e até procurei pelo presidente da escola, sem sucesso. Parecia que não iria desfilar, e um dos diretores de harmonia até me deu uma camiseta de apoio, para ajudar a empurrar um dos carros. Até que faltando pouquíssimos minutos para o início do desfile, resolvi dar minha última cartada, e para minha surpresa, minha fantasia havia chegado. Na rua mesmo, tirei minha roupa e vesti a fantasia e corri para o carro que iria empurrar para guardar minhas roupas. Mas a fantasia rasgou e tive que amarrá-la no improviso. Consegui arrumar a fantasia e corri para o carro em que iria desfilar, que acabei sabendo que era o carro abre-alas, e que seria um dos dois soldados que estariam à frente no carro. Seria um dos primeiros destaques, o mais próximo do público a aparecer na avenida, que estava lotada. Tudo pronto, para o desfile, mas fui avisado que não havia sido contado pelos fiscais do desfile, e nova correria. Cheguei ao fiscal e dei baixa. Os problemas terminaram, o desfile vai começar. ?Depois da tempestade, vem a abonança?. Nunca este ditado popular fez tanto sentido, naquele momento. Parecia extasiado, iluminado. Seria a minha grande noite, e certamente foi, em grande estilo. Era a hora de sacudir a multidão, como dizia o samba-enredo, que mesmo sem decorar, não errei um verso sequer durante todo o desfile. ?Tem jubileu/ de prata pra comemorar/ a Raposa está em festa/ o amor está no ar…?, começavam a cantar os intérpretes. E minha animação se intensificou. Depois de tantos problemas resolvidos antes do desfile, o momento agora é de extravasar a alegria. Apesar de não haver muita liberdade de movimento, por causa da fantasia e do lugar onde estava (era destaque em uma espécie de biga romana), tinha que criar alguma coreografia para chamar o público. Enquanto cantava o samba enredo, pensava em alguma coisa a fazer com os braços, que era à parte do corpo que estava livre. Tive um insight: ao ouvir o refrão: ?Gira, gira, gira, baiana/ Deixa o samba te levar/ hoje é carnaval meu amor/ e o cupido pode te flechar…?, pensei: estou fantasiado de soldado, logo poderia dar… FLECHADAS! Isso! Vou mandar flechada para o povo que estava assistindo nas arquibancadas. E a coreografia acabou dando certo. Tinha uma certa facilidade para essas coisas: enquanto era cantado Gira, Gira, Gira, baiana, girava o dedo no ar e muitas pessoas repetiam o meu gesto. E quando era cantado E o cupido pode te flechar, mandava uma flechada para a multidão. Isso fez com que eu estivesse em foco no desfile. Fotógrafos e cinegrafistas (sim, havia cinegrafistas por lá) passaram a me filmar e fotografar, e mesmo assim continuei agindo naturalmente, como se não estivessem ali (aprendi isso com o teatro). Foi muito bom ajudar a escola de samba a sacudir as arquibancadas e sem contar que haviam muitos conhecidos que me reconheceram na avenida (e me zoaram também). Do outro lado não havia arquibancadas, apenas os jurados que avaliavam a apresentação da escola. Lembrei-me, naquele momento que minha fantasia estava improvisada, e que a escola perderia pontos se o remendo fosse notado. A sorte é que as cabines dos jurados estavam identificadas com os quesitos os quais iriam julgar. Isso permitiu que rapidamente virasse minha fantasia antes de passar pelo jurado de alegorias. Enquanto o remendo ficou pro lado do público, o jurado não notou nenhum defeito na fantasia. Assim que terminou a alegria, pude ver a satisfação dos componentes da escola. Havia um brilho no olhar de cada um. Uma sensação do dever cumprido, uma certeza de vitória. O certo é que a escola se apresentou muito bem na avenida e isto foi o suficiente para que todos saíssem de lá felizes.Cheguei em casa por volta de duas e meia da manhã. Cansado, mas satisfeito. Foi um dia atípico e bem carnavalesco, como sempre gostaria que fosse o carnaval, mas nunca havia logrado êxito, por todos esses anos. Acordei bem tarde, às três da tarde. Já havia começado a apuração das notas. Não havia como saber de imediato o que estava se passando. Então fui ao clube. E quando voltei, comecei a ouvir comentários: ?Parece que a Raposa ganhou o carnaval?. Fui até a sede da escola para conferir. Era verdade: a Raposa do Campanário ganhou o carnaval da cidade. Muita alegria e festa. Conversei com muitas pessoas que desfilaram ou estavam nas arquibancadas, torcendo pela escola. E as pessoas que me viram elogiaram minha atuação. E as que assistiram o desfile e me conheciam confessaram que não teriam coragem de desfilar como eu fiz. A única decepção que tive foi à pequena repercussão da imprensa local na internet. Estava louco pra mostrar aos meus amigos, as fotos do desfile o qual participei. Mas a notícia saiu e até fui mencionado na matéria do Diário do Grande ABC na versão on-line no endereço do jornal e também no site da prefeitura de diadema.

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